
Por Priscila D'Amora
Psicóloga, com especialização em Gestão Empresarial , Maria Julieta Nogueira vivenciou em seus 30 anos de experiência na área de RH uma série de contextos empresariais que a ajudaram a desenvolver o fascínio pelo mundo organizacional e o sistema financeiro. Atualmente, ela encontra na Leroy Merlin um grande desafio e a oportunidade de criar bases sólidas e estrutura para o Recursos Humanos no segmento varejista de Home Center . Acompanhe a entrevista concedida ao Empregos.com.br sobre a trajetória de uma profissional que desenvolveu desde o princípio a visão crítica e integrada da sua área.
Empregos.com.br – Há quanto tempo trabalha em Recursos Humanos ?
Maria Julieta Nogueira - Esse ano eu faço 30 anos no RH. Sou formada em Psicologia pela USP e no último ano de faculdade escolhi trabalhar dentro de uma empresa, por isso eu digo que entrei em Recursos Humanos por escolha e identificação. Na realidade, quando comecei o curso de Psicologia tinha uma vaga idéia sobre as possibilidades de atuação profissional, e para ajudar meu curso foi muito voltado para a clínica. Por essa razão, comecei a me interessar pelos temas mais institucionais no final da minha graduação.
Empregos.com.br – Como você identificou essa possibilidade de trabalhar dentro das instituições?
Julieta - Na época, eu não tinha tanta clareza, mas pensava em algo que me desse uma visão mais ampla e lateral, pois não queria me aprofundar muito em uma única especialidade. Foi por essa razão que busquei esse campo de atuação. Eu sempre fui muito curiosa e trabalhar com a parte clínica da psicologia iria me afastar dessa vontade de desenvolver múltiplos conhecimentos que abasteceriam as minhas curiosidades sobre o mundo institucional e aspectos de administração, por exemplo.
Empregos.com.br – E o que a marcou em sua primeira experiência pós-faculdade?
Julieta – O mais interessante é que já tive a oportunidade de trabalhar com uma visão integrada. Eu era analista de RH, comecei com seleção de pessoal, mas nesse meio tempo já participava de alguns projetos e isso não era muito corriqueiro, principalmente há 30 anos. Contando sobre essa experiência que obtive na Dersa, para você ter idéia, foi na época em que inauguramos a rodovia dos Bandeirantes. Trabalhávamos muito integrados com a operação, com a qual desenvolvíamos uma estratégia de Recursos Humanos atrelada a estratégia de abertura e inauguração da rodovia. Participei do processo seletivo, treinamento e, em seguida, de um planejamento muito minucioso, já que a estrada iria começar a operar em uma determinada data e precisávamos cumprir um cronograma. Então, para que todo esse mecanismo funcionasse, com profissionais treinados e capacitados em tempo hábil, era necessário um grande trabalho feito de maneira integrada. Esse foi o meu primeiro marco, a minha primeira grande escola.
Empregos.com.br – Se você pudesse pontuar algo que foi crucial em sua trajetória profissional, o que seria?
Julieta – Ter bons chefes. Em geral, isso significa chefes que tenham uma boa visão da empresa e uma visão bem integrada, e a isso eu dou o nome de visão sistêmica de Recursos Humanos. Com uma boa referência eu pude aprender bastante, porque estava inserida em ambientes desafiadores por si só, aprendendo na prática como a gestão empresarial e o RH precisam andar juntos. Eu costumo sustentar o fato de que nossa área não progride se não estiver caminhando com a estratégia do negócio. Hoje, essa questão virou um clichê que me incomoda um pouco para ser sincera.
Empregos.com.br – Fale um pouco sobre esse clichê .
Julieta - Para mim, não existe outra forma de atuação para o RH, ele precisa ser estratégico. Pois, se ele não for estratégico, ele não é Recursos Humanos, pode se resumir em apenas um departamento pessoal. Essa questão para mim é uma convicção. É preciso prestar muita atenção, pois às vezes o pedido não vem estratégico, mas a visão desenvolvida do profissional irá identificar e transformar esse pedido em estratégico.
Empregos.com.br – Quais os principais desafios do profissional de RH dentro das corporações?
Julieta – O Recursos Humanos, em qualquer segmento ou empresa, é um grande desafio. A diferença está em entender o negócio, o mercado e as questões de dinâmica e perfil vindas das empresas e seus segmentos. Em relação à postura do profissional de RH, o desafio é a capacidade de entender essas realidades e, portanto, propor e desenhar as melhores estratégias para a empresa.
Empregos.com.br – Quais foram as principais mudanças observadas por você nesses 30 anos de RH?
Julieta – Antigamente, chamávamos a área de Planejamento de Recursos Humanos, no qual havia o planejamento quantitativo, planos de sucessão, de carreira, etc. Hoje, usamos o nome de Desenvolvimento de RH. Mas, independentemente das denominações, as principais mudanças se fazem em relação à consciência de que as empresas precisavam entender os desafios empresariais, no sentido de visualizar onde ela está e para onde quer seguir.
Empregos.com.br - Você acredita que as demais áreas que integram uma empresa enxergam a necessidade do trabalho integrado?
Julieta - Às vezes é mais fácil vender uma solução de marketing, que pode estar diretamente associada ao cliente e rentabilidade da empresa, do que uma solução proposta pelo RH, por exemplo. Ao falarmos nessa integração temos que entender a necessidade de uma modificação no comportamento e cultura internos e isso não ocorre de um dia para o outro. Por essas razões é que se faz importante ter um interlocutor sensível e que acredite nesse trabalho.
Empregos.com.br – Como surgiu seu interesse por mercado financeiro?
Julieta – Assumi uma função mais generalista de RH em áreas de negócio e quem pagava meu salário era a área de negócio e não a de RH institucional. Então, eu participava de todas as reuniões da área independentemente do assunto. Na época se chamava LPO line personal officer, uma espécie de agente de Recursos Humanos para o negócio e hoje chamamos de business partner. Eu já estava trabalhando com sistema financeiro e sempre tive um interesse muito genuíno nessa área, e acho que foi uma boa combinação entre a oportunidade que o mercado começou a mostrar e minha aptidão para o assunto.
Empregos.com.br – Quais as experiências fundamentais que o profissional de RH não pode deixar de ter?
Julieta - Uma área que eu acho excelente para começar é a seleção de pessoal. Ela proporciona uma base muito interessante sobre a empresa, avaliação e contratação de pessoas. Outra área importante, que é mais difícil, é a remuneração, onde você acaba entendendo sobre as exigências da nossa legislação, processos de admissão, desligamento, concessão de férias, etc. Para atuar nessa área é preciso o mínimo de leitura e entendimento de aspectos críticos da empresa que irão regular a vida dos colaboradores. Eu acredito que seja muito importante passar por duas ou três áreas de RH para não perder a dinâmica do negócio.
Empregos.com.br – Como você procura desenvolver seu trabalho na Leroy Merlin?
Julieta - Eu nuca tinha trabalhado no varejo e devo confessar que estou gostando muito, principalmente porque a Leroy é uma empresa que possui uma filosofia empresarial e boas políticas de Recursos Humanos. Aqui não está em discussão mais a importância do RH e sim como trabalhar bem com esse espaço concedido para a área.
Por outro lado, as carências são muito grandes, pois encontramos no varejo alguns impasses em relação à jornada de trabalho, fins de semana, etc. O Brasil ainda não tem as melhores soluções nesse sentido. Mas, mesmo assim, não deixa de ser um grande desafio. Existe também a questão da capacitação e profissionalização desse segmento, no particular no Home Center, já que é tudo muito recente. A Leroy ajudou muito a impulsionar esse contexto. Não tenho dúvidas que estamos em pleno desenvolvimento e isso nos traz muitas oportunidades.
Empregos.com.br – É possível ainda aprender depois de tanto tempo trabalhando nessa área?
Julieta - Eu gosto muito do que eu faço e, mais do que gostar, eu acredito no potencial que tenho para contribuir para área. Apesar de toda complexidade, eu penso que a questão da gestão de Recursos Humanos está cada vez mais forte no Brasil e eu acho que é uma grande oportunidade de crescimento para área e seus profissionais. Em conseqüência desse crescimento, descubro novas maneiras de fazer o meu trabalho, e isso é renovador.
