O elemento humano
Treinamento criado pelo psicólogo norte-americano Will Schutz propicia o auto-conhecimento e interfere positivamente no desempenho profissional
Por Gisèle de Oliveira
Excelência de resultados e marca forte no mercado é o que toda empresa deseja, mas nada disso pode ser alcançado sem um ingrediente: o material humano. Com isso, a gestão de pessoas passou a ganhar espaço dentro das organizações que buscavam um diferencial para sobreviver e se destacar num cenário altamente competitivo, e a valorização do ser humano passou a ser o pilar de sustentação dessa tendência.
No entanto, criar ambientes favoráveis à criatividade, comprometimento, confiança e trabalho em grupo – resultando em ganhos para os negócios – não é uma tarefa fácil, que o digam os líderes e os profissionais de RH, já que muitas barreiras precisam ser quebradas. É justamente nesse ponto que entra a metodologia O Elemento Humano , criada pelo psicólogo norte-americano Will Schutz e representada no Brasil exclusivamente pela Marcondes & Consultores Associados, que aplica o treinamento O Elemento Humano: Auto-Estima e Liderança Autêntica em várias companhias nacionais.
“No início dos anos 50, época da Guerra da Coréia, Schutz fora convocado, mas como era psicólogo foi destacado para o Centro de Pesquisas em Washington, onde participou do estudo para identificar o que faz um time ser imbatível”, conta Odino Marcondes, sociólogo e sócio-diretor da Marcondes & Consultores Associados.
Schutz partiu das seguintes premissas para compor os fatores que compunham um time vencedor: pressão, objetivo comum, diversidade de tipos psicológicos e abertura nos relacionamentos, descobrindo que esta última era a mais importante de todas. “Todos os aspectos importam, mas o mais importante é a abertura nos relacionamentos, porque ela atua para resolver as outras questões”, esclarece Marcondes.
Como funciona
O Elemento Humano atua com base em três necessidades: Inclusão, Controle e Abertura. A Inclusão refere-se à quantidade de contato que tenho com outras pessoas e que elas têm comigo; o Controle diz respeito ao quanto de controle exerço sobre elas e elas sobre mim; e a Abertura ao quanto me revelo aos outros e o quanto eles se revelam para mim. Ao transportarmos essas dimensões para o contexto organizacional elas passam a ser traduzidas por Participação, Poder e Liberdade. Marcondes lembra que “durante atividades rotineiras, quando as pessoas não participam, não têm poder de decisão e nem de opinar, o sentimento decorrente é de desânimo, frustração e baixa auto-estima”.
Para contornar esse quadro entra em ação O Elemento Humano . Normalmente realizado em dois módulos de três dias cada um, o treinamento propõe o auto-conhecimento como ferramenta para facilitar a abertura e a comunicação entre as pessoas, propiciando o desenvolvimento pessoal e do grupo e, conseqüentemente, tendo um alto impacto no trabalho em equipe, melhoria no desempenho, tomada de decisão e liderança. “Na primeira etapa, convidamos as pessoas a serem verdadeiras consigo mesmas, a olharem para dentro”, diz Marcondes. “Conforme amplio a consciência de mim mesmo, me torno mais determinado, e determinação e consciência combinadas formam melhores pessoas e melhores profissionais. Na segunda parte, trabalhamos as relações na equipe. Só posso ser um bom membro se estiver bem comigo. A decisão em grupo só é difícil quando as pessoas têm dificuldade de tomar decisões sozinhas”.
Segundo Marcondes, a falta de comunicação em uma equipe acaba criando ambientes tóxicos, que por sua vez contaminam e diminuem a produtividade do time. Pode até parecer um exagero, mas para se ter uma idéia do estrago que as Relações Tóxicas causam ao ambiente de trabalho somente o setor de indústria dos Estados Unidos tem um custo de US$ 600 bilhões ao ano ocasionado pelas Relações Tóxicas.
Altamente revelador, O Elemento Humano encontra algumas barreiras quando as pessoas não estão dispostas a se expor, o que não se justifica, pois ao sermos verdadeiros podemos agir com mais confiança e liberdade e o trabalho fica menos tenso e flui de maneira mais natural, ampliando as chances de se obter sucesso. “Nossa maior dificuldade é quando as pessoas não querem ser verdadeiras. Há uma fantasia de que à medida que eu me abro, me enfraqueço, quando é justamente ao contrário. Se posso falar de algo que julgo ser uma fraqueza minha, se me abro e falo a verdade, ninguém poderá mais falar disso, não podem usar isso contra mim”, declara Marcondes. “Em empresas que não são capazes ou não querem proporcionar um ambiente favorável à abertura o treinamento também não funciona”, acrescenta.
Sem medo de se abrir
Esse receio não faz parte da rotina da Kimberly Clark, onde O Elemento Humano está sendo aplicado desde 2002 e vem conseguindo excelentes resultados no desenvolvimento de seus profissionais e de seus negócios.
“Queríamos ter uma organização forte, aumentar nossas vendas, reter talentos e desenvolver uma gestão focada em pessoas”, conta Pedro Coletta, diretor de suply chain da empresa. “Sempre tivemos bons produtos, então o que estava faltando para crescer? Ter pessoas que curtam essa viagem, que se apaixonem pela jornada, e tudo começa quando eu me comunico, me abro, passo a me conhecer melhor e, se você se conhece, estará preparado para conversar com as pessoas, estará pronto para as mudanças”.
A nova cultura implantada na empresa surtiu efeito. A companhia apresenta crescimento de 11% ao ano e, se antes não conseguia reter talentos, agora tem um grande número de pessoas querendo fazer parte de sua grade de funcionários. “Para nós, esse diagnóstico é claro. Além do crescimento, temos pessoas querendo vir para a companhia”, diz Coletta.
O treinamento na Kimberly é praticamente contínuo, voltado principalmente para os líderes formais e não formais a empresa está de olho em seu futuro. “Vejo o treinamento aqui como um going , não pára nunca, porque tenho pessoas mudando de posição, pessoas novas chegando, portanto, esse é um processo constante em nosso dia a dia. É preciso deixar uma organização com pessoas preparadas para ocupar as posições, é isso que garante a longevidade de uma empresa”.
Conhecendo um pouco mais
Ambientes organizacionais de abertura, verdade e escolha favorecem relações conscientes e maduras. Este é o diferencial para que equipes desenvolvam flexibilidade, abertura e maximizem a sua produtividade. Schutz desenvolveu, também, um processo de tomada de decisão, chamado por ele de “Concordância”, que contempla o modelo tridimensional: Inclusão – as decisões são tomadas pelos que mais conhecem a questão e pelos que são afetados pela decisão. Controle – todos têm voto e veto (esta é a verdadeira raiz do processo de empowerment ); e, Abertura – todos são abertos e honestos sobre o que pensam e sentem. Segundo ele, na pressa pela tomada de decisão, obtém-se um falso acordo que mascara as divergências que aparecerão depois na hora de implementação. A existência, em todas as organizações, de projetos que foram decididos, mas ainda não foram implementados, é a maior evidência desse fenômeno.
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