A empresa sorriso
Psicólogo, diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da Apsen Farmacêutica, há mais de 30 anos atuando no setor de RH e colunista do Empregos.com.br , Floriano Serra fala em entrevista ao site sobre seu novo livro e comenta assuntos que estão na pauta da área de RH
Por Gisèle de Oliveira
Desde 2002 Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br . Nesses quatro anos de parceria, Floriano vem se mostrando – por meio de seus artigos – um dos mais atualizados diretores de RH, sempre antenado às novas tendências de liderança e de como fazer do setor de Recursos Humanos uma parte integrante e importante para o desenvolvimento de qualquer empresa. Fica claro para seus leitores sua preocupação com o capital humano – que muitas companhias declaram ser seu bem maior, mas nem sempre agem dessa forma – e os relacionamentos saudáveis dentro das organizações. Recentemente, Floriano lançou na Bienal do Livro sua mais nova obra, A Empresa Sorriso (Editora Butterfly). Confira na entrevista abaixo um pouco mais da opinião desse experiente profissional e como uma companhia deve ser para se tornar uma empresa sorriso.
Empregos.com.br – Conte um pouco sobre o seu novo livro e como surgiu a idéia de fazê-lo.
Floriano Serra – Meu novo livro A Empresa Sorriso (Editora Butterfly) nasceu da vontade de compartilhar com os demais profissionais minha atual vivência e experiência profissional. Trabalho numa empresa cujo slogan é “onde se trabalha feliz” – e isso é verdade, não é retórica, tanto que, já por dois anos consecutivos (2004 e 2005) ela foi eleita pelos colaboradores como “Uma das 150 Melhores Empresas para Trabalhar” e “Uma das 50 Melhores Empresas para a Mulher Trabalhar”. Este livro contém vários artigos meus publicados por jornais, revistas e sites (inclusive fora do Brasil), todos sobre comportamento no trabalho.
Empregos – O que é uma empresa sorriso?
Floriano – A empresa sorriso é aquela onde o profissional se sente feliz por saber-se útil e importante. O que, em outras palavras, significa: é aquela empresa que respeita seu colaborador como pessoa e reconhece seu valor como profissional. É aquela que o faz acordar com vontade de ir trabalhar e não o leva a lamentar-se porque o domingo acabou e amanhã é segunda-feira. Um exemplo de empresa sorriso, por exemplo, é a Apsen Farmacêutica, onde trabalho.
Empregos – No nosso cenário atual existem muitas companhias preocupadas em ser ou se transformar em uma empresa sorriso?
Floriano – Considerando-se o cenário brasileiro como um todo, a resposta é: infelizmente, ainda não. São muito poucas, ainda, as empresas que verdadeiramente entendem que o lucro nasce da motivação do funcionário – ou seja, do fato de ele sentir-se feliz e orgulhoso na empresa onde trabalha. Lucro é conseqüência.
Empregos – Por onde elas devem começar?
Floriano – Por uma recriação da empresa, principalmente do seu coração. Provavelmente, será até preciso rever sua visão, seus valores e sua missão, para adequá-los ao novo contexto. Não é fácil, mas não é impossível.
Empregos – Quais são os resultados práticos para uma empresa que se preocupa com a qualidade de vida de seus funcionários?
Floriano – Maior produtividade e, conseqüentemente, melhores resultados. Funcionário feliz trabalha mais e melhor – como efeito, não como causa. Outro resultado prático imediato é a visível melhoria do clima, das relações e da saúde dos colaboradores – tanto física como emocional.
Empregos – Para aquelas que não dão muita importância à questão da qualidade de vida de seus funcionários, o que é preciso para fazê-las enxergar o ganho que podem ter com isso?
Floriano – Isso equivale a perguntar: o que é preciso fazer para uma pessoa tornar-se generosa? Uma empresa só muda a partir da mudança dos seus dirigentes e líderes. E essas mudanças vêm de dentro para fora. Elas não são ensinadas nem aprendidas se o líder maior de uma organização não desenvolver dentro de si uma angustiante necessidade de ver todos os seus funcionários felizes e, claro, produtivos. É preciso que nesse empresário haja uma crença sincera e inabalável de que nenhum lucro tem validade se o preço a pagar for a doença e o sofrimento dos colaboradores.
Empregos – Qual é o papel do RH nessa transformação?
Floriano – Todos têm que assumir sua parcela de responsabilidade nessa mudança. O RH é importante nesse processo, mas é apenas um dos muitos agentes de transformação, o porta-voz dos dirigentes. Cabe ao RH estimular a todos para que façam acontecer aquilo que a empresa deseja que aconteça. Ele estimula todos a tirarem sonhos e projetos da gaveta e a colocá-los em prática.
Empregos – Vemos muitas companhias falando de qualidade de vida, que o funcionário é o seu maior bem. Pelo o que você observa, quanto disso é real e quanto não passa de pura retórica para encantar clientes e a sociedade em geral?
Floriano – A julgar pelo que ouço dos muitos profissionais que assistem minhas palestras ou pelo que leio nos inúmeros e-mails que recebo dos leitores de meus livros e artigos, sou levado a crer que, lamentavelmente, a imensa maioria desses discursos no cenário brasileiro (ainda) é retórica. Na prática, a teoria tem sido outra. Mas isso vai mudar, não tenho a menor dúvida. É só uma questão de tempo.
Empregos – Infelizmente, o assédio moral ainda faz parte da rotina de muitos profissionais. Como lidar com esse tipo de tratamento?
Floriano – Reeducando os gestores para que deixem de ser meros chefes e se tornem verdadeiros líderes. Fazendo-os entender que, no trabalho, hoje, o “como” atingir resultados (a que preço?) é tão importante quanto o “quanto” queremos ganhar/produzir. A empresa precisa desestimular explicitamente essas condutas. Na Apsen, por exemplo, temos uma “Constituição” que define claramente a maneira saudável pela qual os colegas devem ser tratados.
Empregos – O que leva uma pessoa a acreditar que o poder que tem dentro da empresa lhe dê o direito de gritar, humilhar e magoar seus funcionários? De onde vem esse tipo de postura?
Floriano – Essa atitude autocrática de alguns gestores existentes no mercado em geral costuma nascer de uma insegurança básica da pessoa, alimentada por uma evidente má formação, seja social, emocional ou acadêmica. Não é difícil encontrarmos nas organizações brasileiras chefes que costumam usar desse “poder” para compensar limitações próprias. Por isso sou de opinião que todo programa de desenvolvimento de liderança deveria começar por um programa de “faxina” interior dos gestores, uma revisão das crenças, valores e paradigmas pessoais. Para isso, costumo usar e recomendar o uso da Análise Transacional.
Empregos – Tem-se falado muito ultimamente de liderança, especialmente a liderança servidora. O que é preciso para transformar chefes em líderes servidores?
Floriano – Mudanças comportamentais não acontecem através da razão, mas da emoção. Se a razão promovesse mudanças comportamentais, ninguém mais dirigiria embriagado, transaria sem camisinha nem fumaria desbragadamente – porque há um monte de informações racionais que alertam para os riscos daquelas condutas. Acredito que tais transformações podem ser obtidas através de programas que restaurem a confiança do indivíduo em si mesmo e no próximo. Que os faça entender que ninguém sozinho é melhor que uma equipe. E que a verdadeira liderança é aquela que une, constrói e alegra. Ou seja, é preciso fazer tudo aquilo que ajude a consertar o que está na resposta anterior.
Empregos – Os profissionais brasileiros estão preparados para esse tipo de liderança?
Floriano – Não se pode generalizar, mas grande parte dos profissionais brasileiros é prejudicada nessa questão por uma ainda deficiente formação cultural. Afinal, o Brasil é conhecido como o País do futebol e do Carnaval, não é mesmo? Em nosso País , a busca pela cultura ainda é muito insipiente. Um grande número de profissionais, em todos os níveis, gosta muito de assistir palestras de gurus, mas muitos deles o fazem mais pela “vitrine” que esses eventos proporcionam, do que movidos por um sincero desejo de obter subsídios para mudanças comportamentais.
Empregos – Pela sua experiência, há mais chefes ou líderes nas organizações brasileiras?
Floriano – Pelas informações que tenho do mercado, diria que nas organizações brasileiras em geral, há muito mais chefes que líderes. Mas é preciso considerar que, por sua cultura, crenças e valores, muitas empresas preferem manter essa situação e investem pouco na transformação deles em líderes.
Empregos – Em seu livro Fim da Diversão , a alemã Judith Mair critica a flexibilização que vem acontecendo nas empresas e diz que essa é mais uma forma de escravização do funcionário, já que ele tem liberdade para tratar assuntos pessoais ao telefone, trocar e-mails com os amigos durante o expediente, estender um pouco o horário de almoço, mas em contrapartida passa 24 horas por dia à disposição dos assuntos profissionais. Como você vê essa posição?
Floriano – Ah, essa dona Judith. Ela é dona da agência de publicidade Mair and Others , de Colônia, Alemanha. Certa vez a imprensa de lá publicou uma matéria sob o título “ Vai ser feliz em casa ”, onde dona Judith enfureceu os profissionais de Recursos Humanos ao colocar por terra todas as teses que defendem que o ambiente de trabalho deve ser prazeroso. Na entrada da agência de dona Judith tem uma placa que diz: “ Aqui não há lugar para quem pensa que trabalho é bom e divertido” . Numa entrevista à revista Der Spiegel, a publicitária condena o espírito de equipe porque “ essa idéia leva os funcionários a pensarem que outra pessoa vai fazer o trabalho deles” . E no livro, entre outras, dá estas “lições” de liderança: “ todos os funcionários são obrigados a desligar o celular durante o expediente e são proibidos de estender por mais de 5 minutos as conversas pessoais durante o expediente” . Pergunto a você: dá pra levar a sério?