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Por Juliana Almeida Dutra
O mundo corporativo apropria-se de algumas palavras, sem prestar realmente atenção a seus reais significados. Usa-se rotineiramente a expressão “reter talentos”, mas será que os verdadeiros talentos querem ser realmente retidos? Se buscarmos no dicionário, uma das definições de reter é “(…) impedir o movimento, reprimir, conter (…)”.  Já, para a palavra deter, temos “(…)fazer demorar, conservar em seu poder, conter-se, reprimir-se (…)”.
A semelhança verbal não está somente no dicionário. Realmente, algumas empresas, no âmago de ter para si bons profissionais que as levem ao sucesso mercadológico, têm dado aumentos salariais e promoções como ferramenta de retenção para talentos despreparados. Estes talentos, muitas e muitas vezes, identificados a partir de critérios duvidosos ou simplesmente insustentáveis e insuficientes passam a retribuir no dia-a-dia quando deveriam ser preparados para contribuir.
É importante ressaltar que a alma da nova empresa está na cooperação, na vontade de fazer um trabalho melhor e na responsabilidade de cada indivíduo. Os verdadeiramente talentosos precisam de preparo, envolvimento, liberdade e acompanhamento para trazer os resultados esperados. Estes não querem ser retidos, querem ser envolvidos, sentir-se parte, incentivados, reconhecidos, ouvidos e, principalmente, respeitados enquanto profissionais e seres humanos. Sim, os profissionais de qualidade valorizam sua vida pessoal e sabem como manter o equilíbrio entre o ser profissional e o ser humano. Não é de gente que precisamos, gente não é o grande diferencial do futuro? A que tipo de “gente” nos referimos?
Cuidado, o talento que o discurso descreve nem sempre consegue sobreviver à realidade que se apresenta nos dias atuais dentro das empresas, especialmente neste momento, em que ainda não sabemos ao certo quais serão os reais impactos da crise mundial, apesar de o Brasil estar atravessando o turbilhão relativamente bem. É preciso preparar o ambiente para receber este talento. Assim, ele não precisará mais ser retido, ele vai ficar.
O que está acontecendo com as pessoas? E com as empresas? A desmotivação tomou conta do ambiente corporativo. E sem querer ser pessimista preciso avisar: este vírus pode causar a morte (da relação empresa funcionário ou pior: da empresa). A pergunta é: “Como transformar talentos desmotivados?”. Ou: “Como dar equilíbrio a talentos que precisam crescer um pouco mais para ‘exercer’ em sua plenitude?” Em minha opinião, a resposta é: confiança e capacidade de dividir sonhos de futuro.
As pessoas precisam de motivação da alma e não estou sendo romântica, falo no sentido mais capitalista possível. Falo em resultado, em redução de turnover, em produtividade, em parar de pensar que se é e ser de verdade.
Sejamos sinceros, nossas relações de trabalho não mudaram muito do que tínhamos em tempos de Revolução Industrial. Chegamos ao extremo, algumas vezes de construir em nossas empresas uma cultura de massa, controlável e, mesmo assim, queremos “reter” talentos e sermos inovadores. Equivocamos-nos mantendo benefícios paternalistas que não condizem mais com o que um talento real espera. Alimentação, transporte, saúde são sim importantes; mas não nos esqueçamos que os profissionais de destaque querem alimentar o intelecto, transportar ideias para que se transformem em resultado e ter saúde, mas do ponto-de-vista de bem estar e não para remediar o que a própria empresa causou com o estresse emocional do dia-a-dia.
As empresas precisam rever seus modelos e processos internos de relacionamento; a forma como se comunicam com seus funcionários; que tipo de estratégia possuem para sua relação com seus reais talentos; que líderes ela possui (já na Bíblia temos a orientação de que sem a cabeça o corpo fica desgovernado). Muitas iniciativas existem, mas iniciativas sem planejamento custam caro e não atingem a profundidade necessária para motivar, mudar atitudes e comportamentos.
De acordo com Christophe Dejours viver para o operário é não morrer. Quantas pessoas existem nas empresas que passam seus dias se protegendo da morte? Algumas até aguardando a morte chegar? É neste ambiente que esperamos os talentos que queremos “reter” em nosso discurso permaneçam?
Existem outros significados para reter no dicionário “(…) ter ou manter firme, conservar, manter (…)” e acredito que estes façam parte dos reais objetivos das empresas ao se referirem a esta atribuição tão importante de Recursos Humanos. Mas quando vamos começar a agir para que estes existam na realidade e para que a cooperação torne-se o elo entre as várias forças de uma empresa? Não será este o melhor momento para fazê-lo?

*Juliana Almeida Dutra é diretora da Deep – Desenvolvimento e Envolvimento Estratégico de Pessoas, consultora em Gestão de Talentos e especialista em Marketing e Relacionamento com Clientes. www.deepessoas.com.br

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