Por que não pode haver arco-íris na Lua?
por Floriano Serra*

No final deste artigo, está lançado um desafio para saber se na sua empresa as pessoas têm permissão para sonhar. Quem topa?

Neste momento, o município de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, está vivendo uma situação muito especial: não mais que de repente, num dos vidros da janela de uma modesta casa, formou-se uma imagem que, na voz e na visão do povo, é de uma Santa. De imediato, milhares de pessoas correram ao local para apreciar o "milagre". Prato cheio para a imprensa. Noite passada, até um conhecido padre foi levado lá por uma emissora de televisão para afirmar categoricamente que aquilo era apenas uma coincidência, produzida pela fusão de ácidos naturais do material de limpeza com os da combustão dos carros. O povo protesta e acusa o padre de não ter fé. O repórter vibra. De repente, a multidão grita apontando para o alto: estavam vendo um arco-íris na lua - e todos se emocionam, rezam e choram. Aí o padre volta para dizer que aquilo era o efeito halo, um fenômeno comum em certas condições atmosféricas. Entendi que a mensagem básica era: "Ok, gente, está tudo explicado. Vão para suas casas e liguem a televisão. Vão ver novela (tem quatro) ou o noticiário policial (tem três). Quem sabe é melhor o "reality show" (tem dois) , ou aquele programa de fofocas (também tem dois) ? Se preferirem, tem aqueles programas de auditório, cheio de bundinhas de fora (tem cinco...) Vão pra casa e deixem de bobagem. Deixem de sonhar. Parem com essa mania de fé".

Não sei se vão me entender, mas eu quero explicar o seguinte: não estou afirmando que a imagem de Ferraz de Vasconcellos se trata de milagre, ou mesmo que exista ali a imagem de uma santa. Tampouco quero garantir que havia um misterioso arco-íris noturno na lua. O fato é que, assistindo a tudo aquilo pela Tv, vendo o esforço desesperado que repórteres, religiosos e cientistas faziam para "provar" ao povo que aquilo era uma coisa absolutamente comum e sem maior significado, apresentando um sem número de "explicações lógicas e científicas", fiquei conversando cá com os meus botões: fala-se tanto que a violência, a guerra, a maldade, a corrupção e outras mazelas da humanidade são frutos da falta de espiritualidade do povo e quando esse povo dá demonstrações de espiritualidade, vejam só o que acontece!

O leitor á capaz de imaginar quantas pessoas, aos milhares, estão assistindo todas as noites a shows de artistas, cantores e modelos, achando-os "deuses" do palco ou da passarela? E nos estádios esportivos: quantos ídolos (essa é a palavra usada) são fanaticamente adorados pela torcida? E a multidão que vai vibrar nos comícios políticos? Concordo que não tem nada de errado com esse público que aplaude delirantemente seus "deuses". Mas o que não entendo é por que que só a fé é ópio, como se costuma dizer com as coisas que trazem alegria ao povo e o fazem esquecer da tristeza - como ocorreu com a conquista do Penta. Num mundo que começa a revelar padres e pediatras pedófilos, cirurgiões plásticos que deformam ou matam suas clientes, crianças e inocentes massacrados em guerras religiosas, ideológicas e políticas, podridão financeira e política em altos escalões, gente morrendo a todo instante de fome e frio, aos milhares, em todo o mundo. - que mal faz - perdoem a ignorância ou ingenuidade da pergunta - que mal faz a pessoas pobres e humildes da periferia acreditar em milagres? Sem matar, sem roubar, sem desviar dinheiro público, sem poluir rios e mares? Isso eu não entendo.

Mas, enfim, vai ser criada uma comissão de investigação para estudar o fato em Ferraz de Vasconcelos e pode até ser que aquele povo tenha que se contentar com alguma explicação científica e fique esperando chegar o Carnaval de 2003 para ter novas alegrias e emoções.

Acho que o leitor deve estar se perguntando: o que é que esses comentários do cotidiano têm a ver com o espírito deste site e desta coluna que é o de abordar questões comportamentais do mundo corporativo?

A resposta é simples: a cultura, crenças e valores de qualquer organização precisam conviver com aqueles da comunidade onde atua. Neste caso, como se pode esperar existir fé e sonhos dentro de uma organização se os membros da comunidade são dissuadidos a não tê-los? Que sentido tem falar-se de espiritualidade no trabalho? Ou até de Criatividade, que é uma competência típica dos que não têm medo de sonhar?

Se vocês querem mesmo saber, eu acredito que a maldade e a corrupção invadiram o coração de muitos homens, inclusive nas empresas, no exato instante em que eles abriram mão da sua porção-criança e se tornaram duros e céticos quanto a sonhos. Aberta essa lacuna, o dinheiro e a sêde de poder se instalaram e passaram a ser os únicos referenciais de sucesso - e deu no que deu, classificado semana passada pelo Alan Greenspan, presidente do Fed, como "ganância infecciosa".

Final da ópera: ficarei torcendo de verdade para que algum dirigente de alguma empresa, logo após ler este artigo, solte uma circular para todos os seus funcionários apenas com esta frase: "nesta empresa as pessoas podem ver arco-íris na lua!".Quem topa o desafio?

Se e quando isto acontecer, qualquer bom observador perceberá que, falsa ou verdadeira, aquela imagem de Santa num dos vidros da janela de uma modesta casa em Ferraz de Vasconcellos, esboçará, para embalar os sonhos de muitos, um leve e discreto sorriso. Para o qual certamente não faltarão explicações lógicas e científicas.

*Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, consultor, palestrante, psicólogo e diretor-presidente do Instituto Paulista de Análise Transacional.


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