Temos de voltar a acreditar nas pessoas comuns
Por Carlos Hilsdorf*
Uma das características humanas mais facilmente observáveis consiste na facilidade com que nos deixamos envolver pelos estímulos externos.
Vivemos tão conectados a objetivos externos a nós que trocamos nossos referenciais internos pelos referenciais externos.
Perdemos a condição natural de “ser” pela imposição social do “agir como se fosse”. Observe como as pessoas vivem muito mais “como se fossem felizes” do que sendo felizes, como trabalham “como se fosse em equipe” do que efetivamente movidos por um ideal comum.
Este “viver como se fosse” acaba por cristalizar uma realidade alternativa, ilusória e doentia a qual nos condicionamos como os cães de Pavlov (aqueles que salivavam cada vez que eram expostos a um estímulo que passaram a associar à comida). Com o tempo, vamos perdendo nossa condição de ser natural, expressando nossos valores, nosso estilo, enfim, tudo aquilo que compõe a nossa natureza para passarmos a expressar um modelo extremamente limitado de nós mesmos. Uma cópia ruim, distorcida e feita às pressas do que de fato é a vida e a riqueza das suas relações.
Estamos sendo cada vez mais invadidos por estímulos exteriores, palavras de ordem, slogans vazios e retórica barata. Tudo isto está compondo um quadro de depressão crônica da nossa sociedade. Não é à toa que somos campeões no consumo de antidepressivos. Desaprendemos a viver!
Olhe a sua volta. As pessoas estão tristes e desesperançosas. Mesmo enquanto estávamos ganhando os jogos na Copa do Mundo, estávamos tristes por ver em campo o “futebol de resultados”. Ganhávamos e nossas comemorações eram desbotadas, sem cor. Nunca vi uma Copa de tão pouco entusiasmo – não por acaso ela termina com uma cabeçada que exprime revolta e um retorno às nossas reações mais primitivas. Vimos em campo um conjunto de pessoas (salvo honrosas exceções) buscando sem garra mais uma linha no seu currículo. E agora vamos ver no horário eleitoral, mais uma vez, a busca personalíssima por interesses interesseiros desprovidos do verdadeiro sentido da palavra política em seus aspectos éticos e sociais.
Estamos em período eleitoral, mas no fundo, não esperamos por nenhuma mudança significativa, não estamos agindo sequer “como se fosse mudar alguma coisa”. Até a nossa adaptação no estilo “como se fosse” está frustrada e desiludida. Quando até a ilusão perde o sentido, com a total presença da desesperança, a vida corre realmente grande perigo!
Pesquisas feitas pelo autor da recém terminada novela Belíssima demonstraram, para a sua surpresa, que a população começa a desprezar personagens no estilo bom caráter e socialmente corretos para legitimar os comportamentos dos vilões¸ sejam eles quais forem. Segundo os entrevistados, os vilões estavam fazendo o que tinham mesmo que fazer para atingir seus objetivos. O desonroso exemplo “top-down” de um grupo de corruptos está conseguindo legitimar a corrupção ao ponto de que ela passe a ser aceita como algo “perfeitamente natural” e até, pasme, desejável.
Se são estes os valores da nossa atual “sociedade como se fosse”, atingimos uma fase aguda da doença social e este processo se espalha por famílias e empresas numa contaminação que é tanto mais rápida quanto maior a nossa desesperança.
A quem recorrer?
A religião comprou a mídia e vendeu-se aos interesses materiais. A medicina, sob a égide dos oportunismos jurídicos de que os pacientes lançam mão na crescente indústria das indenizações, tem que se proteger e passa a temer as conseqüências da ação terapêutica.
Os acadêmicos estão ocupados demais com a fogueira das vaidades. Os políticos em redividir o bolo. O mercado em diminuir custos sacrificando a qualidade e mascarando-a com a força dos conceitos (ou você ainda sente o mesmo gosto no seu achocolatado?) associada à passividade do consumidor brasileiro.
O varejo sofre com uma carga tributária abusiva que, com os mecanismos atualizados de controle, frustram a antiga desobediência civil do “dinheiro não contabilizado” – que só é permitido na esfera federal dos amigos daqueles que nunca sabem de nada e sempre foram traídos...
Os sinais do estado gravíssimo de uma sociedade que não consegue nem mais agir “como se fosse” estão aí, escancarados na impunidade, na imprensa mais marketeira que portadora de senso crítico e fontes fidedignas, nas empresas e profissionais ganhando prêmios que não mereceram e muitas vezes compraram na “não mais tão mal vista” troca de favores. Uma sociedade de egos inchados e muito pouca produção de valor real. A sociedade do reality show , das celebridades, dos descompromissados e descomprometidos, dos entrevistadores que não sabem o que perguntar e dos entrevistados que não têm o que responder. E tem gente que reclama que seus filhos não querem mais estudar em plena era do Conhecimento... Conhecimento? Educação? Valores? Onde ficaram perdidos estes conceitos que da sociedade migraram para os gabinetes e deles para o pântano da imoralidade?
Temos que voltar a acreditar nas pessoas comuns, humildes, desconhecidas da mídia, mas que, mantendo-se à parte de toda esta escória, fazem com critério e valor , dignidade e respeito o que a vida lhes convida a fazer com seus dons.
São estes professores que ainda são mestres, estes profissionais de RH que ainda amam as pessoas. Estes homens e mulheres de Marketing que ainda sabem o que é ética, os alunos que estudam, os religiosos que amam ao próximo, embora muitas vezes, não tenham mais uma igreja para freqüentar. São estas pessoas que, apesar de toda aridez e desencanto, continuam a acreditar no quadro e dando a sua pequena, mas poderosa contribuição, somente elas são dignas da nossa admiração e do nosso respeito. Este é o único grupo ao qual vale a pena almejar pertencer. O restante da sociedade vendeu-se a preços baixos e ainda tem coragem de, na sua hipocrisia, condenar os esforços que mesmo idealistas ou utópicos representam ainda o traço da dignidade humana visível neste deserto de humanidade.
* Carlos Hilsdorf é colunista do Empregos.com.br, economista, Conferencista, consultor, Pós-Graduado em Marketing, pesquisador do Comportamento Humano e autor do livro Atitudes Vencedoras