O indulto de Natal nas empresas
por Floriano Serra*
Há pessoas que guardam tanta raiva ou ressentimento contra colegas de trabalho, que não querem nem ouvir falar no nome do "inimigo". Essas pessoas exercitam esses sentimentos em vários níveis de aversão: há desde aqueles que apenas torcem o nariz quando o outro se aproxima, até aqueles que alimentam contra ele verdadeiro ódio. Há também as pessoas que "apenas" esquecem ou ignoram a existência do colega - o que, de certa forma, é pior que odiá-lo.
Coloque o caso em si: atualmente, no seu ambiente de trabalho, quantos colegas estão na sua "lista negra"? Quero dizer, quantos são aqueles que você riscou do seu rol de amigos, de parceiros ou mesmo de simples colegas?
Bem, talvez o leitor tenha um bom coração, talvez seja um bom sujeito e responda "nenhum".Que ótimo! Mas pode estar certo de que conheço um monte de bons profissionais que me responderiam: "Aqui na empresa? MUITOS!"
Há colegas que estão irremediavelmente "condenados". Por mais que falemos em espírito de equipe, equipes de alta performance, integração, trabalho em grupo - pode-se perceber em muitos desses casos, que o emocional fala mais alto que o bom senso e assim é rompido o elo da corrente que garante a boa qualidade do clima e o fluxo produtivo do trabalho.
Quando tomo conhecimento destes casos, fico me perguntando: que "crime" ou "pecado" tão grande o outro colega terá cometido para merecer e sofrer essa implacável "condenação" - a de não contar mais com sua amizade ou, no mínimo, a de não ter um parceiro que o ajude nas tarefas e metas? Em conseqüência disso, perde-se energia positiva, produz-se energia negativa, os sorrisos tornam-se escassos, o silêncio substitui o diálogo, os grupos de almoço e cafezinho se tornam duplas - e o clima fica tenso, ressentido, frágil, improdutivo.
Isso não faz sentido para quem investe diariamente cerca de 12 horas da sua vida em função do trabalho. Se não conseguirmos transformar o local de trabalho num ambiente necessariamente agradável e bem humorado, não terá fim a infindável série de somatizações que assolam os profissionais dessas empresas, pondo em risco sua saúde física e mental: ansiedade, enxaqueca, depressão, insônia, gastrites e por ai afora.
Foi pensando nessas coisas que me ocorreu a idéia de propor a todos os profissionais um "indulto de Natal nas empresas". No campo da justiça, a prática do indulto natalino já existe há tempos no Brasil. Este ano mesmo serão indultados os detentos condenados a mais de 6 anos de prisão que tenham cometido o crime quando eram menores de 21 anos, desde que tenham cumprido metade da pena. Também terá direito à liberdade quem cumpriu ininterruptamente 15 anos de pena, os presos por crimes dolosos que não cometeram falta grave nos últimos dois anos e os dos doentes crônicos e terminais. Mas não é sobre isso que quero falar - quis apenas explicar a analogia.
Pensei num indulto de Natal nas empresas como forma de serem recuperadas e retomadas amizades, parcerias e coleguismos interrompidos por algum "crime" - às vezes involuntário, inconsciente ou feito por imaturidade ou competição tola, sem falarmos daqueles que resultaram de meros mal-entendidos.
A vida é feita de encontros e à cada eventual desencontro deveria corresponder um reencontro. A relação humana, além de enriquecedora pela ajuda mútua e pela troca de experiências, proporciona o que de mais gratificante as pessoas podem conceder-se entre si: afetividade, calor humano, apoio à auto-estima e solidariedade. Obter esse benefício não é difícil: basta uma pitada de empatia e outra de respeito às características pessoais de cada um. Conviver com as igualdades é fichinha. A arte do bom relacionamento está em conviver com as diferenças individuais e fazer delas complementação e não motivo de confronto.
Mais uma vez vou ilustrar meu tema com um texto de "autor desconhecido" recebido de um leitor por e-mail.
"Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo esta situação, resolveram se juntar em grupos. Assim, agasalhavam-se e protegiam-se mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que forneciam calor - e por isso tornavam a se afastar uns dos outros. Voltaram a morrer congelados e perceberam que precisavam fazer uma escolha: desapareceriam da face da Terra ou aceitavam os espinhos do semelhante. Com sabedoria, decidiram voltar e ficar juntos. Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. Sobreviveram".
Minha argumentação ao propor o indulto de Natal nas empresas poderia ser simplesmente a da sobrevivência, como na parábola acima. Empregos são preservados quando as metas são atingidas - e isso só se consegue quando a equipe trabalha unida, sem "culpados" e "inocentes".
Mas, idealista que sou, prefiro usar as razões do coração. Não está em risco a preservação da espécie humana; está em risco a sobrevivência afetiva e emocional das pessoas. Somos todos iguais em essência e todos cometemos erros e enganos, mas não devemos permitir que esses equívocos naturalmente humanos ponham a perder o que temos de mais transcendente em nossa espécie: a capacidade de compreender e perdoar o próximo.
O indulto de Natal nas empresas, conforme proponho, não precisa de edital nem de publicação no "Diário Oficial", como aquele outro a que me referi - e que, aliás, já foi até publicado. O meu indulto precisa apenas de alguém que dê o primeiro passo, que tome a iniciativa de estender a mão, que seja o primeiro a ir até a mesa do outro convidá-lo para o almoço - fazendo essa proposta de paz com um largo sorriso no olhar e nos lábios.
A outra escolha que temos é a de deixar que se aproxime de nós uma nova Era Glacial afetiva. Quem optar por esta, vai ficar sabendo o que significa sentir frio no coração.
* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.
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