Recém-formados ouvem versões opostas sobre inteligência artificial: de um lado, que a IA está eliminando vagas de entrada; de outro, que vai criar oportunidades para quem chega agora. Estudos sérios chegam a respostas diferentes porque medem coisas diferentes. Entender o que cada um mede ajuda a separar sinal de alarme.
O que a pesquisa brasileira encontrou
Um estudo do IBRE, da FGV, estima que quase 30 milhões de trabalhadores no Brasil, 29,6% da população ocupada no terceiro trimestre de 2025, estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Cerca de 5,2 milhões estavam no nível mais alto de exposição.
O mesmo estudo identifica efeitos iniciais concentrados em jovens de 18 a 29 anos, com queda em ocupação e renda, e aponta substituição de tarefas em funções de entrada. A base é a PNAD Contínua do IBGE, comparando 2022 a 2025. Atenção ao recorte: jovens de 18 a 29 anos não são sinônimo de recém-formados. O grupo inclui trabalhadores com trajetórias e escolaridade variadas; o estudo não mede o efeito sobre diplomados de forma isolada.
Existe um detalhe importante: o estudo separa exposição de destino. Cerca de 20% dos ocupados combinam alta exposição com baixa complementaridade, o grupo mais vulnerável. Pouco mais de 20% combinam alta exposição com alta complementaridade, perfil com potencial de ganho de produtividade e salário. Estar exposto não significa ser substituído.
Por que estudos chegam a conclusões diferentes
- Método: índices de exposição medem onde a IA pode incidir; estudos de resultado medem o que já aconteceu com emprego e renda. São perguntas diferentes.
- Período: quem mede 2022 a 2025 capta efeitos iniciais, que podem mudar com a difusão da tecnologia.
- Recorte: resultados variam por país, setor e faixa etária. Um estudo americano sobre vagas de tecnologia não descreve o comércio brasileiro.
- Definição de impacto: perda de emprego, queda de renda, mudança de tarefas e redução de contratações são efeitos distintos, nem sempre medidos juntos.
As empresas estão usando mais IA, não menos
A PINTEC Semestral, do IBGE, mostra que o uso de IA nas empresas industriais brasileiras com 100 ou mais empregados subiu de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. A TIC Empresas 2025, do Cetic.br, aponta crescimento de 13% para 17% entre 2024 e 2025 entre empresas de todos os portes com 10 ou mais pessoas ocupadas, chegando a 50% nas grandes empresas.
O que isso significa para quem está começando
O ponto comum dos estudos é que a exposição pesa mais onde a tarefa é repetitiva e padronizada, perfil comum de muitas vagas de entrada. Para o recém-formado, a leitura prática é investir no que complementa a IA: comunicação, análise crítica, domínio das ferramentas e conhecimento do negócio. Em vez de perguntar se a IA fecha portas, a pergunta útil é quais tarefas da função inicial estão mudando e como mostrar domínio sobre elas.
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Fontes consultadas
FGV IBRE: IA generativa e mercado de trabalho no Brasil, evidências iniciais (2026)
IBGE: PINTEC Semestral 2024, uso de IA na indústria
Cetic.br: TIC Empresas 2025, adoção de IA chega a 17%
Publicado por Jean Costa.