02 / 11 / 2008

Um toque feminino no chão de fábrica

Graxa, produtos químicos perigosos, manuseio de máquinas pesadas, macacão feio e masculinizado, preconceito…
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por Camila Micheletti

Graxa, produtos químicos perigosos, manuseio de máquinas pesadas, macacão feio e masculinizado, preconceito… Nada disso impediu a engenheira Maria Angélica de Oliveira Naús de ir em busca da sua realização profissional. Quando ainda cursava Engenharia Mecânica pela Faculdade Federal de Itajubá, Angélica foi a primeira mulher a fazer estágio na área de alto forno da Usiminas, em Ipatinga/MG, e era uma das responsáveis pela inspeção dos equipamentos. “Quero ter as mesmas chances que os homens têm. Sempre batalhei para trabalhar no chão de fábrica, pois só assim seria capaz de entender e comandar áreas produtivas (Manufatura)”.

Depois ela foi para a Mannesmann, empresa de siderurgia de São Caetano do Sul/SP. Por três meses, ela estagiou na área de trefilaria de rolos e barras e lidava diariamente com máquinas pesadas e materiais perigosos. A terceira experiência profissional de Maria Angélica foi um pouco mais atribulada quer as anteriores. Seu sonho era trabalhar na produção da Cofap, que produz peças automotivas. “Para estagiar na Cofap passei 2 meses indo todos os dias na fábrica, fazendo entrevistas e sendo recusada por ser mulher. A insistência foi tanta que os venci pelo cansaço. Depois do estágio, que foi motivo de escândalo para alguns (inclusive colegas de turma), pois eu operava máquinas (retíficas, tornos e fresas) com os “peões”, fui contratada para uma vaga de engenheiro concorrendo com um colega de turma, que havia conseguido o estágio sem nenhum esforço”.

A desculpa era de que uma mulher não poderia trabalhar em condições tão adversas. “Até hoje não sei como dei conta, porque era bem nova e trabalhava nas mesmas condições que qualquer homem”, comenta a engenheira. Mas a experiência deu tão certo que de simples estagiária ela se tornou supervisora de uma célula de manufatura. Ela fez estágio em Mauá e depois implantou a célula em Itajubá. “Foi uma experiência ótima e muito enriquecedora, que acabou porque recebi uma proposta muito boa da Delphi, onde estou até hoje”. Nesta empresa, Angélica é gerente da planta de São José dos Pinhais, que possui 900 funcionários, 15 deles sob sua supervisão imediata. 50% da fábrica é composta de mulheres. “Eu acho que a mulher é mais flexível que o homem na hora de liderar pessoas e tomar decisões. Ao contrário deles, a gente sabe que não precisa ser autoritária e falar grosso para conseguir resultados. Além disso, para uma equipe funcionar bem você precisa deixar os funcionários tomarem decisões”, acredita ela.

Curiosamente, não há nenhuma representante do sexo feminino no chão de fábrica da Delphi atualmente. “Isso é muito pessoal, a mulher precisa querer trabalhar nesse ambiente, se sentir bem em um meio naturalmente masculino. Não pode ter restrições e querer ficar sempre bonita, mas também não pode se masculinizar”. Mas e o preconceito, tão comum em uma área dominada pelos homens como é a Engenharia? Angélica comenta que já sofreu sim, mas hoje esta palavra está definitivamente fora de seu dicionário. “Não dou mais espaço para isso na minha vida. Conquistei meu espaço, hoje sou muito reconhecida na minha área e a minha postura não permite que alguém venha falar alguma coisa. Acho que, muitas vezes, quem cria o preconceito é a própria mulher, que faz uso da beleza para se promover ou quer ser diferente dos homens, ter mais privilégios por ser mulher”.

Trabalhando com tanto afinco em posições de destaque e em um setor que exige dedicação quase que exclusiva, Angélica acabou adiando um pouco o sonho de ser mãe. O filho só chegou aos 39 anos, mas ela não se arrepende de nada. “Ter um filho no passado poderia ter prejudicado a minha carreira, e eu corria o risco de passar a vida culpando a criança. Hoje sinto que estou realizada profissional e pessoalmente e também tenho maturidade para ser mãe”. Só a carga de trabalho que não diminuiu. Ela continua trabalhando em média 12 horas por dia e, quando chega em casa, vai enfrentar mamadeiras, choros, fraldas sujas e tudo mais que for preciso. “A grande verdade é que as mulheres muito independentes têm dificuldade em achar o homem certo. Eu sempre fui decidida e gosto muito de desafios. Isso assusta um pouco os homens”.

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