Como sair da empresa e manter as portas abertas
por Camila Micheletti
Deixar o emprego - seja por vontade própria ou mesmo por decisão da empresa - é sempre chato e um pouco doloroso. Você deixa amigos, um ambiente que era sua segunda casa, até do café morno você já começa a sentir falta. A questão que fica é: como fazer isso da melhor maneira possível, e ainda manter contato com os colegas que ficaram e seus superiores?
De acordo com Irene Azevedo, gerente de relacionamento da KPMG, o networking com os outros funcionários e com os seus superiores deve começar bem antes da decisão de deixar a organização. "O marketing pessoal é construído a longo prazo e deve começar logo que você entra na empresa, não adianta passar anos sem falar com a pessoa e na hora de sair querer ser seu amigo", alerta ela. Mantendo um relacionamento amigável, você pode colocar seu chefe direto como referência na hora que for fazer uma entrevista, e até ser indicado para oportunidades em outras empresas, no caso de ser demitido.
Neste último caso, normalmente a tristeza e a autocrítica tendem a tomar conta de você. Mas o ideal é não se deixar levar pelo pessimismo, por mais difícil que pareça. É justamente nesta hora que você vai precisar ser forte e estar pronto para recomeçar, mesmo depois do choque de ter sido dispensado, que hoje é prática cada vez mais comum nas empresas, visto a crise e reestruturação do mercado. Irene Azevedo aconselha uma boa forma de enfrentar a tristeza e juntar forças para ir em busca de coisas novas: "Saiba identificar suas competências pessoais e ressaltá-las, faça cursos de atualização e reciclagem profissional e resgate sua auto-estima, porque estando bem consigo mesmo você permite que outras pessoas percebam o seu potencial, e pode surgir até um convite inesperado para um novo trabalho".
Comunicar a saída com antecedência é fundamental
Além do aspecto emocional, outra coisa importante que você deve estar atento ao sair da empresa é sua atitude na hora da saída. Para Edmir Pacheco da Silva, diretor da EDPeople, consultoria de outplacement e recolocação profisssional, ao pedir demissão, deixar a companhia sem mais nem menos não é visto com bons olhos, tanto pelo antigo empregador como pela organização que você irá trabalhar. "Legalmente falando, você deve avisar com pelo menos 30 dias de antecedência, mas hoje em dia é prática comum notificar o seu chefe direto até 15 dias antes", explica Edmir. Será preciso ainda assinar uma carta de demissão, onde você afirma seu desejo de deixar a companhia. Isso evita problemas futuros para a empresa, já que muitos funcionários vêm reclamar uma dispensa na Justiça mais tarde.
Outra questão importante é como a empresa vai receber a notícia, ainda mais se você for um funcionário estratégico para a companhia. Na opinião de Saulo Lerner, diretor da unidade de Key Executives na Right Saad-Felipelli, "você precisa administrar a relação com a companhia com muita maturidade, por que é impossível saber qual vai ser a reação dos seus superiores e da presidência". É interessante também, no momento da conversa final, decidir com a empresa qual vai ser o discurso que será utilizado para o mercado, algo que seja favorável para os dois lados. "Isso evita que você e a empresa dêem justificativas diferentes para sua saída, que depois pode comprometer sua entrada em outra organização", alerta o diretor da Right Saad-Felipelli.
Confira algumas dicas de Saulo para minimizar o choque e estabelecer uma relação saudável a partir de agora:
Além de manter o networking e ter um contato com pessoas influentes do mercado, um relacionamento amigável com a empresa muda a natureza do vínculo entre você e o seu chefe. "Ao invés de empregador X empregado eles passam a ser profissionais de mercado que podem trocar idéias, contatos e até serem amigos, porque não?", pergunta Saulo.
Ao invés de empregado, consultor
José Carlos Terra Monteiro é engenheiro químico com Especialização em Engenharia de Gestão da Qualidade. O profissional é um bom exemplo de como um relacionamento bom na hora da saída pode gerar ótimos resultados mais tarde.
Após seis anos trabalhando como supervisor de qualidade e coordenador do programa de Gestão da Qualidade na Cuno Latina, empresa fabricadora de filtros residenciais e industriais, a empresa passou por uma reestruturação e o cargo de José Carlos foi extinto. Por ter um ótimo relacionamento com a empresa, José Carlos passou a atuar como consultor independente, trabalhando três dias por semana, em tempo integral, mas com disponibilidade e tempo para atender outros clientes também. "Foi a melhor coisa que me aconteceu. Hoje lido com mais três outros clientes, agrego novas experiências, ganho mais e ainda trabalho para a Cuno, empresa que gosto muito. Para mim, a mudança mais significativa em relação ao trabalho na Cuno foi ficar menos dias na semana lá. O resto continua igual, tenho o mesmo tratamento que os outros funcionários e continuo fazendo a mesma coisa", explica José Carlos. E para a empresa, claro, também foi muito vantajoso, já que, além de reduzir custos ela reteve um talento e não teve que se preocupar em contratar e treinar um novo funcionário.