Não economize paz nas organizações
por Floriano Serra*
Definitivamente, ainda há muitas coisas que as áreas de Recursos Humanos podem fazer - apesar de alguns "gurus" (argh!) futurólogos preverem sua breve extinção devido à terceirização, downsizing e coisas que tais. Como que para provar a insensatez dessas afirmações, nesses momentos sempre surgem empresas corajosas e criativas para demonstrar que, se é verdade que já passou a era do "DP" ou do "Gerubal Pascoal", também é verdade que o futuro pode acenar com outras missões e com novos papéis para o RH. Minha opinião é de que o RH nunca vai acabar pelo simples fato de que as empresas não poderão sobreviver sem PESSOAS - e cabe ao RH administrá-las.
São as pessoas que dão alma às organizações, em qualquer sentido que se queira ler e interpretar esta frase. Diziam que o computador ou a informática iriam acabar com a necessidade de pessoas no trabalho. Hoje, a informática é um dos segmentos que mais gera empregos, diretos ou indiretos, com crises ou sem crises. Taí o Bill Gates e o Vale do Silício que não me deixam mentir.
Essa introdução vem a propósito da recente iniciativa da entidade paulista AAPSA (Associação dos Administradores de Pessoal), uma das tantas que o Brasil tem, voltada para a integração, intercâmbio e desenvolvimento dos profissionais de Recursos Humanos. Ela acaba de lançar a Campanha voluntária "Não economize paz nas organizações" destinada aos funcionários das empresas em geral. O convite para o lançamento, que ocorreu este mês de setembro, diz: "O ambiente organizacional e a pressão por resultados podem contribuir com a violência no trabalho na forma de dependência química, desequilíbrio entre papéis, desajustes, entre outros. Converse com seus colegas de trabalho e encontre novas possibilidades de melhoria do seu ambiente interno a partir do seu compromisso com a paz."
Sabemos que existem inúmeras ONGs, associações de voluntariado e várias empresas que já patrocinam projetos de ajuda a comunidades carentes. Então, qual é a novidade? A novidade desta Campanha é incluir os funcionários de qualquer empresa num processo voluntário de produzir PAZ, a partir do contexto interno da própria organização. Há muitos movimentos que praticam a responsabilidade social através de ações voltadas para a alimentação, saúde, educação, meio ambiente e projetos profissionalizantes.
Mas é a primeira vez que ouço falar de uma campanha formal conclamando os funcionários das empresas a desempenharem um papel específico em favor da PAZ, inclusive afirmando que a falta de paz começa no clima organizacional, nas relações internas - o que considero absolutamente verdadeiro e que até abordei no artigo "E onde fica a globalização pessoal? " Aliás, na maioria dos meus artigos tenho insistido na necessidade de uma ampla melhoria das relações interpessoais no trabalho, sobretudo entre chefias, pares e colaboradores. Basta dar uma nos meus outros artigos para você identificar aqueles relacionados com a harmonia e o aperfeiçoamento do convívio profissional, que, como sabemos e sentimos na pele, tem fortes repercussões na vida pessoal e na qualidade de vida de cada um. A PAZ começa em casa, ou seja, deve ser inicialmente construída nas células menores para que sirva de alicerce para a grande ponte - já que os muros são separatistas e anti-pacifistas. O todo se compõe de partes e se as partes estão boas o todo também estará, isto me parece óbvio.
Algumas ações para que os profissionais se engajem naquela campanha são simples, como a maioria das coisas da vida: basta que o chefe use seu poder formal para somar e fazer desabrochar talentos - e não para ostentar autoridade e praticar desmandos.
Que os colegas aprendam a compreender, tolerar e respeitar as diferenças individuais e passem a se ver como parceiros de uma mesma equipe, com os mesmos objetivos. Que haja comprometimento geral de verdade, ou seja: que as crises da empresa também sejam as dos funcionários e que as crises dos funcionários também sejam da empresa, numa política de ajuda mútua. Que o respeito pela qualidade de vida e pelos sonhos das pessoas sejam caminhos de duas vias - que vão do presidente ao mensageiro e deste ao acionista. Que as transparências nas ações, decisões e políticas sejam verdadeiras e não só discursivas, acabando de vez com as manipulações e jogos de poder.
Enfim, que cada setor, seção, departamento, divisão, filiais, matriz e conglomerado tenham um só pensamento e um só coração, porque quem passa graxa e aperta parafusos, quem digita, quem limpa, quem vigia, quem atende clientes, quem vende, quem compra, quem faz o Planejamento Estratégico, quem toca o Marketing, quem importa ou exporta, quem administra as Finanças - todos, sem exceção, são seres humanos - pais, filhos, irmãos, avós, netos, maridos, esposas - gente como a gente que só quer ser feliz através de um trabalho que mostre respeito, desenvolvimento, justiça, harmonia e direito pela cidadania. Neste clima, dá para o indivíduo chegar em casa com um sorriso, sentindo e pensando em PAZ. Dá até para acreditar, mesmo que as noticias internacionais pareçam dizer o contrário, que a PAZ é viável.
Alguém tem que acreditar nisso e tem que dar o primeiro passo. Mesmo que, como talvez aconteça com este artigo, seja chamado de utópico ou sonhador. A AAPSA, com sua campanha, mostra que acredita e que deu o primeiro passo. Claro que essa iniciativa não é melhor nem maior que tantas outras positivas campanhas de entidades bem intencionadas. É "apenas" mais uma - diferente, pretensiosa, mas é só mais uma que está se somando aos milhares e às vezes anônimos atos de boa vontade que surgem a todo instante em todas as partes do mundo e que nem podem ser comparados ou medidos. Atos de generosidade não se medem porque têm todos o mesmo tamanho: são todos gigantes. De tão grandes que são, só cabem nos corações - exceto naqueles que estão fechados.
O convite da AAPSA para o lançamento da campanha "NÃO ECONOMIZE PAZ NAS ORGANIZAÇÕES" propõe um questionamento para cada um de nós: "Qual é a minha parte e o que eu posso fazer?" Que tal juntar a "tchurma" hoje para pensar nisso?
* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.
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