Afinal, onde estão os vencedores?
por Floriano Serra*

É surpreendente a freqüência com que empresas "gigantes" em alguma coisa, com faturamento medido em bilhões de dólares e executivos tidos como "gênios" em finanças e administração, pródigos em aumentar de maneira fantástica os lucros da organização que dirigem, estão se revelando inconsistentes enquanto entidades e profissionais.

Hoje, uma empresa encerra o dia com mais lucro, suas ações sobem, seus principais executivos vão ter mais uma tranqüila noite de "vencedores" e amanhã....puffff! Tudo estoura como uma bolha de sabão, seja por causa de manipulações e fraudes contábeis, seja por má gestão devido à incompetência ou má fé.

O pior de tudo é que, no final, quem paga o pato são os investidores e os funcionários que são demitidos - em quantidade que pode chegar a 17 mil, como no mais recente caso, o da WorldCom. Sem falar nas conseqüências negativas nas Bolsas e na economia dos paises envolvidos pela "globalização".

E eu, que tanto venho falando e escrevendo sobre ética, transparência, liderança humanista, qualidade de vida, motivação, solidariedade, espiritualidade e felicidade no trabalho...fico pasmo! O que será que os profissionais andam ensinando e aprendendo nos MBAs da vida, nos mestrados e doutorados das mais famosas universidades estrangeiras e tupiniquins?

O que será que os profissionais andam falando e ouvindo em palestras e seminários com tradução simultânea e altíssimas taxas de "investimento" (leia-se "inscrição") ? O que será que andam lendo e pensando esses senhores? Em que eles acreditam? O que eles respeitam? Onde eles querem chegar?

Na minha humilde condição de leigo em economia e negócios - já que minha praia é comportamento - só encontro uma explicação. Dentre tantos novos significados que o mundo corporativo absorveu em nome do progresso e da globalização, um deles - talvez o principal - foi lamentável e totalmente distorcido: o da missão das pessoas e das empresas.

E a partir dessa distorção, até o conceito de felicidade desfigurou-se. Num contexto em que o "sucesso" profissional e o carimbo de "vencedor" são decididos pelos cifrões bancários e demonstrações públicas de opulência material, não se poderia esperar outra coisa senão o gradual desmoronar de valores éticos e morais, enquanto o discurso corporativo continua fala de qualidade de vida, responsabilidade social, diversidade e outros "palavrões".

Ainda que me achem ultrapassado e piegas, dou meu diagnóstico em palavras mais simples e diretas: o dourado, poderoso e arrogante mundo das corporações bilionárias tem impedido a entrada de Deus em suas dependências, em suas reuniões e em suas decisões - principalmente no coração dos seus dirigentes. Não sei se todos os leitores me entendem quando falo em Deus, num artigo que aborda questões de comportamento no trabalho.

Talvez eu consiga explicar melhor isso em mais um livro que estou tentando concluir e que por enquanto estou chamando de "Inteligência Espiritual" Porque a Inteligência Racional (desculpem a redundância) não conseguiu dar paz e felicidade ao Homem. Tampouco a Inteligência Emocional está conseguindo. É aqui que, segundo acredito, entra a Inteligência Espiritual como alternativa final para que o mundo não acabe em mais fraudes, guerras, desigualdades e sofrimentos.

Longe de mim a idéia de transformar organizações com fins lucrativos em templos religiosos - mas sim propor ao Homem a possibilidade de um "lucro espiritual", não contabilizado em números, mas em ações de solidariedade, justiça, respeito e amor ao próximo.

Quero deixar muito claro que felizmente há exceções - e não são poucas. Sem a menor sombra de dúvida, há empresas, dirigentes e profissionais, "ultrapassados e piegas" como eu, que mantêm o "velho" conceito de Felicidade, o "antigo" significado de Vencedor. Estes, nem sempre estão na mídia, sob os holofotes.

Tais organizações e seus profissionais lutam pelo sucesso, ainda que anônimo e discreto - e não pela fama e pelo brilho das capas de livros, revistas e câmaras de televisão. Certamente o ganho destes é bem menor - em faturamento, em vendas, em lucro liquido ou em salário. Mas o sono deles deve ser bem mais tranqüilo e o travesseiro bem mais macio. Porque, para eles, dentro desse conceito "ultrapassado e piegas" de qualidade de vida, há inúmeros fatores subjetivos - como costumam dizer com uma certa ironia os "homens de negócio" - coisas do tipo paz, serenidade, bom humor, alegria, amor, afetividade, fé. Coisinhas bobas, assim. Mas que não ferem, não magoam, não decepcionam pessoas nem abalam a economia de paises vizinhos. São empresas que se constituem em maravilhosas exceções, dirigidas por profissionais que conseguiram a "globalização pessoal", conforme defini em artigo recentemente publicado.

Como tenho repetido à exaustão, os culpados por esses escândalos corporativos não são as empresas - que são meras entidades abstratas - mas as pessoas que detém o poder de decisão dentro delas. Culturas, sociedades e empresas são formadas por pessoas. Se as pessoas evoluem, tudo o mais cresce junto.

Até que isso seja amplamente compreendido, divulgado, defendido e internalizado pelos poderosos - sejam empresas ou homens de negócio - o jeito é, cada um de nós, cada um à sua maneira, curtir a felicidade e pedir a Deus para que ela não seja afetada pelo escândalo que será anunciado amanhã, em todos os idiomas deste mundo inadequadamente globalizado.

* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.


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