Michael Haradom, diretor-presidente da Fersol
por Camila Micheletti

A Fersol é uma empresa química de capital nacional especializada em produtos agrícolas, domissaneantes, veterinários e de saúde pública. Foi fundada em 1975 por Michael Haradom, que continua na presidência da companhia até hoje. Para a empresa, as políticas de RH devem ser aperfeiçoadas de acordo com as necessidades e a realidade em que vivem os colaboradores. Esta dinâmica de constante evolução levou a empresa a implementar benefícios que facilitam e valorizam os seus trabalhadores, pincipalmente as mulheres.

Uma das ações foi incrementar o auxílio-creche por mais tempo e maior valor. Segundo a Lei, as mães devem receber R$ 150,00 mensais para arcar com custos de creche até que seu(a) filho(a) complete dois anos de idade. A Fersol elevou o valor do auxílio para R$ 200,00. Em virtude do insuficiente número de creches em Mairinque, os colaboradores que moram nesta comunidade têm o benefício ampliado por mais três anos, ou seja, até que a criança complete cinco anos, idade em que pode ingressar na escola pública.

A licença amamentação e da licença paternidade são outras duas iniciativas que contemplam os colaboradores com uma extensão no tempo das licenças previstas na lei. Assim, a mãe amamenta seu bebê por mais tempo e o pai pode participar das primeiras semanas de vida do seu filho ou filha. Além de pais de filhos biológicos, o benefício inclui pais e mães de bebês adotivos e também membros de união homossexual estável que adotem bebês com até seis meses de idade.

Segundo o artigo 396 da CLT, até que o(a) filho(a) complete seis meses de idade, a mulher tem direito a dois descansos diários de meia hora para fins de amamentação. A localização da FERSOL e a dificuldade de transporte inviabilizam a concessão dessas pausas no fim da jornada de trabalho, quando as empresas costumam liberar a funcionária uma hora mais cedo. Em compensação, a Fersol permite que elas tirem 30 dias de descanso complementar e tenham a possibilidade de realocação das férias de modo a coincidir com esse período. Somando a licença amamentação (um mês), as férias (um mês) e a licença maternidade (quatro meses), a mãe tem a chance de dedicar seis meses à amamentação de seu filho(a), recebendo seu salário normalmente. As mães que adotarem bebês com até seis meses também podem solicitar o benefício. "Não podemos chamar essas coisas de privilégios. São direitos que todo ser humano deveria ter acesso. Não custam tanto assim, e o retorno para a empresa, em forma de motivação, é muito maior. Quem ganha é a empresa", afirma Michael Haradom.

Estas e outras iniciativas levaram a Fersol a entrar na lista das 40 melhores empresas para a mulher trabalhar e nas 20 melhores empresas na categoria de 100 a 199 colaboradores, segundo o Guia Exame 2003. Em junho de 1999, a empresa obteve a Norma NBR ISO 9002, expedida pela certificadora DQS, e também a certificação ambiental pela Norma IS0 14001, em maio de 2001, também pela DQS, se tornando a segunda empresa do País e a primeira nacional no setor químico a conseguir a certificação. Em 2002, a empresa iniciou o processo de preparação para implementação da certificação da SA 8000, que tem como objetivo especificar os requisitos de responsabilidade social para possibilitar à empresa o desenvolvimento, a manutenção e a execução das normas trabalhistas nacionais e internacionais.

Michael diz que a expectativa da empresa é servir de modelo. "Esperamos criar um referencial para empresas, entidades e ONGs a fim de incentivar a adoção dessas políticas, que poderão vir a se tornar um projeto de lei futuramente". Confira a seguir a entrevista, onde o executivo fala das políticas de RH da empresa, critica a reforma agrária do Governo Lula e muito mais.

Empregos.com.br - Qual foi o faturamento em 2003? Quantos funcionários tem a empresa?
Michael Haradom - Tivemos um faturamento de 180 milhões de reais, e em 2004 esperamos chegar a 300 milhões de reais. O mercado agrícola vem crescendo muito nos últimos anos. Em 1992, no governo Collor, este mercado era de 1 bilhão de dólares e hoje é de quase 3 bilhões. Naquela época, a Fersol tinha menos de 0,5% do mercado e hoje voltou a ter os 3% que tinha em 1996. São 290 funcionários.

Empregos.com.br - Agribusiness é o setor que mais cresce no Brasil. A Fersol vem acompanhando esse crescimento?
Michael Haradom - Sim, temos duplicado o faturamento todos os anos. Estamos em joint operations com empresas da China e da Índia.Também abriremos uma nova fábrica de biorremediação em Tatuí, São Paulo, e outra de defensivos agrícolas em Rondonópolis, no Mato Grosso. Cada uma empregará, inicialmente, 50 colaboradores.

Empregos.com.br - A empresa exporta para outros países? Quanto foi exportado?
Michael Haradom - Sim. Atualmente exportamos 5% da produção, para alguns países latino-americanos (Uruguai, Paraguai e Argentina) e Europa - no momento só exportamos para a Espanha.

Empregos.com.br - Na sua opinião, por que a Fersol foi considerada uma das 40 melhores empresas para a mulher trabalhar?
Michael Haradom - Fazemos aquilo que é justo. Queremos, com as políticas, reforçar algumas atitudes que não são muito comuns nas empresas. Para nós, o que é considerado benefício e privilégio por outras empresas são direitos dos trabalhadores. Se todos os empresários cumprissem a legislação, sem dúvida, o cenário seria muito melhor. Somos uma das 40 melhores empresas para a mulher trabalhar no Brasil, segundo o Guia Exame 2003, porque adequamos nossa produção para que as mulheres não fossem barradas em nenhuma atividade. A decisão também beneficiou os homens e a empresa como um todo. A grande verdade é que quando um indivíduo faz alguma coisa que está fora da lei, vai para o banco dos réus. Quando uma empresa faz o que está dentro da lei, ganha prêmios. Queremos tornar mais humana e feminina as relações de trabalho, os negócios e a política.

Empregos.com.br - Os projetos de responsabilidade social incluem uma preocupação incomum com a politização dos colaboradores. Fale-me um pouco sobre a importância desse aspecto para a empresa, e como funciona o projeto.
Michael Haradom - Acreditamos que a Responsabilidade Social usualmente praticada nas empresas é um movimento que traz benefícios momentâneos e localizados, funciona como um paliativo. Todas as empresas que dizem praticar a Responsabilidade Social Empresarial deveriam procurar as certificações SA 8000 (normas e condutas nas relações de trabalho, segundo a OIT) e a OSHAS 18001 (saúde e segurança), como demonstração de sua verdadeira preocupação com o que chamam de RSE. Investimos na politização porque só a cidadania plena poderá fazer com que os cidadãos atinjam quatro condições que considero essenciais: emancipação, protagonismo, autonomia e consciência crítica. Por isso, desde 1998, nos anos de eleição, oferecemos cursos e workshops sobre política. O indivíduo precisa saber quais são os seus direitos e deveres. Quando ele toma essa consciência, entende que pode intervir nas políticas públicas e lutar por melhores condições de trabalho. O que pode fazer com que eles ganhem mais e consumam melhor. Assim, toda a economia e a sociedade acabam se beneficiando. As empresas precisam parar de atuar como tutores de seus funcionários. Quando existir uma relação mais madura entre as partes, com mais igualdade e cooperação, os dois lados ganharão.

Empregos.com.br - Qual é a sua opinião sobre a flexibilização da CLT?
Michael Haradom -
Precisamos saber que tipo de flexibilização o Governo pretende fazer. Por que se for igual a que teve na Argentina, não adianta. A reforma lá não criou mais empregos, tem que haver uma política que estimula a criação de novos postos de trabalho, principalmente nas pequenas e médias empresas. Sou a favor de uma legislação especial para as pequenas. Tem que ter muito cuidado para não trocar 6 por meia dúzia. Defendo a redução da jornada de trabalho para seis horas diárias com a mesma remuneração. Isto criaria 6 milhões de empregos no Brasil.

Empregos.com.br - Qual é a sua opinião sobre o problema da reforma agrária no Brasil?
Michael Haradom - A reforma vem sendo feita de forma muito lenta. Não é somente assentar, é preciso promover infra-estrutura, financiamento das moradias, dar instrução para os agricultores; mostrar os produtos que têm mais valor agregado. O Brasil poderia estar em outro patamar da reforma se tivesse uma política mais corajosa neste campo. Crescendo não só no número de assentamentos mas também nas facilidades nos assentamentos agrícolas. Sou favorável à agricultura familiar. Já é hora do Governo Lula ter mais coragem de mudar, ser mais ousado.

Empregos.com.br - Você é a favor da liberação dos alimentos transgênicos?
Michael Haradom - Eu prefiro não me colocar a favor ou contra nesta questão. Acredito que a ciência deve fazer as pesquisas necessárias, entender as novas técnicas, mas acho necessário ter um conhecimento profundo sobre as novas tecnologias antes de opinar. Tem que haver mais pesquisas, mais tempo. Mas, ao mesmo tempo, o ser humano tem que ter o direito da livre escolha. É preciso haver políticas que permitam comer um alimento geneticamente modificado, se essa for a sua vontade.

Empregos.com.br - Qual é o turn over da empresa?
Michael Haradom - Temos 2% de turn over. Buscamos trabalhar a diversidade e privilegiamos as minorias. Hoje temos 61% de mulheres, mas em 2 anos queremos atingir 65%; 38% de afrodescentes, em 2 anos vamos atingir 40%; 3% de portadores de deficiência, para em 4 anos atingir 7%, além dos 26% de pessoas da terceira idade.

Empregos.com.br - O RH na Fersol é fundamentalmente estratégico?
Michael Haradom - Sempre fizemos muitas coisas por intuição. O RH é estratégico porque as próprias políticas denotam a preocupação da empresa com os colaboradores. Mas o setor existe formalmente há poucos meses, antes era feito por mim. Além das que já citei, algumas outras políticas são o plano de cargos e salários, o funcionário sabe o que precisa fazer para se tornar um possível presidente da companhia; e a avaliação de desempenho, que avalia não só o aspecto profissional mas também a cidadania. Ele tem que estar inserido na sociedade e trabalhar como um multiplicador das idéias que adquire aqui dentro. Também fazemos avaliação 180º, em dois anos queremos implementar a avaliação 360º.

Empregos.com.br - Como vai ser este programa de lideranças?
Michael Haradom -
Estamos preparando os líderes e mostrando a eles quais são as figuras de liderança boas, como Gandhi e Martin Luther King. Vai ser um estilo de liderança baseado no servir, não-piramidal. Não queremos funcionários subalternos a outros, vai ser uma responsabilidade, ampliada e ilimitada, mas baseada na interdependência dos colaboradores.

Empregos.com.br - Vocês têm algum projeto relacionado a e-learning?
Michael Haradom -
Não. Temos previsão de começar com o treinamento virtual no início de 2005, já adquirimos os computadores inclusive. Além disso, temos alguns outros projetos voltados para a educação dos colaboradores e da comunidade. A Escola Fersol funciona em prédio próprio dentro da fábrica, com capacidade para até 500 alunos. Oferece gratuitamente curso supletivo, alfabetização de adultos e o ensino fundamental com possibilidade de conclusão do 2º grau. A meta é que todos os colaboradores tenham concluído o ensino médio até 2005.

Empregos.com.br - O budget de treinamento sofre oscilações nos momentos de crise?
Michael Haradom -
Sim. É na hora da crise que ele precisa aumentar, ser prioridade. Como resolvemos as dificuldades? Com mais relacionamento, mais diálogo, mais conhecimento e mais cursos. Reduzir o treinamento neste momento é um grande erro. A Fersol já passou por um momento muito difícil. Em 1995 o faturamento era de 12 milhões de dólares e a dívida, de 10 milhões de dólares, ou seja, a empresa estava praticamente quebrada. O que fizemos? Fomos muito transparentes e confiamos nas pessoas. Investimos em treinamento e aumentamos os salários de todos os trabalhadores que ganhavam o piso. Nossos ingredientes foram diversidade, educação e solidariedade. Provamos, com isso, que estávamos todos juntos no mesmo barco. Foi a diferença que fez para a motivação dos colaboradores e o que ajudou a empresa a se recuperar.