Qual é o papel do Supervisor ou Gerente?
por João Florêncio Bastos Filho*

A pergunta que não quer calar!

“Todos os líderes que ocupam as funções de gerentes ou supervisores de vendas devem ser tomadores de decisões, bons planejadores, hábeis organizadores na cobertura de seus respectivos territórios e pessoas capazes de obter resultados. Devem ser homens de visão, para vislumbrar oportunidades que incrementem o nosso negócio”.

Esta frase foi extraída do discurso escrito do presidente de uma grande empresa fabricante de cerveja, por ocasião de uma convenção de vendas realizada em 1998 e na qual estavam reunidos representantes de todos os seus distribuidores no Brasil.

O presidente pretendia enfatizar que os distribuidores representavam o papel do fabricante junto aos consumidores de cervejas nos mais distantes recantos do país, e que por esta razão deveriam conhecer profundamente os seus hábitos de consumo. Queria dizer também que os gerentes e supervisores eram pessoas de confiança da empresa porque traziam informações valiosas do mercado, que contribuíam para o plano anual de vendas.

A frase destacada acima - juntamente com as fotos da convenção de vendas - foi publicada no jornal interno da empresa no mês seguinte e provocou uma grande dúvida em um supervisor recém-promovido, que trabalhava em uma das unidades encarregadas de produzir e engarrafar as bebidas. Ele estava com muitas dificuldades de compreender o seu papel de supervisor. Pensava consigo mesmo se ele era um representante da empresa que a representava junto aos seus subordinados ou se era um representante dos seus subordinados e os representava junto aos seus superiores.

Com a experiência de ter conduzido nos últimos quinze anos inúmeras palestras, cursos e workshops para supervisores e gerentes em início de carreira, posso afirmar que aquela dúvida do supervisor da fábrica de cerveja ainda é, nos dias de hoje, uma grande preocupação. Talvez, a grande preocupação.

Kurt Lewin, grande pesquisador do comportamento do homem nos grupos, afirmava que toda vez que um indivíduo - ao representar um determinado papel no grupo – não corresponder às expectativas dos integrantes deste grupo, corre o risco de ser excluído do grupo ou mesmo excluir-se por conta própria. Afirmava ainda que o adulto carrega consigo uma gama enorme de influências dos grupos aos quais já pertenceu ou que ainda pertence (família, escola, clube, igreja, etc.). Estas influências permanecem o tempo todo com ele e podem, por exemplo, emergir durante os relacionamentos no trabalho, gerando dúvidas e ansiedades sobre o papel que representa no ambiente da empresa.

Talvez seja por esta razão que muitos profissionais tenham dificuldade de exercer cargos onde tenham que liderar pessoas, pois o conflito interno é tão grande que afeta diretamente a sua produtividade. Por outro lado, muitos profissionais que conseguem ultrapassar esta fase descobrem as vantagens de exercer cargos de liderança, ao perceberem que multiplicam a sua produtividade enormemente através da contribuição de outras pessoas, fazem com que estas pessoas se sintam felizes e, ao mesmo tempo, conseguem manter a credibilidade junto aos seus superiores.

É muito provável que jamais encontremos uma resposta definitiva para aquela dúvida do supervisor da fábrica de cerveja. Esta resposta depende de inúmeros fatores circunstanciais relacionados com as nossas experiências de vida e oportunidades que encontramos a cada dia no mercado de trabalho.

* João Florêncio Bastos Filho é Consultor em Gestão de Carreiras e Educação Continuada filiado ao IBCO – Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização e professor de Gestão Estratégica de Carreiras do curso de pós-graduação em Recursos Humanos da UNIMEP – Universidade metodista de Piracicaba.