Isso não existe! Por Floriano Serra*
Um amigo se queixava para o outro que tinha ligado várias vezes para o trabalho dele, durante a tarde, e não o tinha encontrado.
- Ah, é que eu estava no "Bate-papo com o presidente".
- Como é que é?
- Na minha empresa, a cada 15 dias, vários colegas são convidados para bater um papo com o presidente.
O outro fez uma explícita cara de gozação e sua pergunta não escondia a ironia:
- Ahã... com o presidente, foi isso que você falou?
- Foi.
- E sobre o que vocês conversaram, posso saber? - continuava o amigo irônico.
- Ah, sobre quase tudo. Coisas sérias e abobrinhas. Nesses bate-papos a gente fala da nossa carreira, de futebol, de política, da família, de livros, filmes, do que está bom e do que pode melhorar na empresa e no Brasil... A gente ri muito, se emociona - e até canta e conta piada.
- Ahã... Canta e conta piada... Na presença do presidente... foi isso que você falou?
- Foi. Você precisava ter ouvido a piada que o superintendente contou.
- Como é que é? O superintendente?
- É, ele vem logo depois do presidente.
- Ahã... ele também estava lá e contou uma piada - foi isso que você falou?
- Foi. Mas isso foi um pouco depois que o diretor de RH cantou um sambinha.
- O queeeeee?! Ta me gozando, cara? - agora o amigo já não estava mais irônico: na verdade, estava quase irritado, pois tivera a sensação de que o outro estava se divertindo às suas custas.
- Estou falando sério. Também foi muito divertido na hora em que, de surpresa, alguns colegas entraram fantasiados dos bonecos-personagens do nosso programa de reciclagem. Muito legal! Pareciam aqueles enormes bonecos da Mônica ou da Disney...
Por razões nunca bem explicadas, depois desse diálogo, o outro sumiu e nunca mais telefonou para o trabalho do nosso colega. E quando eventualmente se encontram, falam de tudo, menos da empresa de cada um.
Agora, um esclarecimento ao leitor: o diálogo acima é invenção nossa, mas o que foi descrito nele pelo "colega", aconteceu de verdade e continua acontecendo quinzenalmente nos bate-papos que realizamos com grupos hierarquicamente heterogêneos de colaboradores.
A idéia de contar isso num artigo partiu dos próprios participantes, que se confessam quase entediados de tanto ouvirem " Isso não existe!" quando contam para seus amigos e familiares essa e as inúmeras outras ações nossas de gestão de pessoas.
Certamente não nos move qualquer imodéstia ao divulgar esses fatos. Esse é o jeito de trabalhar da nossa empresa - que vai muito bem, obrigado.
Temos duas intenções com este artigo: primeiro, informar aos incrédulos que essas coisas existem, sim. Que há empresas que acreditam numa atitude de igualdade e fraternidade entre gestores e colaboradores - do presidente ao porteiro. Empresas que acreditam em promover a qualidade de vida e a felicidade - por mais subjetivo que isso possa parecer - entre seus funcionários e familiares.
A segunda intenção deste artigo é provocar uma saudável reflexão nos dirigentes e formadores de opinião, para que acreditem na possibilidade de transformar suas empresas em lugares produtivos, lucrativos - mas, sobretudo, lugares humanos, onde todos possam trabalhar felizes.
A disposição - e necessidade - de se atingir ótimos resultados não é incompatível com políticas solidárias e justas de gestão de pessoas. Da mesma forma, competência e talento não colidem com alegria e afeto. Isso é de uma obviedade assustadora, mas, como disse o escritor francês André Gide, "todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar".
Portanto, voltando ao título deste artigo, isso existe, sim. O que não existe é aquilo conhecido por algumas pessoas como "impossível".
* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica e autor do recém-lançado "A Terceira Inteligência" (Butterfly Editora).
Notícias
Escassez de talentos
Artigos
Dê fim às reuniões improdutivas
Artigos
Quais as vantagens de contratar estagiários?