Orientação financeira: lição para todos
Como as empresas e a área de RH podem ajudar os colaboradores que se encontram no vermelho

Por Patrícia Bispo

Quando chega o final do mês e os vencimentos das contas estão próximos, há quem tente “esticar” o orçamento de todas as formas. No entanto, como o dinheiro não é de borracha e apesar da queima dos neurônios, muitos não conseguem resolver os problemas financeiros e entram no vermelho. Resultado: as dívidas se acumulam, os juros não param de crescer e o endividado começa a ver a sua vida virar de cabeça para baixo. E quando isso acontece, os problemas não ficam apenas restritos ao convívio familiar e se estende até o ambiente corporativo. Trabalhador endividado não consegue deixar de pensar nas suas dívidas, dorme pouco, passa a ter problemas de saúde e isso, conseqüentemente, é sentido no seu desempenho profissional. Mas como as empresas podem ajudar os funcionários que não sabem administrar as finanças pessoais? Como a área de RH deve atuar diante de um pedido de socorro de quem está cheio de dívidas? Essas e outras respostas são respondidas por Gustavo Cerbasi, consultor financeiro pessoal.

Autor dos livros Casais Inteligentes Enriquecem Juntos e Dinheiro - Os segredos de quem tem (ambos publicados pela Editora Gente), Gustavo afirma que “a orientação financeira pessoal deve ser oferecida pela empresa como um serviço de qualidade de vida, desvinculado da rotina do trabalho”. Confira a entrevista e aproveite a leitura para refletir se você está sabendo administrar bem as suas finanças.

RH.COM.BR - Qual fator tem colaborado mais para o endividamento da população?
Gustavo Cerbasi -
Não tenho dúvidas de que o principal responsável pelas dívidas da população é a ignorância. Independentemente do nível de renda que um brasileiro tem, os problemas são os mesmos: más escolhas de investimentos, contas no vermelho no final do mês e compras parceladas - o que é um absurdo em épocas de juros elevados. A base de todo o problema é política, pois no Brasil de hoje a ignorância ainda interessa aos amigos do rei. Se cada brasileirinho saísse da escola com um mínimo de conhecimento sobre orçamento doméstico, bancos e juros, sem dúvida, grande parte de nossos problemas econômicos seria resolvida ou ao menos amenizada.

RH - A cultura consumista do regime capitalista também influencia o endividamento?
Cerbasi -
Influencia, mas não é a principal responsável. Além do consumismo, devemos analisar o que vem antes do consumo. O Brasil de poucas décadas atrás era predominantemente miserável, o que fez com que a grande maioria da classe média que hoje consome tenha passado por privações e uma clara sensação de “falta” que não quer repetir. A maioria de meus clientes, muitos com renda de dezenas de milhares de reais mensais, refere-se à infância como uma época de sacrifício dos pais, de restrição de brinquedos e alimentos, de racionamentos de todos os tipos. Quem cresce em um ambiente destes, sente forte necessidade de proteger sua família de qualquer tipo de privação, e o resultado é o forte impulso ao consumo, ao uso do dinheiro disponível. O brasileiro vive muito bem seu presente e arrepender-se-á disto no futuro. Este efeito pode ser claramente identificado entre jogadores de futebol que vêm de famílias de baixa renda: sua ânsia por consumo acaba levando-os em muitos casos a situações falimentares.

RH - A realidade mostra que o brasileiro não sabe administrar os gastos?
Cerbasi -
Foi a história econômica brasileira quem ensinou o brasileiro a não administrar seus gastos. Como era possível planejar gastos durante os períodos de inflação altíssima, se as pessoas mal sabiam quanto iam ganhar no início do próximo mês? Qual o sentido de se fazer planos de longo prazo, se o valor necessário para qualquer aquisição era inimaginável em prazos superiores há algumas semanas? Fez riqueza nos tempos de inflação aquele que, a cada mês, construiu tijolo a tijolo suas próprias casas, investiu em bens palpáveis e comprou terrenos. Hoje, a estabilidade e a inflação sob controle são aliadas de planos de longo prazo. Por outro lado, ganhos imobiliários estão exigindo maior conhecimento e estudo de oportunidades, diferentemente do passado. Aqueles que demorarem a perceber as inigualáveis vantagens da combinação de juros altos com inflação baixa irão se arrepender das oportunidades deixadas para trás daqui a alguns poucos anos.

RH - O endividamento é apenas um privilégio de quem tem um nível salarial baixo?
Cerbasi -
Muito pelo contrário. A solução para problemas de endividamento é mais simples para quem tem problemas menores. Em famílias cuja renda aumentou abruptamente, os reflexos de dívidas incontroláveis são mais nítidos. Os melhores lugares para se conseguir casas e carros a preços bem abaixo da tabela são em bairros da moda, onde vivem os “novos-ricos”. Estes são geralmente pessoas que cresceram no ambiente da “falta” e que, ao conquistarem um novo patamar social, deslumbram-se com novos horizontes e fazem aquisições além da conta, ou mal planejadas. Em bairros de alto padrão, é comum surgirem anúncios de verdadeiras pechinchas às vésperas do pagamento de IPVA e IPTU. Por outro lado, a super oferta de linhas de crédito consignado ampliou as estatísticas do endividamento da sociedade, incluindo trabalhadores estáveis e aposentados. Crédito fácil, em um país em que as pessoas não são educadas sobre dinheiro na escola, significa aumento dos problemas.

RH - Que reflexos as dívidas pessoais podem causar ao trabalhador?
Cerbasi -
O reflexo é direto em seu desempenho e no clima do ambiente de trabalho. O típico trabalhador endividado vem ao trabalho apenas de corpo, pois sua mente preocupada está do lado de fora da porta da empresa, pensando nos telefonemas de cobrança que estão recebendo em sua casa, nos cheques devolvidos e nos serviços de luz ou gás que serão cortados no mês seguinte. Sem contar que, por dormir menos, tem sua produtividade reduzida e aumenta riscos de acidentes no trabalho. A sensação comum é de frustração, depressão, fracasso pessoal e vergonha diante dos familiares. Tive contato com um caso em que o trabalhador, por ter se endividado por causa de linhas de crédito divulgadas junto ao RH da empresa em que trabalha, reconhecia a empresa como verdadeira traidora e culpada por sua situação, o que o levava à necessidade de “descontar” com pequenos furtos sua dificuldade pessoal.

RH - Como as organizações podem auxiliar os colaboradores a saírem do “vermelho”?
Cerbasi -
Para os casos recorrentes e sem gravidade, a simples prática de cartilhas de orientação, em linguagem simples e visual atraente, pode eliminar os pequenos endividamentos. Os trabalhadores devem ser alertados a respeito dos vícios destruidores de orçamentos, como a prática da compra mensal em supermercados, a falta de planejamento orçamentário e as compras parceladas. Deve-se orientar pela substituição de dívidas por outras mais baratas e pelo caminho do sacrifício radical em curtos períodos de tempo, para que o trabalhador não fique eternamente contrapondo pequenos e inúteis sacrifícios aos intensos acúmulos de juros. Para casos mais graves, a recomendação é pelo ajuste radical e apoio profissional de um especialista vinculado ao RH, que possa oferecer amparo jurídico, orientações e acompanhamento do caso durante alguns meses.

RH - As empresas que concedem empréstimos estão auxiliando corretamente os profissionais endividados?
Cerbasi -
Empresas que adotam a prática do incentivo ao crédito estão lançando verdadeiras armadilhas aos seus colaboradores. Acordos de crédito consignado e linhas especiais de financiamento jamais deveriam ser fechados sem uma ampla divulgação prévia dos riscos e conseqüências. A primeira iniciativa das empresas deve ser a conscientização, por meio de seus informes circulares e jornais internos, pelo não-endividamento. A prática de cartilhas, como recomendado anteriormente, é saudável, pois o tema não é desenvolvido nas escolas e deve ser, portanto, abordado com uma linguagem interessante e atrativa. Outra iniciativa importante é restringir ao máximo a ação de financeiras e de bancos que promovam a facilidade do crédito com desconto em folha, pois estas armadilhas tolhem do trabalhador sua liberdade de priorizar o uso de seu próprio salário.

RH - Os cursos de finanças pessoais são uma profilaxia contra as dívidas?
Cerbasi -
Cursos de finanças pessoais não eliminam na totalidade os problemas, uma vez que lidam com motivações pessoais próprias de cada participante, mas certamente transformam a cultura individual e coletiva ao oferecer ferramentas que facilitam escolhas cotidianas. Como o assunto é novo para a maioria das pessoas e sua abordagem é considerada ainda como queda de um tabu, o nível de atenção dos participantes é incrivelmente elevado. Ao descobrir as origens e as motivações de seus erros, a sensação de desconforto é tão grande que cada um mobiliza-se para evitar a repetição de tais erros. Em alguns casos, o bloqueio decorrente de um erro de planejamento ou de investimento é tão grande que um simples curso não resolve o problema pessoal. A combinação que vem demonstrando melhores resultados nas empresas com número estatisticamente significativo de participantes é aquela que reúne orientação em grupo somada a atendimentos particulares de uma minoria mais problemática. Esta combinação vem fazendo sucesso em meu trabalho até mesmo entre funcionários de bancos.

RH - Esses cursos devem se estender também aos familiares dos funcionários?
Cerbasi -
Preferencialmente sim, uma vez que as decisões sobre dinheiro e suas restrições devem ser compartilhadas em família, seja para facilitar a conquista de metas para o futuro, seja para uma boa educação financeira dos filhos. Em minhas consultas pessoais, oriento sempre meus clientes que venham acompanhados de seus cônjuges, pois as decisões de gastos e de seus cortes sempre afetam às pessoas próximas. Meu livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos surgiu justamente da dificuldade que leitores de meu primeiro livro, Dinheiro - Os segredos de quem tem , encontraram ao colocar em prática no ambiente familiar a motivação individual de um plano racionalmente simples. Ainda é muito difícil conversar sobre dinheiro no Brasil e, por isso, a apresentação para grupos serve como faísca inicial de uma postura familiar sobre suas finanças.

RH - A área de RH é a mais indicada para orientar funcionários endividados?
Cerbasi -
Sim, por duas razões importantes. Primeiro, porque a área de RH possui profissionais com formação adequada para identificar limitações de fundo psicológico na condução financeira de cada colaborador e desenvolver adequadamente as orientações necessárias. O planejamento financeiro pessoal tem raízes muito mais psicológicas e comportamentais do que matemáticas, ao contrário do que muitos pensam. Segundo, porque a relação do colaborador com o RH não sofre o viés da subordinação, o que facilita a comunicação de dificuldades pessoais e o reconhecimento de erros – o que não ocorreria facilmente em uma franca conversa com um superior hierárquico. A orientação financeira pessoal deve ser oferecida pela empresa como um serviço de qualidade de vida, desvinculado da rotina de trabalho.

RH - De que forma prática o RH pode ajudar a quem está no vermelho?
Cerbasi -
Sugiro que sejam oferecidos regularmente nas empresas debates sobre dívidas e financiamentos, com incentivo à participação voluntária de colaboradores. A simples oferta de cartilhas tende a gerar boa repercussão, pois a primeira reação do colaborador é de desconfiança, ele teme abrir seu coração e falar de dificuldades tão íntimas. O estímulo deve ser à participação coletiva, com posterior convocação dos presentes a reuniões individuais de orientação. As orientações devem ser seguidas de acompanhamentos regulares, com aumento do espaçamento de tempo à medida que o colaborador assumir a adequada condução das mesmas. Os profissionais da área de RH devem ser adequadamente treinados e receber o suporte de um profissional gabaritado, pois o mercado financeiro – incluindo o de crédito – transforma-se continuamente em razão da forte competição entre bancos.

RH - Que dicas o senhor daria para quem se encontra no vermelho?
Cerbasi -
Recomendo sempre às famílias que entram todos os meses no cheque especial que atentem para o “dinheiro parado na prateleira”. Se todos aqueles que devem R$ 300 ou R$ 400 no cheque especial atentassem para o valor investido na despensa ou no tanque de gasolina do carro, passariam a fazer menos estoques ao final do mês. Aumentar a freqüência de compras, ou estocar menos, é um grande passo para pagar menos juros no banco.


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