Como é que o “homem” está hoje?
Nos dias de hoje, em que se fala tanto de qualidade de vida e modernos modelos de gestão de pessoas, não é mais admissível que uma legião de dedicados e competentes profissionais tenham sua felicidade e sua auto-estima condicionadas aos bons e maus humores da sua chefia.

por Floriano Serra*

Tem coisas que a gente contando, ninguém acredita. Quero dizer, depende. Quem convive com a situação que vou descrever a seguir, sabe que existe e se desespera com ela.

Você sabia que muitos funcionários – alguns dos quais de alto gabarito – antes de ir despachar com o “chefe”, ligam para a secretária dele e perguntam:

- “Escuta, aqui. Fala pra mim uma coisa: como é que o homem está hoje?”.

Você entendeu? O que o funcionário quer saber é se o chefe dele está ou não com cara de poucos amigos; se o sujeito está ou não “naqueles dias”; se está ou não fazendo a mesa dele de saco-de-pancada, dando aqueles murros homéricos enquanto esbraveja ou se está treinando para barítono, com direito a berros e perdigotos.

O que o funcionário quer saber é se o nosso amigo está azedo, irritado e mal-educado naquele dia – ou se está com o mau humor sob controle.

Você acredita nisso? Pois acredite. Isso acontece todo santo dia, inclusive em muitas das chamadas “grandes empresas”.

Agora, imagine só as conseqüências para as empresas: se o sujeito estiver “enfezado”, o funcionário só irá procurá-lo no dia em que ele estiver melhor. Imagine quantos prazos são perdidos, quantos assuntos são adiados, quantas decisões urgentes deixam de ser tomadas, quantas informações importantes deixam de ser fornecidas ou obtidas. E, de resto, quanta afetividade e alegria são jogadas fora.

Você pensa que o chefe em questão se preocupa com isso? Mas nem um tantinho assim.....Ele não se preocupa porque, usando do seu poder e capricho, depois de meia hora do ataque, ele chama o funcionário, dá-lhe uma palmadinha nas costas e até conta uma piada, como se nada tivesse acontecido.

Como se ele não tivesse ferido profundamente uma das coisas que o ser humano tem de mais valioso: sua auto-estima.

Como se ele não tivesse humilhado e constrangido um chefe de família que, para os filhos, é um herói imbatível e, para a esposa, é um profissional respeitado.

Como se ele não tivesse provocado uma dolorosa reviravolta no estômago e no coração do funcionário, fazendo todo o seu metabolismo se retorcer de raiva, vergonha ou medo, provocando enormes danos à sua saúde física e emocional.

Como se ele não tivesse dado um pontapé de desqualificação naquilo que os bem intencionados chamam de qualidade de vida e de trabalho.

Como se ele não tivesse acabado de destruir aquelas energias que um dia existiram no interior do funcionário, chamadas de motivação, comprometimento e lealdade.

Enfim, como se ele não tivesse feito os Anjos derramarem uma sofrida lágrima de decepção, por verem alguém que teima em não aprender as lições de fraternidade e de igualdade, mesmo num contexto competitivo como o organizacional.

E assim, passada a crise, ele chama o funcionário destroçado e os demais colegas e conta uma piada da qual só ele ri. E, no seu egocentrismo, nem percebe que aquilo que julga serem gargalhadas de cumplicidade da equipe, não passam de grunhidos de raiva e frustração.

Ah, se os banheiros das empresas pudessem contar o que já viram e ouviram de dor física, psicológica e moral. Ah, se os corredores das empresas pudessem contar os desabafos feitos não por fofoca, mas por catarse, por necessidade de manifestar os limites da tolerância profissional e pessoal. Ainda bem que existem os fumódromos, as copas para o cafezinho e o intervalo para as refeições. Não deveriam, mas esses espaços são usados com muita freqüência para sessões confidenciais e informais de “psicoterapia breve”.

Se você quer mesmo saber de uma coisa, leitor, preste atenção e não se surpreenda com o que vou dizer: na verdade, esses chefes sofrem muito. Só que disfarçadamente, em silêncio, mordendo o travesseiro, chorando na escuridão e na solidão.

Porque, no fundo, são seres solitários. Não têm verdadeiros amigos - têm súditos passivos, submissos e, portanto, não confiáveis. Não têm defensores leais - têm aproveitadores que, ao primeiro sinal de fragilidade, fogem, deixando-os entregues à própria sorte. E por que estão nessa situação?

  • Porque não plantam afetos e alegrias, mas medos, tristezas e raivas.
  • Porque não sabem se fazer respeitar, mas temer.
  • Porque não somam nem multiplicam competências – praticam a desqualificação.
  • Porque eles não são tão fortes, inteligentes e seguros quanto querem demonstrar, mas, pelo contrário, têm imensas vulnerabilidades, fraquezas e medos que precisam ser trabalhados.

Para o bem de todos, eu gostaria muito que esses chefes refletissem a respeito desses desagradáveis hábitos e manias de parecer o “sabe-tudo”, o infalível, o mais forte, o perfeito, o todo-poderoso. Eu gostaria muito que eles reconhecessem e assumissem suas limitações e medos e procurassem ajuda profissional ou espiritual, de forma humilde e, sobretudo, sincera.

Por fim, gostaria que esses chefes entendessem que a empresa a que servem é muito maior que os caprichos e hábitos pessoais de qualquer funcionário, independente do cargo. E que se eles, de fato, querem ser úteis à empresa como pessoas e como profissionais, deveriam ater-se a atitudes que sejam mais construtivas, produtivas e agregadoras para a organização. Isso, por extensão, com absoluta certeza, beneficiará a todos os colaboradores.

Porque, em qualquer empresa, há um desejo que todas as pessoas – do faxineiro ao presidente – têm em comum: elas querem ser felizes. E os chefes, pelo poder que lhes é atribuído, são os maiores responsáveis pela alegria ou tristeza dos seus colaboradores, no começo ou no fim de cada dia. Isto é universal. Então, que esse poder seja usado para promover e permitir alegrias, através do reconhecimento, da valorização e do respeito aos colegas.

Neste momento em que grande parte do mundo corporativo se mostra tão sensível à questão da qualidade de vida, eu sinceramente penso que, quem não se sensibilizar com isso, quem fizer um muxoxo e achar que este artigo é um monte de utopias, “ainda está vivendo na época das múmias e das cavernas empresariais” - como costuma dizer sabiamente um grande amigo meu.

A propósito: como é que o seu chefe está hoje?

* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.


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