Por que não saímos de férias como antigamente?
É necessário ter tempo e vontade para fazer um pouco de tudo que gostamos, além de trabalhar
Por Dieter Kelber*
Já se vai o tempo em que férias eram sinônimo de descanso e a única coisa com a qual tínhamos de nos preocupar era com a data e o lugar para onde íamos. No ritmo frenético de trabalho que vivemos hoje, o período tradicionalmente consagrado às férias passou a ser mais um motivo de ansiedade e até de estresse. Uma pesquisa recente mostrou que executivos têm até receio de tirar férias, já temendo o que os espera quando retornarem. Também há a “síndrome de final de ano” em que as pessoas, em vez de aproveitar o período para descansar, acabam acumulando as frustrações do que não conseguiram realizar durante o ano com a ansiedade e a expectativa dos projetos para o futuro.
Para que possamos entender um pouco o foco distorcido que muitos dão a este tema, é preciso voltar no tempo, quando tínhamos uma vida bem mais rotineira que nos dias de hoje. O pai, o único que trabalhava, era o provedor do sustento da família. A mãe cuidava do lar e da educação dos filhos em casa, e estes tinham aulas de março até fim de junho e de agosto até o início de dezembro. O ritmo era bem diferente de hoje, e poucas empresas faziam pontes nos feriados ou entre Natal e Ano Novo. O mês consagrado era janeiro, quando a família completa escolhia um local único para ir e ficar praticamente o período integral de férias. A motivação maior não era o descanso do trabalho, mas o momento de passar um longo tempo desfrutando o prazer de ter a família unida. A maioria das pessoas trabalhava naquilo que gostava, e os picos de estresse no trabalho não sofriam um agravamento com questões externas críticas, como trânsito e segurança. A flexibilidade era extraordinária, pois se não dava para sair de férias em janeiro, saía-se em fevereiro ou ainda em julho.
As opções eram bastante limitadas e qualquer viagem internacional era planejada com mais de ano de antecedência. A tecnologia engatinhava. Ligações interestaduais levavam, às vezes, um dia inteiro para serem completadas. O resultado das fotografias via-se, apenas, umas duas semanas após o regresso das férias, e muitas vezes eram frustrantes e sem chance de recuperação. A competição no mercado, tanto entre empresas quanto entre profissionais, era menos acirrada. O meio ambiente, mais preservado, bastante acessível com pouco investimento.
Esse retrato mudou radicalmente nos dias de hoje, em que as pessoas tendem a sair de férias por estarem exaustas do trabalho (em que uma grande massa executa atividades que não gosta de fazer), para conhecer novos lugares entusiasticamente vendidos pela mídia, para acrescentarem no seu currículo um lugar que se tornou um must , para “rever” os filhos e outros familiares, esquecidos durante o ano por conta do excesso de trabalho até altas horas. Férias tornaram-se um momento para achar um lugar que proporcione alguns dias de segurança, uma fuga do trânsito caótico, uma oportunidade de meditação e isolamento, entre tantos outros motivos bastante centrados no EU.
Ao mesmo tempo, o ritmo da família mudou radicalmente. Temos mais pais, mães, meio irmãos, avós novos e antigos, ex-sogras e novas sogras, novos e velhos colegas de trabalho, cada um com o seu perfil, sua rotina, seus afazeres, seus objetivos e tradições.
Para tornar a situação ainda mais complexa, a globalização da economia trouxe consigo um ciclo de trabalho nas empresas cada vez mais frenético, onde tradicionais períodos de férias locais são substituídos por inúmeras atividades de planejamento, reuniões, pré-projetos, entre outros, sob a coordenação das matrizes internacionais. A economia não pode parar. Será que podemos sair de férias, como antigamente, numa situação dessas?
Uma autora escreveu recentemente que “a função das férias é quebrar a rotina de trabalho, fazendo com que o funcionário se descontraia e se revigore”. Cabe aqui uma reflexão: não será melhor quebrar a rotina do trabalho, de nossas atividades de uma maneira geral, no nosso dia-a-dia, para nos descontrairmos e revigorarmos? Somos totalmente partidários a estarmos em “estado” de férias todos os dias, ou seja, felizes com o que fazemos, nos descontraindo, nos revigorando, quebrando a rotina, buscando novos caminhos e, principalmente, aprendendo a falar NÃO. Não para os excessos, sejam eles quais forem, inclusive aqueles que levam a um excesso de informação e comunicação exacerbada. Uma distribuição adequada do nosso tempo em atividades alinhadas com as nossas motivações internas certamente minimizará nosso estresse, seja ele qual for.
É necessário ter tempo e vontade para fazer um pouco de tudo que gostamos, além de trabalhar. Dormir bem, comer bem, conhecer novos lugares e pessoas, dançar, tirar fotos, cortar grama, consertar coisas, pescar, namorar, visitar amigos e parentes, enfim, se divertir, pode ser feito sem a necessidade de férias programadas. Como também não pode ser considerado errado se no meio das férias você tiver contato com o trabalho, se você gosta do que faz.
É fundamental acharmos o nosso ponto de equilíbrio, que varia de pessoa para pessoa. É tempo de mudarmos o pensamento “trabalho ou férias” para “trabalho e férias”. Assim ficará mais fácil responder: Afinal, o que são férias?
*Dieter Kelber é pesquisador, consultor e diretor-executivo do INSADI (Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual) e da Business Processes School.
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