Entrevista: Ícaro Vernizzi
por Juliana Ricci
Visão crítica e de longo prazo. Essas são as características que fazem de Ícaro Vernizzi, diretor executivo da Central de Negócios em RH, um profissional obstinado pela qualidade e expansão de seus negócios. À frente da editora responsável pelo Guia Brasileiro de Recursos Humanos, Jornal Profissional & Negócios em RH e prêmio Top of Mind - Fornecedores de RH, conduz a empresa com a certeza de que o cliente precisa de dois ingredientes fundamentais: valor agregado aos serviços e variedade de opções.
Quem ganha com isso é o mercado de Recursos Humanos. Há 9 anos o ex-gerente de Publicidade do jornal "O Estado de S. Paulo" fundou uma empresa que vem oferecendo opções de mídia especializada para seus clientes. Além dos produtos impressos e do Prêmio Top of Mind, cujos resultados da edição 2002 foram revelados em 11 de dezembro último, em São Paulo, a Central de Negócios lançou na Internet o site Gol RH, com serviços e notícias da área, e pretende estrear um programa de televisão no início do próximo ano. "O objetivo da Central é criar um leque de opções para o mercado, inclusive em outros segmentos", revela Ícaro.
Com base na experiência de quem sempre esteve entre presidentes de entidades e empresas para desenvolver parcerias e articulações políticas, no Estadão e na própria Central de Negócios, Ícaro Vernizzi analisa a área de Recursos Humanos com olhar crítico: "É muito chantilly e pouco conteúdo", afirma. As razões dessa afirmação e as opiniões do profissional sobre o mercado você confere nesta entrevista concedida ao Empregos.com.br.
Empregos.com.br - O Guia Brasileiro de Recursos Humanos é uma relação completa de fornecedores da área? Como surgiu a idéia de fazer o produto que deu início à Central de Negócios?
Ícaro Vernizzi - Completa não, mas bastante abrangente. É impossível ser completa porque as empresas mudam de endereço, telefone, sócio, e manter o banco de dados atualizado dependeria de fazer com que as próprias pessoas buscassem a atualização. Não se encontrou uma forma de fazer isso que compense o custo. A publicação estabilizou-se ao longo dos últimos 3 anos com relação a anunciantes e tiragem. São 30 mil exemplares. A idéia foi do Wilson Candeloro, logo que saí do Estadão. Nunca houve um guia como esse e em 93 saímos com a primeira edição, patrocinada integralmente pela ABRH. A partir daí fiz uma sociedade com o Pedro Cezarino, da Publicidade Archote.
Empregos.com.br - E os outros veículos?
Ícaro Vernizzi - Durante 4 anos o Guia era o único produto e sofríamos com a sazonalidade. Eu tinha que dispensar equipes e recontratar. Lançamos então um produto com periodicidade menor, o jornal Profissional & Negócios em RH, e pensamos em algum mecanismo de relacionamento que colocasse a marca da Central mais próxima do cliente final -anunciante - e também do leitor. Surgiu então o prêmio Top of Mind, que já está na quinta edição. Com o jornal criamos uma mídia mensal que oferece informações e serviços, num formato diferente do tradicional da mídia de RH que é revista. O prêmio também foi uma novidade, uma vez que premia a marca e na época só existia o Prêmio Top de RH da ADVB, que premiava o case da empresa, e depois surgiram alguns para premiar os profissionais.
Empregos.com.br - Essa diversificação significa um reposicionamento da Central de Negócios no que diz respeito à oferta de serviços? O investimento no site GolRH é um sinal disso?
Ícaro Vernizzi - O objetivo é atender as necessidades do nosso cliente com um número maior de opções de mídia. Nós temos clientes que preferem papel, outros que preferem meio digital e outros ainda que vão preferir televisão. O site tem uma ótima visitação, principalmente porque fizemos dele o principal meio de captação de votos para o Top of Mind. O problema da Internet é que ela veio como um furacão e depois virou um ventinho fraco. Isso porque as outras mídias reagiram, porque a expectativa em torno da nova mídia era muito grande e porque esse meio também não é muito barato, pelo menos até chegar ao retorno desejado. Não é a melhor mídia e nem vai ser a longo prazo. Mas sempre vai ter gente que vai optar por ela.
Empregos.com.br - Com relação ao prêmio Top of Mind, cujos vencedores deste ano ficaram conhecidos no último dia 11, como funciona?
Ícaro Vernizzi - É um prêmio que homenageia as empresas mais lembradas pelo mercado, em 17 categorias diferentes. Neste ano mudamos o critério de seleção. Pedimos a diretores e gerentes de RH que indicassem as 5 empresas mais lembradas por eles. A partir de 350 retornos que tivemos, escolhemos as 5 que fariam parte da cédula de votação, e abrimos para votação geral. Apareceram empresas que geralmente não apareciam quando a votação era feita em uma fase só. Isso porque elas geralmente falam direto com o alto escalão das empresas. Ficou mais democrático.
Empregos.com.br - Pode acontecer dos patrocinadores concorrerem nas categorias. Isso não é estranho?
Ícaro Vernizzi - Todos os prêmios têm sua característica de "estranheza". O nosso também, porque os patrocinadores podem concorrer, mas o que eu tenho a favor do prêmio é que vários patrocinadores não ganharam, desde a primeira edição. No primeiro ano, a Amil era patrocinadora e tínhamos 3 prêmios para cada categoria - ouro, prata e bronze. A Amil tinha uma campanha intensa para pessoa física e pouco trabalhou os clientes da área de pessoa jurídica, o que os levou a não ganhar nada.
Empregos.com.br - Você lembra de alguma curiosidade com relação aos participantes?
Ícaro Vernizzi - Certo ano, uma empresa mandou entregar caixas com cerca de 5 mil cédulas no último dia da votação. Alguns grupos estavam presos com elásticos e papéis que continham nomes de pessoas, provavelmente de filiais. A empresa foi eliminada do prêmio.
Empregos.com.br - Existe uma lista negra de empresas que agem sem ética?
Ícaro Vernizzi - Fazemos uma pesquisa aleatória para confirmar se o eleitor existe, mas não há lista negra para quem tentar trapacear. Algumas organizações preferem não participar e mesmo que sejam votadas a gente não qualifica para o prêmio. Pode ser porque acham que o prêmio não vale a pena, afinal não precisam disso para serem lembradas ou porque têm medo de serem desmascaradas, já que afirmam serem as mais lembradas mas não querem ser colocadas à prova.
Empregos.com.br - Como você vê essa proliferação de prêmios na área de RH? Há um risco de banalização e perda de credibilidade? Como o mercado reage?
Ícaro Vernizzi - O mercado vai se encarregar, com o tempo, de filtrar o que é sério e apoiar. Evidentemente há alguns prêmios como o Top de RH, da ADVB, que se consagram depois de um determinado número de anos, o que depende dos relacionamentos do dirigente da entidade e de sua capacidade de conquistar mais ou menos adesões. Nós chegamos a fazer uma parceria com a ADVB que durou até o ano passado. Eu divulgava o Top de RH nos nossos veículos e ela divulgava o Top of Mind nos dela, mas acabou. Com a APARH e a ABRH eu prefiro não fazer porque elas são concorrentes ao prêmio, o que poderia gerar desconfianças. A Central de Negócios tem os produtos auditados pela Trevisan, o que garante a credibilidade do que fazemos, e não quero comprometer isso por nada.
Empregos.com.br - Como as empresas enxergam o prêmio no que diz respeito à relação investimento X retorno?
Ícaro Vernizzi - Com relação ao grupo dos patrocinadores, tem empresa patrocinando há 2 ou 3 anos, então a gente avalia que é uma exposição de marca interessante. No grupo das indicadas ao prêmio, tem empresa que usa o selo em sua comunicação, o que significa que o prêmio deve ser um aval com relação ao que a comunidade pensa delas. O prêmio está na quinta edição e todo prêmio, para adquirir a imagem de confiabilidade e respeito, precisa de tempo. Mas nenhum prêmio é critério decisivo para que alguém compre um serviço, mas sim um fator que está dentro de um conjunto. Decisivo, só o Nobel, que é mundial.
Empregos.com.br - Para a Central, qual a importância do Prêmio?
Ícaro Vernizzi - O espírito de criação do prêmio é fazer de maneira séria um ambiente para homenagear as empresas que trabalham para o mercado de RH. É um referencial, um retrato do momento do mercado, sobre o que ele pensa sobre as empresas com as quais a nossa empresa se relaciona. É homenagear o esforço de quem está fazendo as coisas acontecerem.
Empregos.com.br - Por que não há uma categoria de classificados online, que é um dos serviços que mais cresceu na área de RH?
Ícaro Vernizzi - Anteriormente os sites de recrutamento online concorriam na categoria de classificados de emprego, junto com os jornais. Existe um comitê que define a conceituação do prêmio, desde o processo de eleição até as categorias existente. Com relação às empresas de internet que oferecem divulgação de currículos e vagas, esse comitê entende que não são apenas um espaço eletrônico de divulgação, mas sim de prestação de serviço para as empresas ou profissionais. Esse espaço inclui mecanismos tecnológicos que facilitam a triagem e a busca, por isso o vemos como ferramentas de tecnologia para administração de Recursos Humanos, que é uma outra categoria que temos. Com isso, os sites passaram a concorrer com empresas que desenvolvem softwares para gestão de RH.
Empregos.com.br - Mas o público não vê essa categoria como uma área destinada a empresas como Microsiga e People Soft?
Ícaro Vernizzi - Empresas baseadas apenas na Internet estão criando no mercado uma percepção específica e não estão trabalhando para mudar essa imagem. É preciso mudar as estratégias de Marketing para mostrar que não são apenas captadores de currículos e que oferecem sistemas de gestão. Mas não adianta fazer isso apenas no próprio site, que já é uma mídia, porque é um espaço limitado.
Empregos.com.br - Por que vocês só abrem o ranking de todas as empresas lembradas pelos gerentes e diretores de RH para os patrocinadores? Não é anti-democrático?
Ícaro Vernizzi - Não. É uma ferramenta de marketing, que eu vendo como atrativo para os patrocinadores. É possível acompanhar o próprio desempenho e o dos concorrentes ao longo dos anos. É um estimulador de raciocínio estratégico.
Empregos.com.br - Você acha que a área de RH está mudando com relação a profissionalismo, estratégia, nova postura dentro da empresa?
Ícaro Vernizzi - Eu tenho pessoas do meu relacionamento que trabalham em empresas de vários portes e ouço o que elas falam de seu RH. É muito chantilly e pouco conteúdo. Empresas que realmente criaram processos inovadores e conseguiram colocá-lo de forma proativa dentro do negócio podem ser contadas nos dedos de uma das mãos.
Empregos.com.br - E por que isso acontece?
Ícaro Vernizzi - Porque RH não é prioridade da alta direção. Toda empresa visa lucro e as pessoas são um meio para que se chegue a ele. É a soma das atuações do Marketing, do Comercial, do Financeiro e das outras áreas. O RH é o meio pelo qual as coisas acontecem, porque integra e administra essas áreas todas. Mas ele só vai ser reconhecido por ser o meio, porque quem traz efetivamente os resultados são as outras áreas.
Empregos.com.br - Não falta aí uma visão de conjunto, uma verdadeira visão de trabalho em equipe?
Ícaro Vernizzi - Sim, claro. Pode ser que isso mude com o conceito de cidadania e valores éticos que invadiu as empresas nos últimos tempos. Talvez haja uma valorização de quem é responsável pelo meio, porque sem o meio não se chega no final. Mas o que acontece hoje é que só se valoriza quem é responsável pelo resultado final. A direção da empresa fica preocupada com a área comercial, com mudanças de legislação, lucro, preços e as mudanças políticas.
Empregos.com.br - Mas ao mesmo tempo o RH estratégico também tem que se preocupar com essas questões comerciais....
Ícaro Vernizzi - Sim, mas em quantas empresas se encontra um RH experiente que desenvolve uma ação estratégica? Se a alta direção não apoiar, não há RH sensacional que faça acontecer. Além disso, as pessoas querem que aconteça mas não se mobilizam. Aliás, é por isso que o nosso País é do jeito que é, é uma questão cultural. As pessoas são travadas. Essa característica permeia as empresas brasileiras. É muito oba-oba, muito prêmio, muita vitrine e pouca consistência.
Empregos.com.br - Qual a importância das entidades da área e o que elas poderiam fazer para amenizar essa situação?
Ícaro Vernizzi - As entidades têm um problema. Os dirigentes não são executivos que estão o tempo todo à frente delas, eles têm seus interesses próprios. Elas deveriam ser pessoas jurídicas com capacidade de gerar receita e pagar uma equipe para efetivamente trabalhar em favor da ampliação dos objetivos da entidade. Não dá para dizer que o presidente de uma determinada entidade está trabalhando mal porque ele precisa realmente priorizar o trabalho dele que dá retorno financeiro. É um conflito irremediável. O modelo em que o presidente tem alguém cuidando da gestão também não dá certo, porque a entidade para ser representativa não pode atuar só na esfera administrativa, do business, ela tem que atuar na esfera política. A ABRH deveria ser consultada pelo Ministério do Trabalho em vários comitês para ajudar o governo a desenvolver políticas de relação sindical, de salário mínimo, etc. É preciso um articulador, que circule por essas esferas e aja politicamente.
Empregos.com.br - A partir dessa participação, os resultados se refletiriam diretamente para os associados, tanto em relação a benefícios como em relação a aprendizado.
Ícaro Vernizzi - Não tenho a menor dúvida. A área da publicidade, por exemplo, tem organismos que realmente são interlocutores do governo e regularizam e normatizam o dia-a-dia do profissional. Eu imagino como é frustrante para um presidente de entidade ficar organizando festa. Tem que ir muito além. O Fórum dos Presidentes, que a ABRH fez no Conarh, é algo que precisa ser feito mensalmente, porque é a oportunidade de trabalhar culturalmente o primeiro escalão, que está desconectado na prática do processo de gestão de Recursos Humanos. Mas isso demanda tempo e articulação.
Empregos.com.br - O que é o RH Gold, produto que está anunciado no site?
Ícaro Vernizzi - É o primeiro censo nacional de profissionais de Recursos Humanos. Desenvolvi esse projeto há 3 anos, já apresentei para a APARH e a ABRH, mas o custo ainda não foi viabilizado. A partir do censo, será criado um banco de dados para um clube de relacionamento, que é o RH Gold. As empresas participantes do sistema, que oferecerem vantagens para nossos associados do clube, poderão fazer uso dos dados. São informações para relacionamento, mas não para promover busca de profissionais por empresas, por exemplo. Isso pode acontecer naturalmente, mas não haverá ferramentas ou facilitação para isso.
Empregos.com.br - E para quando está previsto o lançamento desse produto?
Ícaro Vernizzi - Para o início de 2003 temos como prioridade colocar no ar o programa de televisão, onde a platéia fará perguntas para o entrevistado. O objetivo da Central é criar um leque de opções para o mercado. Temos um guia anual, um jornal mensal, um prêmio, um programa de TV e um produto de Internet. Pretendemos usar essas mídias para outras áreas além da de Recursos Humanos.
Confira os vencedores do 5º Top of Mind - Fornecedores de Recursos Humanos (edição 2002)