Ana Luísa Peixoto Guimarães, diretora de Recursos Humanos da Novell
por Camila Micheletti

“Estou desbravando a área de Recursos Humanos na Novell. Começando do zero mesmo”, afirma a mais nova - e única - diretora de RH da empresa. A sua principal missão é estruturar a área de RH alinhada ao reposicionamento da empresa, iniciado no ano passado.

A atual realidade da empresa é bastante diferente de dois anos atrás, quando era focada em produtos de infra-estrutura de redes. Hoje, a Novell abrange consultoria, soluções de integração e segurança de identidade, além de um portfólio Linux. Nos últimos tempos, a fornecedora adquiriu quatro empresas - a consultoria de negócios Cambridge Technologies; a Softwarehouse, especialista em web services, Silverstream; a Ximian, um dos principais fornecedores de soluções corporativas para desktops e servidores em ambiente Linux; e, mais recentemente, a SUSE Linux, um dos maiores fornecedores de Linux do mundo.

“A estrutura da empresa mudou muito e muito rapidamente, e os funcionários precisam se alinhar a isso”, explica a nova diretora. “Ao rever e implantar novas políticas de RH, a empresa ganhará funcionários motivados, que entendem a sua nova realidade corporativa e o seu papel dentro deste universo”, completa.

Ana Luísa conta que a Novell tem uma necessidade latente de estabelecer uma cultura de RH, principalmente agora que seu foco é em consultoria e não mais em produtos. “Quando se fala em consultoria e serviços, tudo muda em termos de recursos humanos. Muito mais pessoas passam a fazer parte do mundo corporativo”, diz a executiva.

“Isso envolve estabelecimento de políticas de recrutamento, integração, treinamento, avaliação de desempenho, motivação etc”, enumera. Ela diz que esta reestruturação é somente a primeira etapa. “Passada esta fase, poderei avançar em programas mais complexos, como qualidade de vida e ajuda social”, prevê.

Para a nova diretora de RH, é fundamental unir as funções administrativas com o negócio da empresa. “É necessário que as pessoas entendam o negócio da Novell para trabalharem focadas nele”. E para o seu departamento não é diferente. “RH é uma área de suporte, criada para facilitar a vida das pessoas dentro da empresa. A minha equipe precisa entender a fundo seu business e estar a par de tudo o que acontece para fazer algo concreto e alinhado às expectativas”, afirma Ana Luísa, que trouxe para a Novell toda uma carreira de experiência em RH.

Ana Luísa Guimarães vem de 14 anos de uma carreira muito bem sucedida em multinacionais dos ramos alimentício e farmacêutico, e TI é uma área completamente nova para ela. Os últimos anos foram dedicados à gerência de recursos humanos da Aventis Behring para América Latina, países emergentes e Ásia. Formada em Psicologia pela Universidade Paulista, Ana Luísa especializou-se em Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas.

Confira a seguir a entrevista que a profissional concedeu ao Empregos.com.br. Se você achava que só a sua organização tinha um RH deficiente, e que empresas de ponta nunca passam por este problema, leia a entrevista e veja o que Ana Luísa, em conjunto com a sua equipe e o apoio da direção, vem fazendo para reverter este quadro na Novell:

Empregos.com.br - Quantos funcionários a empresa tem no Brasil e no mundo?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
São 60 no Brasil e 4.000 no mundo, aproximadamente.

Empregos.com.br - Um estudo da IDC Brasil divulgado em maio de 2004 mostrou que o mercado de serviços de Tecnologia da Informação deveria iniciar em 2004 um processo de recuperação, ainda que em ritmo gradual. De acordo com o estudo, mesmo com os efeitos agudos da desaceleração verificados em 2003, este ano é de otimismo para o setor. Essa tendência se confirmou?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Sim, apesar do ano ter começado mesmo depois do Carnaval, está sendo um ano bom. Recentemente, a Novell anunciou os resultados de seu primeiro trimestre fiscal, cuja receita foi de US$ 267 milhões em comparação com a receita de US$ 260 milhões do primeiro trimestre fiscal de 2003.

Empregos.com.br - Em fevereiro deste ano, você assumiu a diretoria de RH da Novell no Brasil, mas você vem de um carreira consolidada nos setores alimentício e farmacêutico. Como foi essa mudança?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Nos últimos 14 anos trabalhei na Aventis, do segmento farmacêutico, onde já tinha consolidado uma rede de informações, relacionamentos e contatos muito grande. Claro que lá estava tudo mais fácil, de repente estou num segmento que não conheço, com pessoas que também não conheço. Estou aprendendo e descobrindo aos poucos.

Empregos.com.br - O RH de uma empresa de TI é muito diferente das outras áreas em que você já trabalhou?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Não chega a ser muito diferente nos processos de RH. O segmento de TI é mais rápido que o farmacêutico, muda a agilidade das coisas e das demandas. Sinto que a área de tecnologia é muito mais demandante, tudo muda muito rápido. O fato dos profissionais serem mais jovens e trocarem de empresa com mais freqüência também contribui para essa agilidade. Em farma os processos são muito mais lentos.

Empregos.com.br - Quais são os seus projetos para a Novell?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Primeiramente, estamos fazendo um trabalho de base, de avaliação de fornecedores de benefícios. Estamos estruturando nossa política de recrutamento e estágios, porque não havia nenhuma política nesta área. A verdade é que a Novell não tem muito histórico de RH. Estamos começando do zero, literalmente. Além de estabelecer os processos e políticas de Recursos Humanos, os colaboradores também precisam entender o que está ocorrendo, sentir essa importância e passar pela mudança de cultura, que é um processo que leva tempo.

Empregos.com.br - Pelo que você está me dizendo, o RH na Novell ainda não é estratégico.
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Definitivamente não, até porque não havia um departamento de RH formal, começou agora comigo e com a mudança de foco da empresa, que era produtos e agora é consultoria. O RH estratégico é aquele que entende e faz parte do negócio. Está linkado com que acontece na organização. Por que também não adianta ter um RH como apêndice, ele precisa estar relacionado à estratégia da empresa.

Empregos.com.br - Porque o profissional de RH ainda enfrenta dificuldades de se tornar estratégico?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Eu acredito que para ser estratégico é fundamental participar do board, fazer parte das decisões. Aqui na Novell isso já ocorre, desde que entrei na empresa tenho cadeira cativa no "Management Team", reunião com todos os diretores e a presidência.

Empregos.com.br - São reuniões mensais?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Não, nos reunimos duas vezes por semana. Isto ocorre porque não só eu, mas muitos da equipe também são novos. O presidente assumiu há 9 meses, o comercial há 4 meses, precisamos desse contato mais freqüente no começo porque estamos tratando de vários assuntos. É muita mudança para ser trabalhada e muita gente nova.

Empregos.com.br - Qual o grande desafio que você tem que enfrentar na empresa?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Preciso estruturar toda a área de RH. Não tem nada, vamos começar do zero, já com o pensamento de que o RH precisa estar alinhado ao business. E vamos linkar isso com as estratégias da matriz. O que não quer dizer que vamos engessar as políticas, pelo contrário: vamos tropicalizar. Mas, como eu já falei, isso não vai ser feito da noite para o dia, porque tem que fazer sentido para os funcionários.

Empregos.com.br - No competitivo mercado de tecnologia, quais políticas serão implantadas para atrair, desenvolver e reter talentos?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Isso também está sendo reestruturado. A política atual é a mesma da matriz: assistência médica e odontológica, previdência privada e bônus. Estamos começando a estruturar também um programa de estágios, que antes não havia. Vamos contratar jovens nas áreas de RH, Finanças, Serviços, Vendas, Marketing e Canais.

Empregos.com.br - Responsabilidade social, o que a Novell pretende fazer nesse sentido?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Já começamos com o voluntariado, temos convênio com uma instituição de crianças carentes da Zona Norte de SP. Liberamos os funcionários para passar um dia na entidade, fazendo melhorias na estrutura física (pintando muros, por exemplo) e o trabalho social com as crianças. A idéia é que todos dêem um dia da semana em prol da instituição. Estamos estruturando outros projetos também, que ainda não saíram do papel.

Empregos.com.br - Você já atuou na diretoria de RH para América Latina, países emergentes e Ásia. Você precebe alguma diferença entre o RH feito no Brasil e nos outros países?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Avaliando as outras empresas em que trabalhei, posso dizer que estamos no mesmo nível dos países de primeiro mundo, seja no nível de forncedores ou nas políticas de RH propriamente ditas. Claro, isso reflete a realidade que eu conheço, que é a das grandes empresas, multinacionais que usam muitos processos que já existem nas respectivas matrizes.

Empregos.com.br - Para alguns profissionais que estão iniciando a carreira, a diretoria de RH de uma multinacional é um sonho. O que se deve fazer para realizá-lo?
Ana Luísa Peixoto Guimarães -
Eu acredito que a melhor forma é começar aprendendo desde cedo, preferencialmente como estagiário na área. Foi assim que eu comecei também. Independente de você já ter escolhido uma área específica em RH, o estágio é uma oportunidade muito rica de aprender. A minha dica é: vá em buca de um estágio, trabalhe com afinco, prove que você é capaz. Mas não adianta ter muita pressa: o que vai fazer de você um bom profissional é a união da experiência com a maturidade, duas coisas que só vêm com o tempo.