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Capital espiritual            (14.04.09)           

Por Gustavo G. Boog

Uma nova visão de capitalismo e negócios está ingressando rapidamente na sociedade, deixando cada vez mais evidente que é insustentável o foco imediatista do capitalismo tradicional, em que valem apenas os resultados financeiros e metas de venda do próximo trimestre, bem como as suas hipóteses básicas sobre o ser humano, basicamente motivado por dinheiro e essencialmente egoísta. As atividades de comércio e trocas têm mais de 40.000 anos, ao passo que o capitalismo tem 200 anos. Há algo a aprender com isto? O lado positivo da globalização é que os negócios podem transcender os governos, os políticos e as religiões. A globalização nos faz apreciar melhor outras culturas, dando a chance de construir mais capital espiritual. 
Existem três tipos de capital nas organizações:

- Material: basicamente patrimônio e dinheiro, assegurando os recursos físicos do empreendimento

- Social: indica quão felizes e seguros nos sentimos, levando a uma alta confiança e qualidade de vida

- Espiritual: representado pelo montante de significado, alinhamentos e de servir aos clientes e globalmente aos seres humanos

Se avaliarmos as crises pelas quais estamos passando, podemos resumi-las a uma crise de significado, portanto uma crise espiritual.

Assim como há diferentes tipos de capital, há também três tipos de inteligência:

- Material: muito ligada à visão tradicional do QI – Quociente Intelectual

- Social: ligada ao QE – Quociente Emocional, a habilidade de se adaptar às situações diversas. Tem em Daniel Goleman seu principal disseminador. Sem o QE, você não pode usar bem seu QI.

- Espiritual: é o QS, ligado a nossa necessidade de significado, de propósitos reais e valores mais elevados, que são as questões fundamentais da vida. Quando não temos significado, nós ficamos doentes. O QS integra o QE e o QI, sendo a fundação necessária para o funcionamento eficiente da inteligência intelectual e emocional.

Quais são as qualidades da inteligência espiritual?

1) Auto-consciência: Sei quem sou? O que quero? Pelo que quero morrer? Por que gosto e não gosto? Tenho tempo para refletir sobre isto? É saber que nosso self é maior que nosso ego.

2) Motivação por visão e valores: ir além de nossos interesses e de nossa família. É praticar o idealismo que transforma o mundo.

3) Capacidade de lidar com adversidades: quão bons somos em transformar as dores em aprendizagem? Nos Estados Unidos (e também no Brasil) não se gosta de falhas, de erros, e há o pressuposto de que tudo pode ser consertado, que tudo deve ser rápido e fácil. As adversidades questionam isto.

4) Ser holístico: capacidade de ver a conexão entre fatos, idéias, locais e épocas, é o inverso de colocar cada coisa em um compartimento separado e estanque. É o interessar-se por tudo, num mundo em que a educação é voltada à acumulação de conhecimentos e não às conexões entre as matérias. Isto também é feito no mundo do trabalho, quando se diz: Faça apenas o seu trabalho!

5) Celebração da diversidade: é ir além de uma porcentagem de minorias em nossa empresa e de ter tolerância aos “diferentes”. Celebrar a diversidade é reconhecer que você é diferente de mim, que você tem um histórico familiar e profissional baseado em outros fundamentos, assim como a sua religião é outra, e agradecer a Deus por isto, pois você me faz confrontar e me induz a re-avaliar minhas formas de ser, de pensar e de agir.

6) Acreditar no que faz: é ter a coragem de defender nossos pontos de vista, em qualquer situação.

7) Por que devo fazer isto?: é ter a insistência de uma criança de 4 anos de idade que pergunta “por que?”. Por que não posso fazer diferente? É preciso questionar o sistema, o jeito com que as coisas sempre foram feitas. As perguntas abrem, ao passo que as respostas fecham.

8) Habilidade de conter-se: sempre que vemos o quadro maior devemos equilibrar nossos desejos e aspirações individuais com os do todo.

9) Espontaneidade: é a habilidade de responder com o coração para quem está à nossa frente, sem preconceitos. É também assumir nossa responsabilidade pessoal, não se colocando como vítima ou colocando a culpa nos outros pelo que nos acontece.

10) Compaixão: é o sofrer com, é curar a alegria e dor dos outros, é estender a compaixão a todo o Universo. É o reconhecimento de que nós sempre existimos, desde o Big Bang, que dentro de nosso cérebro e corpo estão o DNA e a história inteira da humanidade.

Quando vemos estas qualidades da inteligência espiritual, podemos perguntar: não são estas as competências essenciais em nossas organizações? 

O papel das empresas é nutrir e abrir espaço para as pessoas usarem as suas inteligências espirituais, possibilitando assim o surgimento do “ser humano”, realizando desta forma os capitais materiais, sociais e espirituais.

Danah encerra dizendo que se ela puder deixar uma única e simples mensagem para nutrir a experiência espiritual, esta é o “fazer perguntas, perguntar sempre o por que?”

*Transcrição de anotações da palestra de Danah Zohar e observações de Gustavo G. Boog
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