Liderança com coração
O norte-americano James Hunter, autor do best-seller “ O monge e o executivo” , fala da relação das lideranças com o mundo corporativo
Um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos. Talvez seja essa a melhor forma de apresentar o consultor e escritor norte-americano James C. Hunter. Há quase um ano ele não sai da lista dos autores mais vendidos de diversos veículos de comunicação brasileiros e isso se deve a 139 páginas de uma agradável narração sobre a essência da liderança. O livro O monge e o executivo tem como premissa básica um ensinamento milenar, praticado por Jesus Cristo, que sustenta que “liderar é servir” e isso o torna diferente de outras publicações.
A obra conta a história de John Daily, um homem de negócios que está atravessando inúmeras dificuldades em seu trabalho e com sua família. Diante de uma situação extrema, ele decide participar de um retiro em um mosteiro, que é comandado por Leonard Hoffman, que no passado foi um grande empresário, mas que decidiu abandonar tudo para procurar um novo sentido para a sua vida. E então, a aula começa.
Nesta entrevista, Hunter ministra essa aula e fala, mais do que sobre liderança, a respeito das mais variadas nuances da natureza humana.
profissional & negócios – Primeiramente, fale um pouco do ser humano James Hunter.
James Hunter – Bom, antes de qualquer outra coisa, penso em mim como marido e como pai. Meu trabalho é menor e está separado. Tenho uma filha de nove anos de idade, que minha esposa e eu adotamos desde seu nascimento. Fizemos isso porque não podíamos ter filhos. Minha mulher é o amor da minha vida desde criança, pois eu a conheço desde a terceira série, mas fomos nos casar um pouco tarde, quando eu já tinha 34 e ela 33. Basicamente, essa é minha vida. Quanto ao trabalho, sou treinador de líderes. Minha missão é ajudar pessoas a entender a maravilhosa responsabilidade de liderar, ensiná-las o que é liderança, o que significa servir sua esposa, seus filhos, seus empregados. Não penso na profissão de escritor. É algo diferente e separado.
p&n – Mas como surgiu esse lado?
Hunter – Em meados da década de 90, quando minha filha tinha uns dois anos, comecei a pensar sobre minha mortalidade, estava passando por uma crise de meia idade mesmo, “se eu morrer, minha menina nunca vai saber o que eu pensava ou no que acreditava”. Então, decidi escrever uma história para o futuro, pensando nela, sobre as coisas que eu defendia, porque se algo acontecesse comigo, minha esposa daria para ela. Foi assim. Eu não pensava em publicar um livro, mas depois que escrevi, dei para alguns amigos e eles disseram “ah, isso é bom, você deveria pensar em publicar”. E assim foi. Eu não escrevi pensando em publicar, mas acabou acontecendo.
p&n – Por que liderança? Qual é a sua fascinação por esse tema?
Hunter – Nos meus primeiros dez anos de trabalho fui consultor em Detroit, uma das áreas mais complicadas de nosso país, berço de diversos movimentos trabalhistas. E eu freqüentava diversas empresas e encontrava problemas com os sindicatos, baixa moral dos funcionários, absenteísmo alto, comprometimento quase nulo, em suma, pessoas tristes, e claro que eu, como consultor, tentava ajudar as pessoas. O que descobri é que os problemas das organizações estavam sempre na mediocridade da liderança, não nas pessoas. Elas estavam bem, mas os líderes eram terríveis, ou o que chamo de chefes do “pescoço para baixo”, que tem o comando e o controle, mas não querem que o funcionário pense ou tenha emoções. Então, decidi que algo tinha de mudar e passei a prestar atenção nas lideranças das empresas. E nesses anos de consultoria, observei os líderes que obtinham sucesso e os líderes que eram ruins e me perguntei “qual é a diferença?”. A resposta: os grandes líderes eram sempre aqueles que se importavam com as pessoas, que ajudavam os outros a serem os melhores e fornecia as ferramentas necessárias. E a conclusão foi óbvia, pois significava que você precisava servir as pessoas e identificar as suas necessidades para obter sucesso.
p&n – Em O monge e o executivo , além de levar o leitor a repensar a postura do líder, você fala em uma humanidade melhor, mais solidária e menos egoísta. Na sua opinião, que tipos de transformações o livro pode causar nos leitores?
Hunter – Primeiramente devo dizer que essas idéias não são minhas. Os princípios da liderança que serve para ser servida são velhos. Jesus falava nisso dois mil anos atrás. Ou seja, roubei todo esse material, nada é meu. O que fiz e faço é relembrar as pessoas. Em meus seminários, digo que não instruo, e sim, relembro. Nós precisamos ser relembrados sempre, é por isso que vamos à igreja aos domingos. Não estou aqui para transformar ninguém, só para relembrar as coisas boas e corretas e inspirar isso nos leitores.
p&n – Você acha que um livro tem esse poder?
Hunter – Sim. Mas, não sei se o meu livro é inspirador. Quando o escrevi, sabia que queria uma parábola, porque livros de negócios instruem a mente, mas parábolas instruem o coração, já que conseguimos relacioná-las a algo. Jesus ensinou através de parábolas porque é um modo lindo de dizer a verdade, pois a move da mente para o coração. Muita gente sabe sobre liderança na cabeça, mas poucas sabem de coração.
p&n – O que você acha que faz de O monge e o executivo um livro de tanto sucesso?
Hunter – Acho que é porque não acredito que liderança seja sobre estilo e personalidade. Minha personalidade é diferente da sua, e aí? Olhe para os grandes líderes e eles são bem diferentes entre si. Liderança é algo muito mais profundo, é sobre caráter. É a sua vontade de fazer a coisa certa e de ser paciente com as pessoas, de escutar, de ser humilde, de ser respeitoso. É sobre caráter, não personalidade. Liderança é inspirar pessoas e influenciá-las, e isso é bem diferente de ser um ótimo empresário. Conheci grandes empresários que eram líderes muito ruins, e grandes líderes que eram empresários terríveis. Empreender é o que você faz: comprar, orçar, organizar, sanar problemas, ter estratégias e visão. Liderar é ser quem você é: inspirar e influenciar pessoas a agir.
p&n – O que uma organização deve fazer para construir relações cada vez mais estreitas com seus colaboradores e ter o poder de inspirá-los?
Hunter – Eu chamo de “como você consegue ser um chefe do pescoço para cima?”. Bom, podemos ter a força de trabalho dos funcionários, mas isso é pouco. Precisamos de seus corações, suas mentes, seus espíritos. E como um líder faz isso? Primeiro, é necessário ter um propósito. Por que estamos aqui? Para fazer alguém ficar rico? Isso não é inspirador. Precisamos encontrar um propósito maior, talvez, servir nossos clientes melhor do que qualquer um pode fazer. Ou então, “eu estou aqui para fazer você ser o melhor profissional possível”. Isso é inspirador. Tudo que fazemos tem um propósito, e o papel do líder é relembrar isso, inspirar e ajudar na busca desse propósito.
p&n – No livro, John Daily está vivendo um caos como profissional, como marido e como pai. É possível distinguir as qualidades necessárias para exercer cada uma dessas funções, ou tudo está interligado?
Hunter – Gandhi dizia que “a vida não são vários compartimentos, mas algo totalmente indivisível”. Normalmente, quando vemos um chefe ruim no trabalho, ele é um pai ruim também. Mas, às vezes, pessoas são capazes de separar, mas isso não é normal. Então, o que acontece é que eu ajudo pessoas no trabalho e, conseqüentemente, as ajudo em casa. Por isso, se você ajuda seus colaboradores a crescer, você contribui para uma sociedade melhor e isso é o que o líder pode e deve fazer, ensinando caráter no local de trabalho, coisas como o que significa ser respeitoso, não abusar das pessoas, ter boa atitude, não ser egoísta, ser humilde, por exemplo. Claro que não é fácil, mas pessoas podem mudar.
p&n – Qual é o real papel do RH no que tange as lideranças das empresas?
Hunter – O que o RH pode fornecer de melhor é a ajuda a liderança superior da empresa. Como? Compartilhando decisões como quais as melhores pessoas para se trabalhar. Ter as melhores pessoas dentro do ônibus, nos assentos corretos e tirar as pessoas ruins fora do ônibus é o grande papel do RH. Isso acontece porque a empresa com o melhor time vai vencer. Isso é certo. É uma responsabilidade fantástica, mas acho que muitos profissionais de RH não perceberam o tamanho disso. Meu conselho para eles seria isso: ajudem suas empresas a terem os melhores profissionais.
p&n – Você acha que nas empresas há espaço para espiritualidade?
Hunter – Certamente, como nunca houve. Isso inspira as pessoas. Mas acho que a questão não é tanto sobre a espiritualidade, mas é em relação a fazer a coisa certa mesmo.
p&n – No livro, você diz que liderança tem a ver com autoridade e não poder. O que quer dizer com isso?
Hunter – Uma vez, Jesus disse “liderar é servir”, e ele tinha, e tem, grande influência e por causa disso eu devo saber o que ele diz sobre liderança. Eu não entendia isso antes. “Servir? Eu sou o chefe! O melhor!”. Não sabia também a diferença entre poder e autoridade. E se você não entender isso, você nunca vai entender “liderar é servir”. Max Weber falava sobre essas diferenças há 80 anos e em níveis sociológicos, nós ainda usamos esses termos: poder é faça ou caia fora; autoridade é a habilidade de capturar a vontade das pessoas para fazerem seu melhor, ou seja, influência. Por exemplo, minha mãe não tem poder algum, é uma mulher idosa, mas eu faria qualquer coisa para ela, ou seja, mesmo sem poder ela tem muita autoridade sobre mim. Como ela conseguiu essa autoridade? Leu num livro? Não. Ela serviu. Gandhi não tinha poder, mas tinha muita autoridade. Serviu e se sacrificou por uma causa. Quando você é o líder e se sacrifica pelas pessoas, você consegue autoridade. Servindo você constrói influência e isso é comandar do “pescoço para cima”. Claro que, às vezes, é preciso usar o poder, mas para um líder, isso é uma má idéia. Jesus não estava falando de poder, ele não tinha poder, ou se você acha que ele tinha, ele escolheu não usar seu poder, ele estava falando de guiar as pessoas através de seus corações. Para ter influência é preciso servir.
p&n – Você acha que a religião pode ajudar as pessoas a serem melhores líderes e seres humanos?
Hunter – Sim. Ajuda a mim. Mas conheço grandes líderes que não têm religião alguma. Meu livro e meus princípios não são sobre religião, mas sobre caráter, você não precisa ser religioso para ter um bom caráter. Pessoalmente, a religião me ajuda muito, mas é necessário? Não. Antes, eu pensava que fosse, mas não. De qualquer forma, a religião repete várias vezes alguns ensinamentos importantes promovendo as coisas certas. Isso, para mim, é uma direção, porque minha fé ensina essas coisas.
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