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Área de RH descobre o valor dos portadores de deficiência
por Camila Micheletti

Sérgio Faria tem 37 anos e possui um currículo invejável. Fez faculdade de Administração na ESAN, mesma época em que ingressou como estagiário na área de computação da Sadia. Depois fez pós-graduação em Análise de Sistemas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Professor Carlos Pasquale, e Comércio Exterior na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Há quatro anos Sérgio trabalha na Accenture, uma das maiores consultorias do mercado brasileiro e internacional, onde atua como consultor de sistemas e líder de projetos. Faltando um mês para se formar na pós-graduação em Gestão de Projetos da USP, Sérgio seria um profissional cobiçado por muitas empresas, não fosse um pequeno detalhe: Ele é deficiente visual. "Nasci com um problema na retina, como se fosse um câncer ocular, e tive que retirar os dois olhos quando era criança", conta.

Parece que a deficiência o tornou ainda mais forte: "Cada nível que eu alcanço é uma barreira vencida. Digo que o deficiente acaba matando um leão por dia", explica Sérgio, que tem uma carreira de sucesso e uma família feliz.

Casos como o de Sérgio ainda são uma raridade no mercado de trabalho, mas tornam-se mais frequentes a cada instante, graças ao esforço em conjunto realizado por associações e consultorias que trabalham com pessoas portadoras de deficiência. Do lado de quem contrata, a responsabilidade maior fica por conta da área de RH.

Papel do RH

Neste sentido, os profissionais de Recursos Humanos das empresas têm um papel fundamental, já que é por meio deles que os deficientes poderão entrar na empresa e iniciar uma longa caminhada, com o objetivo de provar que podem ser tão competentes quanto os outros profissionais, ainda que encontrem obstáculos relacionados à falta de instalações apropriadas e ao preconceito.

"Eu acredito que muitas pessoas e empresas estão trabalhando em prol dessa igualdade hoje. Ações ligadas à responsabilidade social e empresarial estão fazendo com que o portador de deficiência fique mais à vontade para se mostrar ao mundo, coisa que não acontecia alguns anos atrás", afirma Cláudia Boccalini, gerente de desenvolvimento de RH da Aché Laboratórios Farmacêuticos.

A empresa contrata deficientes desde 1993 e no ano passado iniciou o "Projeto Incluir", que visa sistemizar a inclusão deles na empresa. Cláudia explica que esse projeto tem três fases: a primeira envolve seminários de conscientização para todos os funcionários, onde eles aprendem como tratar as questões referentes ao deficiente de forma natural. A segunda trata das instalações da empresa e de tudo que o portador de deficiência precisa para trabalhar com segurança (rampas, alarmes sonoros e visuais, etc). A terceira e última característica do projeto é incluir cerca de 150 deficientes na empresa em um prazo de três anos. Para Cláudia, o respeito com a pessoa deficiente é fundamental: "sempre digo que é muito importante perguntar se o deficiente precisa mesmo de ajuda. Quando encontrar um deficiente visual tentando atravessar a rua, pergunte se ele quer seu auxílio antes de arrastá-lo. Você estará respeitando os limites dele, que com certeza se sentirá mais confortável e seguro".

Questão legal

Além da responsabilidade social, muitas organizações são obrigadas a contratar pessoas portadoras de deficiência. De acordo com a lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, organizações com 100 ou mais empregados devem preencher de dois a cinco por cento de seus postos por pessoas portadoras de deficiência.

Felizmente, nem todos encaram isso como uma mera obrigação. Um bom exemplo disso é a Avon, indústria de cosméticos que emprega funcionários com deficiência desde 1972. Segundo Sara Behmer, diretora de RH da empresa, a contratação de deficientes sempre foi um processo natural, por isso não foi preciso nenhum programa de conscientização com os funcionários. "As mudanças que realizamos são fruto das limitações dos deficientes. Por exemplo, os deficientes auditivos que trabalham na fábrica usam camisas com manga cor de laranja, para serem identificados por máquinas e carros de grande porte; nas grandes apresentações da empresa, temos uma equipe que faz a linguagem dos sinais e temos também rampas para os deficientes físicos", comenta Sara. Dos 3.800 funcionários da Avon, 280 são portadores de deficiência. "A grande missão do RH é mapear dentro da empresa as oportunidades para o deficiente. Sem dúvida este é um profissional que vai ser sempre agradecido à empresa e muito comprometido com o resultado".

Iniciativas que valem a pena

Sérgio Faria discorda da afirmação de algumas corporações de que é muito difícil adaptar suas instalações à realidade e às limitações dos deficientes. "O deficiente visual, por exemplo, vai precisar de um software especial para usar seu computador. O deficiente auditivo, de alarmes visuais; e o deficiente físico, utilizará rampas para poder se locomover com a cadeira de rodas". Para o consultor da Accenture, isso representa pouco investimento para a empresa e só é preciso que ela esteja disposta a dar essa oportunidade para o deficiente.

Existem algumas consultorias que trabalham no encaminhamento do deficiente às vagas disponíveis. A Suporte Assessoria e Consultoria Empresarial, por exemplo, está há 10 anos no mercado e segundo estimativas da diretora, Açucena Bonanato, já inseriu mais de 1.500 pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho.

Outro trabalho importante nessa área é o da Rede SACI, que atua na divulgação de informações sobre deficiência e visa estimular a inclusão dos portadores na sociedade, bem como a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas. A Rede é uma organização de institutos de pesquisa e conta com o apoio de empresas para sobreviver. Suas principais ferramentas de trabalho são a Internet e os Centros de Informação e Convivência (CICs). Por meio da Internet, a SACI disponibiliza aos seus usuários endereço eletrônico, suporte técnico, softwares adaptados para deficientes, além de bases de dados, listas de discussão, agenda de eventos entre outros serviços. Já os CICs são locais de fácil acesso, abertos a portadores de todos os tipos de deficiência e à população em geral, onde são ministrados cursos gratuitos de capacitação para o uso da Internet. Na opinião de Marta Gil, gerente da Rede SACI, "o deficiente está começando a conquistar o mercado. E o selecionador está começando a se dar conta da eficiência do deficiente na realização de qualquer tipo de atividade".

Segundo estimativa feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com base nos países do Terceiro Mundo, cerca de 10% dos brasileiros - 16 milhões de habitantes - são portadores de algum tipo de deficiência. Acredita-se que esse número possa ser ainda maior, uma vez que o Brasil é um dos campeões em acidentes de trânsito e trabalho e tem índices crescentes de violência urbana.

 

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