Maria Amália Bernardi, autora do livro "A Melhor Empresa"
por Camila Micheletti
É indiscutível o valor que um bom funcionário tem hoje para uma empresa. A qualidade da força de trabalho passou a ser um fator decisivo para o bom desempenho de uma organização. E quem fala em qualidade da força de trabalho está falando, obrigatoriamente, em funcionários motivados, competentes naquilo que fazem e capazes de entender que têm objetivos comuns com a empresa - coisas cuja existência só é possível se uma clara maioria deles estiver altamente satisfeita com o lugar onde trabalha.
Com o objetivo de oferecer um mapa detalhado de orientação para o planejamento e a execução de ações que se destinam à melhoria do clima organizacional nas companhias, Maria Amália Bernardi, criadora da lista das 100 melhores empresas para você trabalhar, lançou, em setembro de 2003, o livro "A Melhor Empresa", pela Editora Campus.
Dos 11 capítulos do livro, 10 mostram os elementos que, na visão da autora, são os que realmente impactam o ambiente de trabalho e pesam a ponto de um profissional querer ou não ficar na organização. Ao fim de cada capítulo, há uma súmula dos pontos principais apresentados e também exemplos de empresas, do Brasil ou de outros países, que revelam o que elas estão fazendo para buscar e reter este ativo tão precioso: profissionais de qualidade.
Maria Amália Bernardi é jornalista especializada em Gestão de Pessoas. Construiu sua carreira em duas décadas de Editora Abril - ficou dez anos na revista Veja e depois foi para a revista Exame, onde ocupou o cargo de editora executiva e implantou a área de Vida Executiva. Em 1997, criou o Guia Exame - As 100 Melhores Empresas para Você Trabalhar, o primeiro guia do gênero no mundo (esteve à frente deste projeto durante suas quatro primeiras edições). Em 1998, lançou a revista Você S.A. e a dirigiu por três anos. Em toda a sua vida profissional, teve oportunidade de conhecer profundamente os mais diversos aspectos da vida corporativa e do ambiente de trabalho das empresas brasileiras. Hoje é sócia da Best Companies, consultoria em Ambiente de Trabalho sediada em São Paulo.
A jornalista contou, em entrevista exclusiva ao Empregos.com.br, como fazer da organização que você trabalha uma empresa de sucesso, que sabe atrair e manter quem faz a diferença. Confira!
Empregos.com.br - Porque surgiu o livro? Por que só agora, seis anos após você ter criado o Guia das 100 Melhores?
Maria Amália - Escrever um livro exige muita dedicação, então enquanto estava na Abril essa idéia era muito longe, não tinha tempo. Eu saí da Editora em 2000 e fiquei fora do Brasil por um tempo. Fui demitida de forma injusta, a recuperação não foi fácil. A verdade é que não queria ouvir falar nesse assunto, por isso foi bom estar totalmente recuperada para começar a escrever o livro. Quando voltei a pensar no assunto, em 2003, o Guia já havia tomado uma importância e um destaque muito maior que naquela época. Resolvi escrever e publicar antes que alguém o fizesse.
Empregos.com.br - Como foi o processo de criação?
Maria Amália - Já tinha tudo na cabeça, então levei só um mês e meio para escrever. Tive a preocupação de que o livro não ficasse parecido com o Guia, porque não era essa a intenção. Relacionei 27 empresas no total, sendo que elas estão situadas dentro dos atributos que considero essenciais em uma boa empresa para se trabalhar.
Empregos.com.br - E quais são eles?
Maria Amália - Oportunidade de crescimento, senso de justiça, liberdade para ouvir e falar, confiança na liderança, ética, bons chefes, comunicação, camaradagem, recompensas materiais e, por fim e não menos importante, o papel do presidente.
Empregos.com.br - Você tem bastante conhecimento sobre as melhores práticas realizadas nos outros países. Como está o Brasil em relação às organizações européias, por exemplo?
Maria Amália - Felizmente, estamos muito mais adiantados do que eles. Os empresários brasileiros copiaram o modelo norte-americano, que preza a motivação e o reconhecimento do funcionário. Na Europa, eles têm o Guia das 100 Melhores há apenas dois anos, eles estão bem ultrapassados no trato com os funcionários. Para você ter uma idéia, a questão de benefícios está começando a ficar importante por lá agora. Hoje, estar presente no Guia, pelo menos no Brasil e nos Estados Unidos, é até uma questão de vaidade. O empresário sabe que precisar melhorar para ter lucro, é uma questão de sobrevivência.
Empregos.com.br - Qual o papel do profissional de RH na construção da melhor empresa? Por onde começar o projeto?
Maria Amália - O RH deveria cobrar, infernizar a vida do
presidente até ele comprar a idéia. Só ele tem autoridade para decidir que a empresa vai mudar. O RH sozinho não faz milagres. Se o presidente não achar importante, o projeto não vai para frente. Ele precisa entender que só com a mudança da cultura organizacional, com todos aqueles atributos que comentei acima, os profissionais comprometem-se com a empresa e começar a gerar resultados. Costumo dizer que as empresas têm acesso às mesmas coisas. É preciso fazer com que o profissional se sinta bem, seja parte de uma família mesmo. Não deveria haver nada mais importante do que transformar a empresa.
Empregos.com.br - Como ser a melhor empresa sem recursos financeiros para investimentos?
Maria Amália - O único investimento que envolve dinheiro é a questão salarial, que precisa estar na média do mercado. Todas as outras mudanças envolvem atitudes: é a comunicação transparente e direta com os funcionários, os maus chefes, que precisam ser eliminados, e a camaradagem, que é esse clima de amizade, de família, que deve haver em toda organização. Também pode ter um custo a empresa antiética, que sonega impostos e faz caixa 2. É muito importante que o chefe ou mesmo o presidente não fale aquilo que não vai poder cumprir, porque a mentira desestimula qualquer um. Mas, se a empresa não tem mesmo nada para investir, eu recomendo que o RH e o presidente trabalhem apenas com as questões que não envolvem dinheiro: a diferença na lucratividade já será visível.
Empregos.com.br - Um dos atributos que você considera fundamental na boa empresa é a liderança. Maus chefes podem causar um estrago na empresa?
Maria Amália - Sim, com certeza. A grande maioria dos funcionários não tem acesso ao presidente e aos diretores, então o seu superior direto é a cara da empresa para ele. Se o chefe age injustamente, o funcionário fica com raiva da empresa. Por isso que maus chefes devem ser eliminados o mais rápido possível, para o bem da empresa e dos que lá trabalham.
Empregos.com.br - Seis anos se passaram desde quando você começou como editora na Revista Exame até hoje. O que mudou no mercado de trabalho, na sua opinião?
Maria Amália - O mercado de trabalho está muito mais competitivo, mais fechado. Hoje em dia, você precisa estar preparado para ficar desempregado, porque isso pode acontecer quando menos se espera. Comigo, com você, com diretores e presidentes, com os operários de fábrica. Não tem mais a barreira da hierarquia, todo mundo está sujeito ao desemprego. Eu senti isso na pele, após 18 anos de trabalho na Abril. Não importa mais se você é bom ou não, você pode ser mandado embora a qualquer momento, por uma questão pessoal aparentemente sem importância.
Empregos.com.br - Se o profissional de RH perceber que já tentou de tudo, mas não vai conseguir mudar a empresa, o que fazer?
Maria Amália - Não resta outra alternativa a não ser sair da empresa. Não adianta ficar em um emprego que não traz perspectiva, é um verdadeiro atraso de vida. Saia inteligentemente, com outro emprego em vista, mais saia correndo! (risos).