A síndrome de “en garde”
Às vezes, a boca de uma pessoa tem o poder de uma espada, tanto que, com palavras, consegue produzir feridas e cicatrizes profundas – quase sempre direto no coração do colega.

por Floriano Serra*

- “En garde !” – essa era a expressão usada pelos três mosqueteiros para eticamente avisar ao adversário de que deveria colocar-se em guarda e preparar-se para o combate. Por isso decidi dar o nome de “Síndrome de En Garde” a um desagregador padrão comportamental existente às pencas no mundo corporativo.

Alguns experientes profissionais têm a lamentável tendência de achar que, nas entrelinhas de uma observação ou opinião de um colega (aqui doravante chamado de “interlocutor”), há sempre uma intenção de atacar, de sugerir incompetência ou falhas. E aí eles devolvem aquela bem intencionada manifestação com uma porretada fenomenal, do tipo:

Quem você pensa que é pra achar que pode me ensinar alguma coisa?

Esse tipo de reação é infalível para desagregar equipes de trabalho. Porque dificilmente a reação do interlocutor será aquela de falsa humildade e chantagem emocional: “desculpe, você não me entendeu, eu só estava querendo ajudar...”. Começa então uma coleção de ressentimentos. Na prática, o que costumamos presenciar são duas formas de reação, ambas improdutivas:

1. Forma 1 - o interlocutor responde na mesma moeda. Neste caso, o clima esquenta pra valer - e não é devido a nenhuma manifestação de calor humano... Esse duelo verbal pode chegar à baixaria – e não raro acaba com um dos dois contendores (ou ambos) indo parar na enfermaria da empresa para fazer descer a pressão arterial que foi aos picos. O pior de tudo, nesta hipótese, é que esse padrão de “relacionamento interpessoal” quase sempre tem desdobramentos desagradáveis. Imaginemos que o interlocutor estava certo na observação que fez ao colega e que foi mal interpretada. Ele poderá, então, ir à forra com o constrangedor e humilhante: “eu não disse?” E aí a guerra está definitivamente declarada. Outra possibilidade é o interlocutor curtir seu triunfo maligno e fazer comentários irônicos pelos corredores a fora: “eu bem que avisei... mas ele não quis me ouvir...”.

2. Forma 2 - o interlocutor retruca: “Já não está mais aqui quem falou”. E se manda. Nesta hipótese, o prejuízo da empresa também será enorme porque, dali para frente, muito provavelmente o interlocutor deixará de fazer ao colega suas observações e deixará de dar sugestões, algumas das quais certamente procedentes e corretas.

Há muitas reações inadequadas ocorrendo a cada minuto no mundo corporativo, independente do tamanho da empresa ou da natureza do segmento onde ela atua. Justamente por isso, na mesma proporção há gente estressada, ressentida, planejando revanche ou esperando o circo do outro pegar fogo. O mais curioso é que, quando os dois colegas se encontram em reuniões de trabalho, no fumódromo ou mesmo no almoço, fingem (com um talento de dar gosto) sinergia, integração, harmonia e, pasmem, até amizade.

Pode? Não pode, mas acontece diariamente. É preciso que se diga que isso é uma farsa psicológica e uma tremenda fonte de poluição afetiva. Amizade é como gravidez, virgindade ou a quase extinta verdade: não há meio termo. Ou é ou não é.

Não há nada de errado no fato de vários profissionais terem diferentes estilos de relacionamento. Apenas nenhum deles tem o direito de esquecer que qualquer que seja esse estilo e se é realmente um profissional, ele é um meio para que seja atingido um fim maior, que é o resultado da empresa à que serve.

Aceitando essa premissa, o verdadeiro profissional deve saber adequar-se aos valores, culturas e políticas da organização. Os brigões que vão para o raio que os parta, pois não têm o direito de perturbar o ambiente de trabalho nem de pôr em risco a paz e a motivação da equipe, em nome de vaidades, orgulhos e posturas pessoais. Quem se achar perfeito que mande erigir uma estátua de si próprio e dê um jeito de colocá-la no Olimpo, o lugar dedicado aos deuses. Numa organização que depende da interação dos seus membros para sobreviver, a “Síndrome de En Garde” não tem mais lugar.

Não há verdades absolutas. Nem o maior guru da história da Humanidade – o Cristo – aceitou a provocação para defini-la quando questionado. Como então alguém aqui embaixo pode ter a pretensão de conhecê-la? Se há uma verdade sobre a verdade, é esta: ninguém tem o monopólio dela. Na vida, não há uma interpretação única para os fatos, da mesma forma que não há para os diversos desenhos que as nuvens formam - para quem ainda se lembra que existe um céu e para quem ainda se lembra de contemplá-lo nos dias de sol.

Humildade não faz mal a ninguém, muito pelo contrário. Só os humildes compartilham e só os humildes praticam a empatia - porque só os humildes se preocupam com o bem estar e a auto-estima dos outros. Nenhuma pessoa, nenhum gestor – supervisor ou executivo – perde poder ou status se aprender a dar respostas do tipo:

Interessante o seu ponto de vista. Vou pensar um pouco mais a respeito.

Eu não tinha pensado nisso. Podemos marcar uma reunião para conversarmos mais sobre o assunto?

Os três mosqueteiros, de Dumas, tornaram-se famosos exemplos de integração e espírito de equipe quando imortalizaram a expressão: “um por todos, todos por um !”. Mas eles sabiam quando era necessário usar a espada. O habitante do mundo corporativo nem sempre sabe e então surgem os conflitos. Às vezes, a boca de uma pessoa tem o poder de uma afiada espada, tanto que, com palavras, consegue produzir feridas e cicatrizes profundas – quase sempre direto no coração do colega.

Numa empresa, ninguém é espadachim, nem o ambiente organizacional deve ser palco de duelos. A “Síndrome de En Garde” deve deixar de existir no contexto de trabalho para o bem das pessoas e das empresas. Aquele profissional que continua achando que todos os colegas, quando dão sugestões ou opiniões sobre seu trabalho, estão querendo “jantá-lo” e ele, precipitada e defensivamente, continua decidindo “almoçar” os supostos inimigos, vai ter uma baita indigestão porque vai ter de engolir muita gente.

Figuradamente, claro – pelo amor de Deus!

* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica e autor do recém-lançado "A Terceira Inteligência" (Butterfly Editora).


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