Mundo esportivo e corporativo (06.03.07) Recentemente, participei do programa Roda Viva entrevistando o técnico da seleção de vôlei masculino Bernardinho. Várias pessoas assistiram; outras, não, e gostariam de informações a respeito do programa e desta minha experiência.
Inicialmente, me senti feliz por ter sido convidada pelo responsável pelo programa. Sua escolha foi baseada na minha experiência de 20 anos no mundo corporativo, especificamente em Recursos Humanos. Senti-me honrada e reconhecida pelo trabalho que tenho feito. Muitas vezes, trabalhamos como formiguinhas, mas, por outro lado, as pessoas percebem o que está sendo realizado, passamos a contribuir e nos convidam para ser cigarra.
Vou tentar relatar, bem resumidamente, alguns tópicos do debate que valem a pena ser destacados.
Cabe ressaltar que irei resumir as perguntas e respostas. A gravação é comercializada pela da TV Cultura. Trata-se de um programa de aproximadamente uma hora e meia e Bernardinho explicou com detalhes toda a sua trajetória familiar, pessoal, profissional e suas preocupações, em geral, quanto à sua formação de esportista e sua relação com a sociedade. Ele é formado em Economia e, no início da carreira de jogador, ouviu alguns comentários de que ele deveria desistir, que seria melhor seguir a carreira de economista, mas sempre gostou de esporte e decidiu seguir em frente na busca do seu sonho. Considera os princípios e valores pessoais importantes e que devem ser passados pelas famílias e preservados.
Os questionamentos foram assim propostos:
Maria Inês: No mundo corporativo, percebo a dificuldade, cada vez maior, das lideranças, por isso trabalhamos intensamente com elas. Tenho alguns clientes que chegam a expressar: “Quando vou negociar com uma mulher, já sei que vou perder”. Você sente isso também? Como foi, para você, a experiência ao liderar mulheres e homens?
Bernardinho: (um pequeno riso) Realmente, a mulher tem uma forma de agir e pensar diferente, exigindo uma estratégia de liderança diferente. As mulheres expressam mais as emoções, enquanto que o homem não. Elas são mais intuitivas. Elas sentem logo quando uma delas será excluída, enquanto que os homens não. Elas me parecem mais atentas. (Ele mencionou uma situação que havia perdido o jogo e muito bravo foi ao vestiário). Chegando lá, as jogadoras resolveram cada uma se trocar em vestiários distintos. Isso como estratégia para acalmá-lo porque sabiam que a bronca seria grande. Relata diversas sutilezas femininas, comparando-as com as masculinas.
Maria Inês: Em relação ao progresso profissional, as pessoas iniciam a carreira timidamente, humildemente e vão conquistando postos de destaques. Às vezes, iniciam como estagiários e chegam ao cargo de diretor, etc., assim acontece no esporte, conforme você mencionou. Os jogadores começam com muito esforço, com simplicidade, com dificuldades e vão conquistando espaço, notoriedade e se tornam arrogantes. Como você lida com a arrogância no grupo de esportistas?
Bernardinho: Eu não dou espaço para isso e se houver desavença entre os jogadores, elas são resolvidas entre eles, como o ditado ‘roupa suja se lava em casa'. Trata-se de uma equipe que deve vencer. Todos são esportistas com certo destaque e não há espaço para arrogância, portanto, todos são importantes na sua posição.
Maria Inês: Sabemos que no mundo empresarial as pessoas competem entre si. Por mais que possam assistir a palestras motivacionais, por mais que suas palestras reforcem o senso de equipe, de liderança, etc., as pessoas saem alegres por tê-lo conhecido, dizendo que foi legal, que fazem parte de um time de trabalho, que são unidas, etc. Só que, quando entram para trabalhar, a competição começa, um querendo “comer o fígado do outro”. Como você vê esta questão e certamente encontra este procedimento em seu time de esportistas?
Bernardinho: Concordo que a competição existe e que as palestras motivacionais só dão resultados quando o assunto é tratado como uma gestão e não isoladamente. Eu tenho trabalhado muito com meus atletas em relação a esse assunto, porque todos querem destacar-se em uma competição. Mas não é fácil trabalhar este aspecto em função das diferenças individuais, mas trabalho intensamente essa questão.
Maria Inês: Desculpe-me insistir, ou mesmo direcionar ao mundo corporativo, porque é o meu mundo e não sei fazer outra coisa a não ser atuar nas empresas. Neste cenário, existe uma fala de que o poder é solitário, você concorda?
Bernardinho: Concordo, mas costumo cercar-me de muitas pessoas quando irei decidir, são decisões difíceis, mas costumo ouvir as pessoas que estão ao meu redor: são profissionais mais experientes. Aí, sim, decido, mas mesmo assim, sinto o poder como solitário.
Bom, meu caro leitor, tentei sinteticamente relatar parte da entrevista. Acredito que seja o suficiente para percebermos que os ensinamentos unem todas as artes e ciências. Assim como vejo que a arte poderá ser uma ferramenta para o desenvolvimento de competências, o esporte também, formando cidadãos. Claro que teremos resultado quando for tratado tendo como base uma gestão, e não isoladamente. As experiências, os pensamentos, todos se completam, por vezes interdependentemente. Faz-me lembrar um principio básico da criatividade: “Para ela, não existe cinza no cinzeiro e sapato na sapateira; não existe isto ou aquilo e, sim, isto e aquilo; não existe o certo, o melhor, e sim, o diferente do que estamos acostumados”.
*Maria Inês Felippe Maria Inês Felippe é psicóloga, especialista em Administração de Recursos Humanos e Mestre em Desenvolvimento do Potencial Criativo pela Universidade de Educação de Santiago de Compostela, Espanha. Palestrante e consultora em Recursos Humanos, Desenvolvimento Gerencial e de Equipes, Avaliação de Potencial e Competências. Realiza também Treinamentos de Criatividade e Inovação nos Negócios. Palestrante em Congressos Nacionais e Internacionais de Criatividade e Inovação e Comportamento Humano nas empresas. Vice-presidente de Criatividade e Inovação da APARH. Website: www.mariainesfelippe.com.br.
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