Afinal, existe uma receita para o sucesso?
Por Patrícia Bispo
Diariamente, os canais de comunicação noticiam informações sobre pessoas que se destacam seja na política, nas artes ou a fatos que são de grande interesse da sociedade. Seja de uma forma ou de outra, na visão de muitos, a maioria tem algo em comum: atingiam o sucesso profissional. Contudo, o conceito de sucesso principalmente na carreira é extremamente relativo. Afinal, muitos que estão com suas contas bancárias, que despertaria a atenção, nem sempre se dizem felizes ou realizadas naquilo que fazem. Há inclusive quem depois de anos em uma profissão, joga "tudo para o alto" e dá uma guinada de 360º na vida. É nesse momento que o conceito sobre sucesso é questionado, pois cada indivíduo possui uma concepção diferente devido a vários fatores tanto pessoais quanto profissionais.
Mas o qual o significado de sucesso? "Dada às inúmeras definições podemos, simplesmente, afirmar que sucesso é conseguir o que se quer ou alcançar o que a sociedade define como sucesso", responde Eugen Emil Pfister - consultor organizacional.
Em entrevista concedida ao RH.com.br, ele aborda fatores que podem estimular o alcance do sucesso no meio corporativo, como também os que levam os profissionais a se sentirem perdidos no momento que deveriam comemorar as "vitórias" conquistadas ao longo dos anos. Inclusive, ele alerta para o fato de que muitas pessoas descobrem que vivem sonhos coletivos, dos outros, e se esquecem dos seus anseios, suas vontades. Dessa forma, foge-se do encontro com o eu profundo, tomando "emprestado" o pensamento e a vida alheia, para depois descobrir que a resposta estava dentro e não fora de nós. Isso, na visão de Eugen, é lamentável. Essa é uma entrevista que o levará a momentos de reflexão e que talvez o ajudem a rever determinados valores e diretrizes em sua profissão. Confira a entrevista na íntegra e aproveite e leitura!
RH.com.br - O conceito, ou melhor, a concepção sobre sucesso tem sido muito questionada, pois cada pessoa possui uma opinião formada sobre o assunto. Para o Sr. o que significa alcançar o sucesso?
Eugen Emil Pfister - Também questiono. Dada às inúmeras definições podemos, simplesmente, afirmar que sucesso é conseguir o que se quer ou alcançar o que a sociedade define como sucesso. No primeiro caso, há uma visão "psicologizante" d questão. No segundo caso, a visão é "sociologizante". Perdoe-me os neologismos. O problema como a individuação do sucesso é que tanto os objetivos como as ações que empreendemos podem agredir o código moral e legal da sociedade. O problema como a sociologização é que, objetivos e padrões de aferição, me é imposto de fora, independente da minha motivação e direito de escolha.
RH - O conceito de "sucesso" ainda é fortemente cercado pela subjetividade?
Eugen Emil Pfister - Porque, em última análise, cada um julga por si se é uma pessoa bem-sucedida. Quer dramatizar um pouco? Então, imagine-se no leito de morte e revendo as imagens do filme da sua vida que, dizem, assistimos antes de morrer. Quais são as lembranças significativas? Duvido que tratem das horas que passamos no trabalho, em reuniões improdutivas, preparando relatórios que muitos sequer lêem. É provável que nos lembremos dos inúmeros sacrifícios impostos para ter uma carreira brilhante, ganhar dinheiro e elogios dos pares, superiores e clientes. É uma imagem que reflete um sentimento de remorso. "Por que não passei mais horas com meus filhos, conjugue pais, amigos e comigo mesmo?". O que quero dizer é que descobrimos, temo que um pouco tarde, que vivemos sonhos coletivos, dos outros, como sendo o nosso. Curioso, fugimos do encontro com o eu profundo, tomamos emprestado o pensamento e a vida alheia para depois descobrir que a resposta estava dentro e não fora de nós. Bom, chega de tragédia, caso contrário vamos todos chorar... (risos).
RH - O sucesso pode ser almejado em várias fases da vida humana. Com a grande competitividade do mercado e o processo capitalista, o ápice profissional é um dos mais cobiçados. Em sua opinião, quando uma pessoa atinge a plenitude na carreira?
Eugen Emil Pfister - Quando compreende que está na hora de vivenciar outras histórias, scripts, aventuras, já que não viemos ao mundo apenas a negócios.
RH - Existe uma receita única para alcançar o sucesso na carreira?
Eugen Emil Pfister - Os especialistas no sucesso alheio dizem que sim. Paciência. Minha resposta é não! Existem algumas trilhas, mas em algum momento é preciso que aquilo que os antigos chamavam de Virtú, que a grosso modo corresponde a nossa noção de competência, conte com a mão amiga da Fortuna, a deusa da boa ou má sorte. O encontro entre o preparo pessoal e as circunstâncias define quem sobe ao pódio. Por falar em Roma antiga, há duas frases geniais que ajudam a ampliar o campo da percepção que temos acerca do sucesso. Uma é: "Vini, vidi, vinci" , a outra é "até tu Brutus, meu filho". O famoso "Vim, vi e venci" é parte do relato de Júlio César ao Senado Romano sobre a campanha militar que empreendeu na Gális no periódo de 58 a.C e 52 a.C. É uma síntese poderosa de um vencedor, proferida por um general, cônsul e eminente cidadão romano. Em 44 a.C. o mesmo personagem derruba a república, se auto-elege imperador e, ato continuo, é assassinado por um grupo de conjurados, dentre os quais, Brutus, o seu sobrinho e filho adotivo. Pego de supresa, pois imaginava-se um semi-deus, teve tempo apenas para proferir sua última frase em vida: "Tu quoque, Brute, fili mi!". Num insidioso golpe a Virtú foi derrotada pela Fortuna.
RH - Quais as dicas o Sr. daria para quem tem como objetivo alcançar o sucesso profissional?
Eugen Emil Pfister - Que vá à luta e lembre que não há mal ou bem que sempre dure. Há um teto para o sucesso na carreira de qualquer um. Uma vez atingido, cessa o prazer. Então, é hora de buscar outras fontes de gratificação, tais como o amor, a felicidade, a amizade, a autodescoberta e outras aventuras do espírito e mesmo mundanas. É claro que essas experiências estão, igualmente, sujeitas aos altos e baixos. Porém, ao flexibilizar o estilo de vida, é provável que, no vai e vem dos acontecimentos, há sempre uma área de nossa vida no azul.
RH - O Sr. já presenciou profissionais de sucesso deixarem-se contaminar por devaneios que desencadearam um processo de fracasso no ambiente corporativo.
Eugen Emil Pfister - Há muitos Césares no mundo corporativo que caem do cavalo. E sabe o quê? Quase sempre são derrubados por força das suas qualidades, mais do que por força de seus defeitos. Tornam-se tão especialistas em vitórias que perdem o senso de limites e acham que sua trajetória nada deve aos outros. A presunção, a arrogância, a ingratidão é fatal, é tiro e queda.
RH - Há casos de profissionais que alcançaram a maturidade na carreira e conquistaram cargos estratégicos nas empresas em que atuam. "Estranhamente", ao invés dessas pessoas mostrarem realizadas, entram em um processo de desanimo e perdem o estímulo de trabalhar. Isso se deve à falta de desafios?
Eugen Emil Pfister - Pois é, colocaram todos os ovos na mesma cesta e esqueceram-se de ser felizes e usufruir de outros pequenos prazeres da vida. E, talvez, tenham esquecido que o maior desafio de todos: é ser o que são e não apenas a persona pública do homem ou da mulher de sucesso.
RH - Então, a presença de desafios é uma mola propulsora para quem alcança o sucesso profissional?
Eugen Emil Pfister - O desafio é importante. Mas não é tudo. Uma organização não é apenas uma coleção de egos inflados, de semideuses embevecidos com suas qualidades. Ela é uma comunidade, é grupo, é trabalho de equipe. O meu sucesso profissional, o seu ou de qualquer um depende, parcialmente, dos próprios atributos e, em grande parte, dos outros. Jack Trout e Al Ries têm a melhor e mais honesta abordagem sobre o assunto. Segundo eles, trata-se de encontrar um cavalo, de preferência alheio, para cavalgar. Sei que as pessoas adorariam que o sucesso fosse da altura de seus sonhos, vontades e competências pessoais. Gastam-se milhões todo ano para ouvir essa e outras platitudes. A mensagem pode ser um placebo para a alma aflita, mas trabalhar duro, esforçar-se, caminhar sobre brasas para fortalecer a autoconfiança não é suficiente. O nosso sucesso profissional, favor frise o profissional, está, em parte, fora de nós. Ele está nos recursos organizacionais, nos mentores, nos superiores, nos subordinados e pares, nos produtos, nos bens familiares, nos mecenas, nos grupos de network e assim por diante. Se soubermos cavalgar esses cavalos, eles nos ajudarão a ganhar a corrida. Sozinho é complicado. Se a memória não me trai, Jack Trout e Al Ries citam o exemplo de Hugh Hefner que transformou sua queda por mulheres exuberantes no poderoso negócio chamado Playboy.
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