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Segurança e comodidade aliadas à alta tecnologia são os trunfos do setor de refeições-convênio para implantação dos cartões inteligentes
O dinheiro de plástico, como ficaram conhecidos os cartões magnéticos usados para transações financeiras, chegou ao setor de refeições-convênio. Implantado inicialmente para o benefício alimentação para compras em supermercados, o vale-refeição em cartão deve estar consolidado no segmento de restaurantes dentro de três anos.
Para Artur Almeida, diretor presidente da Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador (Assert) e diretor de relações institucionais da Sodexho Pass, o fato primordial dessa mudança é o fortalecimento e aprimoramento do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). "Quase 50% dos trabalhadores dentro do PAT utilizam o sistema-convênio por ser um sistema simples, prático e altamente adequado à área urbana, porque os trabalhadores das áreas industriais têm outro tipo de atendimento, a refeição feita no próprio local de trabalho", atesta.
Almeida acredita que o vale de papel cumpriu um ciclo e 26 anos após a sua implantação o setor entendeu que havia necessidade de acompanhar os avanços tecnológicos, inclusive para que o benefício deixe de ser uma moeda paralela. "A crise social que afeta o país provocou certos desvirtuamentos no uso do vale, ou seja, pessoas que não utilizam o benefício exclusivamente para a alimentação ou destinam para outro fim que não a alimentação", observa. "O cartão entra justamente para fortalecer o PAT e aprimorá-lo no sentido de que esse desvirtuamento tende a desaparecer com seu uso", completa.
Almeida traz dados interessantes sobre esse desvirtuamento do uso do benefício-refeição. Ele conta que um estudo da USP mostra que cerca de 60% a 65% do movimento dos restaurantes populares em grandes centros urbanos, advém de tíquetes. "Com um número tão expressivo de refeições oferecidas por restaurantes populares, isso é uma prova suficiente de que o uso é muito adequado e é muito superior ao que se fala sobre o desvirtuamento", considera. Entretanto, ele cita outro estudo feito pelo IBOPE que aponta um desvio da função do benefício da ordem de 6% do faturamento das empresas. Se for considerado que as fornecedoras de refeição-convênio, apenas com o vale-refeição faturam R$ 3 bilhões/ano, segundo dados fornecidos por Almeida, esse desvio representa a impressionante cifra de R$ 180 milhões/ano.
Outra questão considerada positiva para a migração é a segurança. Fontes do setor de refeição-convênio e da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo confirmam a existência de quadrilhas especializadas no furto e roubo de vales-refeição que agem não só no ataque aos funcionários das fornecedoras, bem como nas empresas clientes.
Por utilizar inclusive meios online, o cartão permite que haja maior segurança, facilidade e agilidade na operação. "O trabalhador vai ter um cartão específico para o benefício, com senha pessoal, para ser utilizado na rede de estabelecimentos conveniados", esclarece Almeida. "Caso ele perca o cartão, o crédito que ele tem referente ao benefício alimentação está preservado, coisa que não acontece com o papel, porque se ele tiver um carnê no bolso e perdê-lo ou tê-lo furtado, perde o crédito", compara.
O sistema também beneficia os estabelecimentos comerciais credenciados por ser um instrumento que vai permitir ganhos de produtividade, à medida que o manuseio, custo de transporte, custo de armazenagem e uma série de outras despesas inerentes ao vale de papel acabam. "Com o cartão, qualquer estabelecimento conveniado vai apenas ter um simples movimento de trocas de senhas e apertar botões e as operações serão todas online", simplifica.
Tecnologia
Para o setor de benefício alimentação, o cartão está praticamente consolidado e deve eliminar definitivamente os vales de papel até o final do ano. O sistema implantado nos supermercados permite a leitura de qualquer tipo de cartão magnético com total segurança, já que os cartões alimentação são providos de senha pessoal. Já para o segmento de refeições-convênio a situação se complica um pouco devido à pulverização dos estabelecimentos e às cláusulas do Termo de Cooperação Técnica (ver quadro na página 17) - firmado em janeiro de 2002 entre os Sindicatos e Associações de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (SHRBS) e a Assert com interveniência da Secretaria de Inspeção do Ministério do Trabalho - além das normas do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) que impedem a agregação de dois benefícios em um mesmo documento.
As empresas do setor estão realizando testes com algumas tecnologias até se estabelecer um padrão para a refeição-convênio com o uso de cartões. A tecnologia que tem sido melhor avaliada pelas fornecedoras do benefício é o cartão inteligente com chip de memória (smart card).
A Vale Refeição está com um projeto piloto em Goiânia (GO) em que a base da VR de vales em papel foi convertida para cerca de sete mil cartões com chip. Segundo Joaquim José Xavier da Silveira, vice-presidente corporativo comercial, a empresa prevê o início de testes na cidade de São Paulo no segundo semestre deste ano, na região da Avenida Luiz Carlos Berrini, na Zona Sul da cidade, onde está localizada a sede da VR.
A tecnologia empregada pela VR provém de uma parceria com a SmartNet, que fornece os cartões inteligentes e os terminais POS (Point of Sale*) para o armazenamento e transmissão dos dados. O restaurante ou bar mantém um terminal POS tradicional para a transmissão online dos dados e outro, do tamanho de uma calculadora de mão chamado Flex, que pode ficar com os garçons nos estabelecimentos de serviço a la carte. "Toda operação que ele efetuar no Flex fica armazenada em um cartão do restaurante, depois o proprietário vai a um outro terminal que está conectado numa rede e transmite essas transações que vão se tornar dinheiro na sua conta corrente, dentro do prazo de faturamento previsto no contrato", explica Silveira.
O custo de cada terminal POS Flex é de R$ 200 e pode ser parcelado em até 10 vezes, informa o vice-presidente da VR. A empresa prevê um investimento de R$ 60 milhões para a migração total de sua base de vales de papel para os cartões inteligentes. "Este valor não inclui as despesas de marketing e outras que não envolvam tecnologia", acrescenta.
A Ticket Accor Services também iniciou seus primeiros testes, também na cidade de Goiânia e em São Paulo, com aproximadamente mil cartões. A empresa está testando duas tecnologias diferentes para avaliar qual a mais adequada, uma fornecida pela Redecard, conhecida operadora de cartões de débito, em que utiliza cartões magnéticos, e outra, com smart cards, em parceria com a SmartNet, a mesma fornecedora da concorrente Vale Refeição. A empresa também estuda a utilização de outra tecnologia que utiliza um cartão híbrido do smart card e do magnético. "É uma coisa muito nova inclusive no mercado mundial e que pode oferecer um pouco mais de segurança do que está se falando no mercado", adianta o diretor de marketing, Luiz Peduti, sem detalhar suas características.
Peduti calcula que os investimentos feitos pela Ticket para a migração do vale de papel para o cartão devem atingir a cifra dos R$ 120 milhões. "Os valores investidos vão depender muito da tecnologia a ser empregada, mas se tomarmos, por exemplo, uma leitora de R$ 500, implantando em cerca de 200 mil estabelecimentos, fora a equipe de treinamento, a equipe de colocação, manuais de instrução, divulgação, chegamos à ordem de 120 milhões", imagina.
A Sodexho Pass também deve migrar em breve para o sistema de cartões, já que sua base do benefício alimentação está praticamente implantada. Entretanto, para o vale-refeição, a empresa ainda está em compasso de espera e deve iniciar seus primeiros testes no segundo semestre. "Estamos seguindo um cronograma e procurando nos adequar à realidade brasileira e às condições impostas pelo próprio PAT", esclarece Artur Almeida, diretor de assuntos institucionais.
Entretanto, Almeida afirma que a Sodexho já está preparada tanto no uso da tecnologia quanto na área operacional devido à experiência da empresa com os smart cards no setor de convênio-farmácia. "O Unik é um produto implantado com grande sucesso e tem características de atender estabelecimentos pulverizados como os restaurantes, portanto, temos um benchmark interno", analisa.
Quando se refere à realidade brasileira, Almeida afirma que a alta pulverização dos estabelecimentos comerciais que trabalham com os vales-refeição tendem a elitizar o benefício. "Ainda existem estabelecimentos no Brasil que nem linha telefônica têm, então, quando se fala na extensão desse programa, é preciso dar condições ao trabalhador de ter acesso a alimentação aonde quer que ele esteja, senão o sistema não tem razão de ser", alerta. "Portanto, não se pode falar em transferência ou utilização de novas tecnologias no momento em que se possa vislumbrar a eliminação ou a redução desse número de pontos de recebimento", completa.
Silveira, da VR, discorda parcialmente da tese de Almeida, dizendo que um equipamento como o POS Flex pode ser usado até por um vendedor de cachorro quente. "A operação inicial é completamente offline, com os dados armazenados no smart card, e no final do dia, mesmo em casa, faz o carregamento online das informações, ou seja, não tem grandes problemas de instalação, de conciliação, de outro controle para aquele meio de pagamento", justifica.
Peduti, da Ticket, também vislumbra o aumento da tecnologia no futuro, inclusive com a possibilidade de se fazer carregamentos de créditos do cartão via telefone celular. "Hoje a tecnologia ainda é muito incipiente, mas a alta distribuição dos celulares pode levar as operadoras pensarem em ceder aparelhos para que as pessoas utilizem o serviço", sugere.
Novata
Parte da movimentação do setor de refeições-convênio para migração dos vales de papel para cartões eletrônicos foi o anúncio da entrada de um peso-pesado da área de crédito e débito no segmento: a Visa.
Newton Neiva, consultor responsável pela implantação da Visa Vale, rejeita o rótulo e afirma que as empresas estão buscando com o sistema formas de oferecer mais segurança e obter ganhos de custos. "Os fornecedores de refeição-convênio vêm fazendo a migração do produto alimentação para um cartão com tarja magnética desde 1998", atesta. "A idéia do projeto Visa Vale surgiu em 1995, mas, naquela oportunidade, o custo do cartão era elevado e não havia condições suficientes para viabilizar essa plataforma para a leitura destes cartões, então, a Visa junto com alguns bancos associados tomaram a iniciativa de começar a verificar o que é este mercado e de que forma também poderiam oferecer esse tipo de produto aos seus próprios clientes", contradiz-se.
O fato da Visa ter iniciado um projeto chamado "Chip Migration", em que fará a troca da sua base de cartões magnéticos para smart cards no Brasil - superior a 65 milhões de cartões entre crédito e débito -, e com a rede de POS da Visanet totalmente apta para ler cartões com chip, a iniciativa para entrar no mercado de refeições-convênio se tornou mais viável.
O consultor enfatiza o alto nível de segurança oferecido pelos chips de memória em cartões. "Ainda não se tem notícia de fraude de um cartão com chip, mas estamos sempre atentos num processo como esse porque a tecnologia avança e as pessoas vêm atrás mal intencionadas, procurando achar onde existe a brecha para atuar de uma forma não adequada", alerta.
Ele informa que o cartão com chip tem todos os parâmetros de segurança exigidos e segue um padrão chamado MV, que é praticado mundialmente entre a Europay, Mastercard e Visa, e tem todos os pré-requisitos necessários para que se criem barreiras e aumentando o nível de segurança para evitar problemas como os gerados pelos cartões de tarja magnética.
Neiva reconhece as limitações impostas pelo Programa de Alimentação do Trabalhador que impedem a aplicação de vários benefícios em um mesmo cartão. "Na nossa visão, a mudança para um cartão multiaplicativo é uma questão de tempo, tendo em vista a redução dos custos do cartão e da tecnologia", avalia.
Os sócios iniciais da Visa nesse novo empreendimento são o Bradesco, o Banco do Brasil e o Real ABN Amro Bank. A Visa Vale vai estar cadastrada e regulamentada junto ao Governo Federal, no Ministério do Trabalho, e estará apta a administrar o programa e atender aos bancos, que farão a comercialização dos cartões aos seus clientes corporativos. "Ela é uma empresa focada para administrar benefícios com a utilização de tecnologia focada no PAT, ou seja, tudo aquilo que é feito pelas empresas que são dedicadas aos produtos alimentação e refeição também será viabilizado pela Visa Vale, como empresa independente, prestando esse serviço para os bancos", esclarece.
A Visa também irá contar com uma solução offline, semelhante à da SmartNet, que será implantada em cerca de 20 mil pontos de venda para dar mais conforto aos clientes. "A Visanet tem uma rede de aproximadamente de 250 mil terminais, todos aptos a ler cartões com chip e a empresa está investindo e instalando mais 80 mil POS, ou seja, 60 mil comuns como esses que costumamos ver nos estabelecimentos comerciais e 20 mil wireless", anuncia.
Pelo fato de utilizar a base instalada da Visanet, o investimento da Visa e seus sócios na montagem da Visa Vale será menor que o das empresas de refeição-convênio. "Até o início da operação serão investidos US$ 3 milhões", informa Neiva.
Continua no papel
Segundo o presidente da Assert, Artur Almeida, a entidade não reúne as cerca de 20 empresas do setor pelo fato de boa parte delas ter atuação regional, e devem continuar com os vales de papel devido aos altos investimentos exigidos pela migração.
Peduti, da Ticket, acredita que, durante um tempo, os vales de papel os cartões irão conviver mutuamente, até a eliminação total do papel. "É economicamente inviável manter as duas estruturas ao mesmo tempo", reconhece.
Ele dá um exemplo dessa convivência dos dois sistemas no caso das empresas que mantenham unidades longe dos centros urbanos. "A empresa não pode deixar de dar um benefício para um determinado funcionário mesmo que ele esteja locado num local distante, então esse ajuste será necessário até a implantação total da rede", considera.
A Valetik, empresa de refeições-convênio do Banco do Brasil com aproximadamente 180 mil usuários, pretende lançar até julho desde ano cartões com tarja magnética para os vales-alimentação, mas experiências com o smart card ainda não fazem parte dos projetos da empresa. "Antes de entrarmos nos smart cards é preciso passar pela experiência do cartão com tarja magnética, para testarmos com o que já existe, além do mais, o mercado não tem uma rede que esteja preparada para suportar os cartões inteligentes", explica Léo Batista, gerente da divisão de cartões da Valetik.
Ele acredita que a transição do papel para os cartões eletrônicos é uma evolução necessária para o crescimento do produto. "O cartão traz uma série de vantagens, pois reduz custos operacionais, como a distribuição e captura, elimina a figura do intermediário, além de todos os benefícios que a tecnologia traz, mesmo que necessite de um alto investimento no sistema", ressalta.
A empresa pretende usar uma rede já existente para a implantação do cartão de vale-alimentação, mas ainda está negociando com estas empresas. "Seria muito caro criar uma rede só para nossos cartões, além de inviável", avalia Batista.
Quanto à sociedade do Banco do Brasil com a Visa na criação da Visa Vale, Batista prefere não omitir opinião. "É um projeto que ainda está sendo formado, tudo o que eu falar sobre isso vai ser especulação", desconversa.
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