Trabalhar pode e deve ser divertido
Devemos deixar de lado as mensagens que atribuem ao trabalho um certo ar de enfado e sacrifício

Por Rony Locher*

Há algum tempo fui convidado para participar de um programa de entrevistas em um canal fechado. Até aí sem novidades. Mas o problema começou quando o entrevistador me perguntou qual era o meu trabalho. Eu respondi de pronto que “não trabalhava”. Ele se voltou para suas fichas e meio nervoso insistiu dizendo que com certeza tinha visto o meu perfil profissional, onde dizia que eu tinha uma ocupação regular e repetitiva, mais comumente chamada de “trabalho”.

Daí então, eu tive uma grande e única oportunidade de dizer em um bom e suave tom, que eu hoje posso me dar ao luxo de me divertir e não mais trabalhar. Mas seria isso mesmo verdade? Desde os tempos bíblicos existem fortes mensagens que atribuem ao trabalho um certo ar de enfado e sacrifício. Mas aí você pode dizer que essa é a mais pura expressão vista nos rostos dos trabalhadores por esse mundo afora.

Para muita gente a diversão só chega a ser comparada com o trabalho quando você se dedicou feito maluco a uma profissão ou emprego e depois de 35 anos então você começa a se divertir como pode, entre um comprimido e outro de remédio! Ou então, quando você teve uma sorte danada na tal da vida e de repente se viu sem saber o que fazer com o dinheiro todo que conquistou (coisa meio rara hoje em dia)! Algumas perguntas ou então dúvidas devem estar pairando sobre a sua cabeça nesse exato instante. Será que o autor está querendo tirar uma com a minha cara e achar que dá mesmo pra se divertir trabalhando nessa era cercada de cibernética por todos os lados?

Então me responda depressa e sem titubear a essas perguntas? Você tem o seu trabalho focado com a sua vida pessoal? Qual é o verdadeiro valor de dinheiro para você? Suas realizações profissionais lhe fazem acordar mais cedo no dia seguinte? Você vai trabalhar todos os dias disposto a ser demitido?

Mas que grupo de perguntas mais estranhas! O que elas tem a ver com a tal diversão no trabalho? A partir daqui tudo passa a ser uma questão de ponto de vista. Senão vejamos: se o seu sonho de consumo é a compra de um carro novo importado, ao invés de tirar as férias do seu sonho, é porque você faz do seu trabalho exatamente um instrumento de tortura! No meu caso, o trabalho acabou virando diversão. Primeiro porque eu deixei que muita coisa acabasse acontecendo de forma natural e espontânea na minha vida. Comecei como advogado e hoje sou comunicador. Segundo, aprendi que a vida tem mais valor quando não viramos escravos dessa onda consumista perigosa que nos cerca diariamente. Terceiro é porque hoje eu tenho no mínimo cinco atividades profissionais distintas, que no final acabam por pagar as minhas contas e contribuir fortemente para minha qualidade de vida.

Mas essa história toda não vem junto com um livro de receitas bem comportadas não! Que tal você começar a anarquizar um pouco essa sua vida meio certinha, ajustada e socialmente correta e descobrir esse seu lado medieval de ser e refletir sobre a vida? O mínimo que você vai fazer é acordar mais bem disposto amanhã para continuar fazendo as mesmas coisas, porém com novas pitadas de emoção!

*Rony Locher é analista do capital humano e tendências sócio-globais, atua também como palestrante, ancora da Rádio Jovem Pan e comentarista da TV TEM – afiliada da TV Globo.