(08.03.10)
Relacionamentos e heróis sob o olhar feminino

Uma história de construção conjunta e análise das emoções no trabalho.

Por Juliana Almeida Dutra

Indagado sobre o significado de uma vida feliz, o pai da psicanálise Sigmund Freud respondeu que era uma vida com saúde e trabalho. Qual será o sentido do trabalho na nossa vida? Seria meramente utilitário? De forma alguma. O trabalho tem ligação direta com a identidade e, no caso feminino, esse fator ganhou evidência com a espantosa progressão da participação da mulher no mercado de trabalho, dos anos 70 até hoje.

Estudo da Fundação Carlos Chagas mostra que, em 1970, apenas 18% das mulheres brasileiras trabalhavam; em 2007 mais da metade delas (52,4%) possuíam alguma atividade. Até então, a maternidade causava maior impacto na vida profissional das mulheres: as taxas femininas de atividade a partir da idade de 25 anos, quando, em geral, os filhos eram ainda pequenos, diminuíam.

Essa tendência vem se revertendo desde meados dos anos 80, mostrando que a atividade produtiva fora de casa tornou-se tão importante para as mulheres quanto à maternidade e o cuidado com os filhos. Os efeitos da maternidade no trabalho feminino não desapareceram, mas foram bastante atenuados, uma vez que as taxas de atividade das mulheres com idade entre 25 e 29 anos passaram a se assemelhar - e até superar - àquelas das mulheres entre 20 e 24 anos. Na idade reprodutiva, 30 a 49 anos, o percentual de mulheres em atividade atinge o patamar de 73%, em 2007, como aponta o estudo.

O processo de transição entre a mãe, esposa e dona de casa em mãe, esposa, dona de casa, profissional, gestora do lar e, muitas vezes, chefe de família transformou as mulheres em seres multifuncionais. As habilidades “sentimentais” desenvolvidas ao longo da história no lar e na vida em família, como o cuidado e a atenção com os outros e com os detalhes de seu dia a dia, acabaram por modificar os relacionamentos no local de trabalho, pois as mulheres transportaram para esse novo ambiente seus valores e suas experiências pessoais, realizando conquistas profissionais e contribuindo para o desenvolvimento das organizações.

Hoje em dia, a relação entre valores organizacionais e do individuo é uma das maiores razões do esgotamento profissional. O trabalho, como uma relação social, passa por dimensões física, emocional, mental, relacional e sexual. Na área de serviços, por exemplo, o profissional não precisa apenas gerar e gerir suas emoções, mas também gerir as emoções do outro.

A identidade é o alicerce da saúde mental, ou seja, para ter minha identidade eu preciso do outro. É a identidade que me faz sentir parte do grupo. Ao fazer uso de sua multifuncionalidade em todos os aspectos da vida e afirmar sua identidade, muitas mulheres vêm demonstrando que há uma necessidade urgente de transformação na qualidade do ambiente de trabalho.

Vivemos no tempo da informação ágil e em quantidade, o que muitas vezes torna impossível a absorção de tudo o que presenciamos num único dia, às vezes, numa única hora. E qual será, então, o nível de qualidade oferecida no trabalho para que a qualidade dos resultados seja garantida?

Fatores como dedicação, devoção e o cuidado com o outro, intrínsecos ao universo feminino e desenvolvidos e aperfeiçoados ao longo da história, constroem, ao lado das capacidades profissionais, relacionamentos de cooperação no ambiente de trabalho, o que resulta em mais qualidade. E é a partir dessa cooperação e da preocupação com o bem estar de todos que podemos modificar as relações de trabalho, tirar do mercado informal milhões de profissionais e garantir a mais cidadãos, homens e mulheres, resultados no trabalho, na vida pessoal e na sociedade.

*Juliana Almeida Dutra é diretora da Deep – Desenvolvimento e Envolvimento Estratégico de Pessoas, consultora em Gestão de Talentos e especialista em Marketing e Relacionamento com Clientes. www.deepessoas.com.br
 

Receba informações no seu e-mail sobre RH e o mundo corporativo