Por quem os sinos dobram nas empresas
por Floriano Serra*
Talvez em nenhum outro momento da sua História, a Humanidade precisou tanto de solidariedade e muito pouco de egoísmo. A desenfreada luta pela sobrevivência econômica, social e emocional tem feito muitas pessoas exagerarem na preocupação consigo mesmas e esquecerem de quem está ao lado - seja colega, amigo ou parente.
É claro que, como ensina a Psicologia, precisamos ter auto-estima e amor próprio como base para a felicidade e como condição para termos uma saudável e harmoniosa convivência com as outras pessoas. Mas há um limite alem do qual a auto-supervalorização passa a ser narcisismo ou egoísmo - e então ficamos a um pequeno passo da ultrapassagem e invasão dos direitos alheios.
Alem do mais, ninguém vai muito longe sozinho. Precisamos da convivência comunitária, precisamos de companhias, precisamos de amigos.
Com a proximidade do Natal os sentimentos de generosidade e solidariedade afloram naturalmente nos indivíduos, seja por tradição, convicção, fé, hábito ou influencia da mídia. Pena que em algumas pessoas essa coisa boa dure somente até a passagem de ano. Depois vem o Carnaval e tudo é alegria. Enquanto isso pessoas continuam sofrendo em todas as partes do globo - e, com certeza, bem aí do seu lado, pertinho de você, no local de trabalho.
É impressionante a quantidade de "sofredores anônimos" nas empresas. Colegas que adquirem a fama de "travados", caladão, esquisitos, emburrados...e que, na verdade, estão emitindo um mudo pedido de socorro. Em muitos deles, o silêncio é mais eloqüente que um grito. Só que estes não têm estrutura, condições ou coragem para "abrir o coração" de forma explícita devido ao medo de serem vistos como fracos, problemáticos ou até incompetentes.
"Problemas pessoais devem ficar em casa!"
Ainda há supervisores que acreditam nisso e praticam essa ultrapassada premissa. A estes gestores deveria ser perguntado em que parte do corpo fica o botão que liga e desliga as condições de "´profissional" e de "gente". Suponho que estes procedem assim: ao entrar na empresa, apontam o botão para "P" (de "profissional") e ao chegar em casa colocam o ponteiro no "G", de "gente". É assim que funciona? Ou profissional não é gente?
Claro que empresa não é casa de caridade nem é de se esperar que as reuniões de trabalho se transformem em muro de lamentações ou terapia de grupo. Tenho certeza de que vocês me entendem. Refiro-me á existência de programas e grupos de RH voltados para o apoio pessoal dos colaboradores. E refiro-me também á ação cooperativa, espontânea e freqüente dos colegas entre si, pela prática da empatia, da sensibilidade, da afetividade.
O que acontece em toda a empresa ou no mundo inteiro diz respeito a cada um de nós porque, de alguma forma nos afeta. Metaforicamente, a Teoria do Caos diz que "uma borboleta batendo asas na Amazônia pode provocar um furacão no Texas". Isso pretende reforçar o mundo está conectado e todos seus habitantes interagem, independente das distancias. "Seu vizinho perdeu um emprego de 10 anos numa fábrica em São Bernardo do Campo quando uma empresa sueca começou a produzir aparelhos eletrônicos nas Filipinas" - como exemplificou o ensaísta e professor da FGV-EAESP Thomas Wood Jr., em palestra proferida no Fórum Permanente de Debates sobre a Realidade Brasileira no CIEE.
Se não podemos ajudar diretamente aos milhões de desempregados, famintos, abandonados e carentes do mundo inteiro, podemos fazer a nossa parte dentro do pequeno universo em que vivemos diariamente: a família, o bairro, a comunidade, o local de trabalho. E não adiante pensar nem dizer que "eu não tenho nada com isso" ou "cada um que cuide de si". Este é o infrutífero egoísmo a que nos referimos no inicio deste artigo.
A maioria dos profissionais vive a maior parte do seu tempo no local de trabalho, muito mais do que com sua família. Diante disso, o mínimo que cada um pode fazer é contribuir para que esse local de trabalho, sem prejuízo do profissionalismo, seja gratificante, agradável, harmonioso - e para isso é fundamental a convivência pacifica e produtiva com os colegas, inclusive com as chefias.
Saiba que de alguma forma, o problema do porteiro, da moça que serve o café, do vendedor, do mecânico, do presidente, da secretária, de quem quer que seja numa empresa - tem a ver com você e certamente você poderá fazer alguma coisa para ajudar, desde que queira e que saiba observar e aproveitar as oportunidades.
Que os profissionais procurem lembrar sempre do bater de asas da borboleta na Amazônia. E se isso não bastar, que lembrem também do que disse o poeta americano John Donne: "Nenhum Homem é uma ilha, isolado em si próprio. A morte de qualquer pessoa me diminui porque estou envolvido com a Humanidade. Portanto, nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles também dobram por ti".
No seu local de trabalho, certamente há sinos tocando pertinho de você. Só não os ouve quem não quiser, porque não existem corações surdos.
* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.
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