José Emídio Teixeira, sócio-diretor da Dialogar e especialista em Relações Sociais e Trabalhistas
por Camila Micheletti

Criada com o objetivo de melhorar as relações de trabalho, aperfeiçoando o relacionamento com os empregados, sindicatos e empresários, a Dialogar é o mais novo empreendimento de José Emídio Teixeira, executivo com mais de 20 anos de experiência em Recursos Humanos. Antes de criar a Dialogar, ele trabalhou na Rhodia, primeiro como gerente de treinamento, em seguida como gerente de desenvolvimento social e finalmente como Gerente de Relações Sociais & Educação. Nestas últimas funções, durante dezesseis anos, Emídio foi responsável pelas relações com sindicatos e empregados. "Não adianta querer sair bem na foto e fazer o bem para a comunidade, e tratar mal seus empregados e os respectivos sindicatos", avalia o consultor. Ele explica que esta foi uma das principais reclamações do Fórum Nacional do Trabalho, série de debates entre empregados, sindicatos e representantes do Governo. "Os trabalhadores recomendaram que o trabalho social começasse pelos funcionários", completa.

A partir de 1986, Emídio criou uma grande rede de relacionamento envolvendo dirigentes, consultores e especialistas pertencentes a sindicatos, universidades e entidades governamentais, todos ligados às relações de trabalho. É negociador trabalhista patronal nos setores químico e têxtil no Estado de São Paulo desde 1986. Trabalhou ainda na Abril Cultural, Ford, SESC, Açominas e Banco Crefisul, desenvolvendo uma sólida carreira em Recursos Humanos. É autor do livro “Gerentes, Vampiros e Ideologia” da Qualitymark (1998) e co-autor dos livros “Manual de Treinamento e Desenvolvimento”, da Makron Books (1994), “Empregabilidade e Educação”, da EDUC/Rhodia (1997) e “Gerenciar no Limite - Lições Corporativas” da Qualitymark (2000). Também é co-autor e membro do conselho editorial do “Manual de Gestão de Pessoas e Equipes” da Editora Gente (2002).

Em entrevista exclusiva para o Empregos.com.br, José Emídio fala sobre os 60 anos da CLT, comemorado no último dia 10 de novembro, faz sua análise sobre a redução da jornada de trabalho e ainda comenta o impacto da informalidade na geração de empregos e na economia. Confira!

Empregos.com.br - O que faz a Dialogar?
José Emídio Teixeira -
Trabalhamos em projetos que melhorem a qualidade das relações entre empresas e empregados. É legítima a busca dos lucros pelas empresas, mas isto não impede que elas mantenham boas relações com seus empregados. E já está comprovado que empregados satisfeitos são mais comprometidos e contribuem para aumentar os resultados. O próximo passo é a evolução da relação entre as partes para a condição de parceria. Isto é, em grande parte, obtido por meio de um vínculo baseado em respeito e confiança. Por mais avançada que seja a parceria, as relações entre os parceiros pressupõem duas faces: conflito e convergência. Trabalhamos justamente para minimizar estes conflitos, seja com um projeto de melhoria de clima organizacional; fazer a negociação com os sindicatos pela empresa e a definição da estratégia de relações trabalhistas. Mas a negociação continua sendo o mais importante mecanismo para a solução de conflitos.

Empregos.com.br - Qual é a sua opinião sobre a flexibilização da CLT?
José Emídio Teixeira -
A CLT acaba de completar 60 anos, está na terceira idade. Acho fundamental que ela tome um "banho de loja", que seja mais acessível aos trabalhadores, como é o Código de Trabalho francês. Hoje em dia você precisa "traduzir" a Lei até para os advogados, isto é um absurdo. Além disso, muitas coisas nela ainda são muito ultrapassadas, como a obrigatoriedade do uso de cartão de ponto. É uma prática antiga, que não é usada em muitas empresas que têm um horário flexível, mas mesmo assim a organização pode ser multada se não usar, por causa da lei. O problema é que a CLT não acompanhou a evolução da economia e hoje atrapalha a dinâmica das organizações em muitos pontos. O Ministério do Trabalho vem trabalhando ativamente para fazer uma grande "faxina" na CLT, vamos aguardar para ver.

Empregos.com.br - A flexibilização pode ajudar na geração de empregos?
José Emídio Teixeira -
É preciso entender que a geração de empregos independe da flexibilização da lei trabalhista, depende sobretudo da economia. Quando você estimula o desenvolvimento econômico, há investimentos e aí surgem novos postos de trabalho. Com a flexibilização, você pode evitar que novos empregos sejam perdidos, através da negociação com a CUT e os sindicatos.

Empregos.com.br - Qual é a reforma mais urgente, na sua opinião? Por quê ?
José Emídio Teixeira - Sem dúvida é a sindical. É preciso começar com ela para que haja um equilíbrio entre as duas partes, porque hoje os sindicatos estão muito enfraquecidos. Os dois - empresas e sindicatos - precisam ter a mesma representatividade, o que não ocorre hoje.

Empregos.com.br - Recentemente, uma pesquisa anunciou que o número de trabalhadores informais já é de 42%, enquanto o de trabalhadores formais é de 43%. Como você analisa esse quadro?
José Emídio Teixeira - Esta questão da informalidade está virando um caso de desobidiência civil, de tão caótica. Temos os profissionais que viraram pessoas jurídicas, aqueles que trabalham como autônomos e ainda os terceirizados. Todos caíram na informalidade pela mesma situação: as empresas precisavam reduzir custos, mas o trabalho continuava lá, então foi preciso criar um novo sistema de trabalho, onde os empregadores pagam menos impostos, o trabalho continua sendo feito e os empregados, mesmo que sem direitos, pelo menos não perdem seus empregos. E não pense que essa situação ocorre só em pequenas e médias empresas não. Conheço empresas multinacionais e até do governo onde a taxa de trabalhadores informais beira os 60%. O grande problema vai ser enfrentado por estes profissionais no futuro, quando chegarem na terceira idade e, se não tiverem um plano de previdência privada, não terão direito a nenhuma renda para a aposentadoria.

Empregos.com.br - Qual é o impacto dessa mudança das relações de trabalho no clima organizacional das empresas?
José Emídio Teixeira - O clima organizacional é um termômetro de como está a empresa, mas deve ser feito periodicamente e não apenas uma vez por ano. Como hoje os trabalhadores atuam de forma muito mais independente do que antes, o cuidado com o time tem que ser muito maior, todos têm que estar motivados, comprometidos e alinhados com a estratégia da empresa. Isso por que com a informalidade a organização passa a ter dois níveis de trabalhador: o profissional CLT, que tem assistência médica, vale-refeição e outros benefícios assegurados por lei, e o profissional autônomo ou que emite nota fiscal, e não tem nenhum desses direitos, mas trabalha tanto quanto ou igual ao trabalhador CLT. Imagine os dois trabalhando na mesma empresa, às vezes no mesmo setor, e um ganha cesta de Natal e o outro não. A expectativa e a avaliação que eles têm da empresa é muito diferente. Nem preciso dizer qual dos dois vai ser mais motivado e comprometido com os resultados, né?

Empregos.com.br - O que as empresas têm feito para minimizar este conflito?
José Emídio Teixeira - Algumas já começam a contratar um gerente de RH só para cuidar dos terceiros, para estar sempre avaliando o clima, cuidar das questões trabalhistas e de segurança do trabalho, que podem diferir um pouco dos profissionais contratados com base na Lei. Hoje em dia, a relação em algumas organizações já é de dois terceirizados para cada profissional CLT.

Empregos.com.br - Você é a favor da redução da jornada de trabalho?
José Emídio Teixeira - Em outros países, a redução de jornada foi criada com o objetivo de gerar empregos e fazer com que os trabalhadores tenham mais tempo livre. Mas, para que as contratações aumentem de fato, é preciso que as horas extras sejam muito caras - caso contrário, acaba saindo mais barato fazer o profissional que já está na empresa fica mais tempo trabalhando. O ideal é que a proposta de redução de jornada seja muito negociada antes de ser aprovada, para não sair caro para as organizações, e não gerar ainda mais desemprego. No Brasil se trabalha demais, principalmente nos escritórios. Chegamos a ficar 12, às vezes 14 horas dentro da empresa, além do trabalho que se leva para casa no fim de semana. Isso é uma nova e anormal característica das relações de trabalho, que eu considero um retrocesso: sinto como se tivéssemos voltado à época da Revolução Industrial. E tenho minhas sinceras dúvidas se é produtivo passar tanto tempo dentro do escritório.

Empregos.com.br - Qual é o papel do RH diante de uma greve?
José Emídio Teixeira - Ele deve trabalhar para que ela não aconteça. A greve deve ser uma situação-limite, não uma coisa corriqueira. Ela decorre de um conflito não resolvido, e uma das funções do RH é justamente criar mecanismos de expressão e negociação deste conflito. Porque um conflito não resolvido tende a virar um confronto, o que pode ser perigoso para a companhia. O RH entra como um canal, a ponte entre a empresa e os funcionários. O grande problema do RH é essa face ruim que ele tem muitas vezes, tem que demitir, tem que administrar a greve, tem que cortar despesas... O gestor de pessoas deve parar um pouco com essa ânsia de cortar custos e começar a fazer mais pelos seus funcionários, implantar novas políticas, cuidar mais do time e, para isso, fazer valer seus argumentos perante a diretoria.

Empregos.com.br - Quais são os seus próximos projetos?
José Emídio Teixeira - Estou preparando um seminário in company que vai mostrar aos gerentes a melhor forma de lidar com a greve e as implicações trabalhistas. Praticamente toda a geração de gerentes treinada nos anos 80 e começo dos 90 não sabe como administrar uma greve, pois nunca enfrentou essa situação na empresa que trabalha. O seminário vai trazer um instrumental de casos práticos, além de conceitos teóricos e exemplos das minhas próprias experiências. A idéia é que o gestor saia preparado para enfrentar os conflitos, seja entre o sindicato e os trabalhadores, o sindicato e a diretoria e até mesmo entre o sindicato, os trabalhadores e a empresa.