Entrevista - Walter Lourenção
maestro e criador da Sinfonia Empresarial

Como começou sua história com a música?
Minha ligação com a música vem desde quando era criança, em Jundiaí (SP). Meu avô costumava sempre me levar para ver a banda no coreto da praça e meus tios viviam dando festas cheias daquelas músicas modernas. Comecei estudando piano e com isso fui conhecendo pessoas da área, mas posso dizer que sou quase um autodidata, pois cursos mesmo, só fiz fora da área de música. Sou formado em filosofia pela USP e fiz vários outros cursos de especialização na área, mas sempre relacionei a música com tudo em minha vida!

De onde e como surgiu a idéia de montar a "Sinfonia Empresarial"?
Há mais ou menos 12 anos fui convidado para reger uma orquestra em um congresso de Recursos Humanos fazendo uma relação do funcionamento do grupo de músicos com o de uma empresa. Como já tinha alguma experiência na área de administração - trabalhei algum tempo administrando cursos e festivais -a oportunidade de juntar as duas coisas foi e é muito gratificante. Mas essa não foi a primeira experiência do gênero, já tinha ouvido falar que o maestro Zubin Metta montou uma filmagem ilustrando a linha de montagem de uma fábrica ao som do Bolero de Ravel.

Sua trajetória acadêmica influenciou em seu trabalho de hoje?
Com certeza! O estudo da lógica, que faz parte da filosofia, ajuda a criar disciplina - o que é muito importante para a música e qualquer outra profissão!

Como são montadas as apresentações?
Costumamos montar as apresentações de acordo com o que a empresa quer e com os assuntos que são tratados pelos outros palestrantes. A orquestra pode abrir ou fechar o evento, exemplificando de modo mais sensorial e emocional tudo o que foi ou será mostrado aos participantes. Falamos sobre liderança, trabalho em equipe, envolvimento, motivação....traçando paralelos de modo que a platéia interaja com os músicos.

Os participantes têm um retorno mais rápido do treinamento?
Diferente das palestras teóricas, onde as informações entram por um ouvido e saem pelo outro, com esse trabalho vinculado à música, as pessoas conseguem colocar essas teorias na prática do dia-a-dia. Ao contrário das palestras comuns, fica mais fácil lembrar das coisas associando ao trabalho da orquestra.

Traçando um paralelo entre a orquestra e uma empresa, quais são as semelhanças?
A visão de liderança tem mudado muito nas empresas, que hoje trabalham com equipes menores e mais especializadas, trocando as "ordens" por uma maior delegação de tarefas e inter-relações humanas. Os chefes hoje não tem mais o poder de decidir a vida e a morte de alguma coisa e de enxergar o funcionário como mão-de-obra. A orquestra também trabalha assim - se a equipe não estiver integrada o som não é o mesmo, o feedback deve ser simultâneo e o treinamento, constante.

Acredita que se os ensinamentos da música estivessem mais presentes na vida dos brasileiros os modelos de gestão seriam diferentes?
Sem dúvida! Na prática da música as pessoas se concentram em pequenos detalhes por um longo período de tempo. Há também o desenvolvimento do sistema nervoso, do autocontrole, de atos reflexos, melhora no tempo de reação diante de imprevistos....as coisas que se aprendem com a música podem ser usadas sempre, em qualquer área ou profissão.

Tem algum novo projeto do gênero a caminho?
Estou desenvolvendo, junto com José Antonio Nogueira (responsável pelo Sinfonia Empresarial), um programa de música em hospitais - para pacientes e funcionários - e com isso pretendemos humanizar e enriquecer mais o ambiente. Lógico que o número de músicos será bem reduzido mas ainda estamos em fase de estudos!