
Confiar é baixar as guardas e se colocar nas mãos dos outros. Por isso para o ser humano seja tão difícil confiar plenamente no outro. No entanto, não existe relações humanas sinceras e fortes se não houver a confiança.
Cada vez mais o mundo corporativo tem sido invadido pelo o que vem sendo chamado de Gestão da Confiança. Embora seu valor seja reconhecido, a maioria das empresas ainda tem dificuldade em implantar essa filosofia.
Confira abaixo a entrevista com a palestrante Leila Navarro e o consultor empresarial espanhol José María Gasalla sobre esse tema tão presente em nossa vida dentro e fora das corporações.
Por que é importante confiar nas pessoas?
Leila Navarro e José María Gasalla: Entender as raízes da confiança (e da falta dela) em nossa vida me levou a estudar textos de psicólogos do século XX, que lançaram as bases para a compreensão do nosso comportamento. Um desses psicólogos, o alemão Erik Erikson (1902-1994), chamou o período do nascimento até 18 meses de idade como a fase da confiança básica x desconfiança básica. Como somos incapazes de entender racionalmente o que se passa à nossa volta, apenas reagimos emocionalmente. Assim, se vivermos em um ambiente acolhedor, formos logo atendidos quando choramos, bem cuidados, amados e nutridos por nossa mãe, entendemos instintivamente que podemos confiar nela e que nossas necessidades serão satisfeitas. Recebemos, dessa forma, os primeiros estímulos para projetar confiança nas pessoas e no mundo. Por outro lado, na medida em que não obtivemos a atenção, o carinho e os cuidados desejados, desenvolveremos sentimentos de insegurança, rejeição e desmerecimento, descrença na vida e no futuro. Psicólogos dizem que em situações de extrema falta de confiança básica, as pessoas são levadas a cometer suicídio. Conheço pessoas que não confiam na própria sombra, que dizem “não confiar nem mesmo em seus dentes, pois eles podem mordê-lo”. Isso não pode! Assim não dá pra viver! Afinal, ainda de acordo com Erikson, a confiança tem uma relação direta com o amor. Ou seja, atenção, cuidado, nutrição e aconchego nada mais são do que manifestações amorosas daqueles que nos cercam. Bem no começo da vida, o amor nos faz acreditar que as outras pessoas não nos prejudicarão e a vida nos trará o que precisarmos: é o que nos ensina a confiar!
De que forma a autoconfiança pode influenciar no ambiente de trabalho?
Leila e Gasalla: A confiança instintiva com que nascemos precisa se desenvolver para que sejamos capazes de confiar em nós mesmos. E quanta coisa pode acontecer nessa trajetória e dificultar a aquisição de autoconfiança e auto-estima. Não é de se estranhar que tantas pessoas não tenham esses atributos suficientemente desenvolvidos - o que é um problema maior do que parece, pois a falta de autoconfiança compromete a confiança de uma maneira geral. Se não confiamos em nós mesmos, nos sentimos vulneráveis aos outros e temos dificuldades em confiar neles; temos também dificuldade em realizar nossos objetivos, sofremos fracassos e passamos a não confiar na vida. Isso reforça a falta de autoconfiança, que leva a desconfiar mais dos outros e da vida. E, assim, a espiral da desconfiança se instala em nós.
Muitas empresas abordam a importância do trabalho em grupo. Sendo assim, confiança é um fator fundamental para que o trabalho se concretize?
Leila e Gasalla: É bem verdade que, embora desejem profissionais autoconfiantes, as empresas em geral não confiam e nem inspiram confiança. Você poderia argumentar que um clima organizacional de desconfiança é como um balde de água fria para qualquer um, pois pouco adianta ser confiante quando ninguém está disposto a acreditar em você. O problema é que esse raciocínio só faz perpetuar o círculo vicioso de desconfiança em nosso mundo. Enquanto continuarmos a pensar que "ninguém merece confiança, eu não confio em ninguém e ninguém confia em mim", seremos como o cachorro que corre atrás do próprio rabo e não chega a lugar algum. Esse círculo precisa ser rompido, e isso só pode ser feito a partir de nós mesmos, de nosso interior.
Como um líder pode estimular seus funcionários a confiarem uns nos outros?
Leila e Gasalla: O líder deve apresentar aos seus funcionários as variáveis individuais da confiança, às quais chamamos de 10Cs, um “braço” do GpC (Gestão por Confiança), criada por Gasalla, meu parceiro nesse livro. O GpC funciona como um modelo de gestão por competências, no qual a confiança aparece como uma metacompetência explicada a partir desses 10Cs, que são: Competência profissional, Clareza, Consistência, Cumprimento da palavra dada, Comprometimento, Coerência, Confidencialidade, Cumplicidade, Consciência e Correspondência. A tese com que o GpC vem sendo trabalhado é que, na medida em que as pessoas incorporam essas competências ao seu comportamento, constrói-se ao longo do tempo um espaço e um clima de confiança nas organizações.
Como a confiança pode ser a chave para o sucesso pessoal e profissional?
Leila e Gasalla: A confiança tem tudo a ver com o sucesso pessoal e profissional! O que é uma pessoa automotivada? É a que tem autoconhecimento, sabe quais são seus talentos e os utiliza para realizar seus sonhos e cumprir o seu propósito de vida. Porém, nada daria certo se ela não confiasse em si mesma, certo? A pessoa automotivada tem uma grande força interna que a impulsiona a superar obstáculos, mas isso não a torna infalível e sempre vencedora. Ela também erra e precisa aprender, está sujeita a crises, perdas e fracassos, como qualquer outra - e aí entra a Confiança no Universo, que a faz acreditar que nasceu para ser feliz e que toda situação difícil traz uma possibilidade de aprendizado. A pessoa automotivada pode ter muito poder, mas não é capaz de fazer tudo sozinha. Para muitas coisas, precisará de colaboração, e aí entra a confiança no outro. Conclusão: para ter sucesso e felicidade, a pessoa automotivada precisará confiar. E muito!
Como voltar a confiar em alguém depois que essa estrutura foi abalada?
Leila e Gasalla: Depois que comecei a estudar a confiança e a colecionar histórias de pessoas que confiam, não tenho dúvida de isso seja possível. Mas não espere por uma fórmula, um passo-a-passo ou receita que sirva igualmente para todos. Cada um tem que resgatar a confiança à sua maneira, e isso pode significar revisitar todas as experiências de vida em que perdeu um pouco dela, reconhecer e transformar as crenças que a enfraqueceram ou aprender a interpretar situações sob um novo ponto de vista.
Como recuperar a autoconfiança?
Leila e Gasalla: Exercendo seus talentos! Você sempre deve buscá-los! Qual é sua habilidade natural e tem prazer em realizar? O que faz você se sentir completamente à vontade? O que os outros sempre lhe dizem que é sua habilidade ou lhe pedem sempre para fazer, porque você faz melhor do que ninguém? Existem coisas nesse mundo que você é capaz de realizar de um modo especial, que é só seu. Descobrir o que é poderá ser decisivo no resgate de sua autoconfiança.
Confiar não está relacionado à ingenuidade?
Leila e Gasalla: Saber que o Universo conspira a nosso favor e fluir com a vida, mesmo quando parece que tudo dá errado, reforça incrivelmente nossa confiança. Isso nos faz sentir mais seguros para enfrentar as crises, os problemas, o desconhecido e a incerteza quanto ao futuro, que é a marca do nosso tempo. Não acho que isso seja ingenuidade, e sim, confiança no Universo, permitir-me crescer com a situação que estou vivendo e sempre acreditar que ela irá acontecer ou aconteceu para meu bem.
No livro, você também aborda o assunto "talento". Qual a relação entre talento e confiança?
Leila e Gasalla: Para passarmos a acreditar e confiar nas pessoas, precisamos fazer alguns exercícios de nossos talentos, ou seja, devemos transformar algumas crenças limitantes e termos uma visão mais positiva da vida. Quando se trata de confiança, é fundamental que tenhamos claro para nós mesmos o que está ao nosso alcance fazer e com o que podemos nos comprometer. Devemos projetar a confiança que temos em nós mesmos para sermos capazes de ver os outros como pessoas dignas de confiança.
De que forma, modificar as nossas crenças pode nos ajudar a ter autoconfiança?
Leila e Gasalla: Da mesma forma como assimilamos crenças negativas e limitantes que prejudicam a confiança em nós mesmos e na vida, podemos transformá-las e, com isso, aumentar nosso nível de confiança. Para transformá-las, precisamos reconhecê-las, e uma boa estratégia para isso é prestar atenção ao que se passa em nossa mente, como que nos desdobrando em duas pessoas: a que pensa e a que observa. A neurociência recomenda que as pessoas reservem alguns minutos diários para repetir a crença que desejam incorporar até que ela seja definitivamente gravada.
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