Boa redação é fundamental também para quem está no topo
por Camila Micheletti

"O fato de você ler e escrever com freqüência faz com que você se comunique melhor e tenha mais facilidade ao conversar, dirigir uma reunião e fazer uma apresentação. Você aumenta seu vocabulário e aprende a estruturar as palavras e, conseqüentemente, as idéias, de forma concisa e organizada". A afirmação é de Reinaldo Polito, especialista em comunicação e expressão verbal e autor de vários livros e artigos sobre o assunto.

Mas o fato é que muitos executivos esquecem-se de tudo o que aprenderam quando, ao longo do dia, precisam escrever um simples e corriqueiro e-mail para um cliente, fornecedor ou mesmo uma mensagem pessoal. Quantas vezes você revisa seus e-mails antes de enviar? Já pensou na quantidade de pequenos erros gramaticais, como regras de concordância, acentuação, regência e tantos outros já se disseminaram pela Internet afora, juntamente com a sua assinatura?

Pois é, apesar da agilidade que a web exige, é preciso escrever corretamente, e mais do que isso, com leveza e graça. Nada pior do que uma mensagem repleta de palavras e intervenções desnecessárias, que só servem para "rebuscar" o texto e confundir o leitor. "Um simples erro pode demonstrar fragilidade, inadimissível no mundo empresarial de hoje, cada vez mais competitivo", assegura o professor Reinaldo Polito.

Problema surge nos bancos escolares

Como tudo isso começou? Na opinião de Eduardo Martins, autor do Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo e gerente do Centro de Documentação e Informação do jornal, a necessidade de enviar e-mails é apenas a ponta visível do iceberg. Ele explica que a exigência de que os executivos escrevam melhor decorre de outros fatores, como a queda da qualidade do ensino e a não exigência de leitura pelos professores. "Não há escapatória: ninguém escreve bem se não tiver lido bem. Com a extrema diversificação das atividades das empresas, cresceu muito número de relatórios e exposições que os funcionários eram obrigados a fazer. Nesse momento ficou claro que muitos deles não tinham condições de atender a essa necessidade empresarial", afirma.

Na década de 90, segundo Eduardo, o problema se acentuou com a difusão do conceito da reengenharia e, como conseqüência, do aumento do controle de qualidade nas empresas. "O texto dos executivos e dos relatórios das empresas nunca poderiam, claro, ser dissociados do seu conceito de qualidade", comenta Martins.

Mas ele considera que a grande deficiência dos executivos hoje resulta da falta de leitura ou da má leitura. "Não adianta, em termos de aprendizado do idioma, você ter lido uma infinidade de livros técnicos ou traduzidos: eles, muitas vezes, transmitem apenas uma visão muito específica, distorcida ou deficiente da língua. Forma-se uma caixa de ressonância, que favorece a disseminação de aleijões lingüísticos como "alavancar", "disponibilizar", "oportunização", "elencar", "cooperativado", "tecnologizado" e dezenas de outros. Com toda a certeza, qualquer uma das palavras causaria urticária em escritores como Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos e Lygia Fagundes Telles, para citar apenas três deles", explica Eduardo.

Esta é uma questão até um pouco óbvia, já que uma pessoa que chega a uma posição de destaque na profissão (como gerente ou diretor) teria que saber se comunicar muito bem, tanto na fala como na escrita, mas muitas vezes não é isso que acontece. O fato não é recente, mas a procura por cursos de redação para executivos tornou-se mais acentuada em decorrência do uso de e-mail, que tirou um pouco da tarefa da secretária (que antigamente redigia as cartas, muitas vezes o executivo só assinava) e fez com que o profissional se tornasse mais autosuficiente na redação das mensagens.

"Alguns anos atrás, o executivo não tinha a obrigação de saber escrever, e muitas vezes era só o presidente da empresa que podia se pronunciar. Agora isso mudou, tanto falar quanto escrever bem é premissa básica para qualquer profissional. Demonstra firmeza, responsabilidade e compostura por parte do executivo", afirma Polito.

Cursos de redação são cada vez mais requisitados

Altamente populares nos EUA, os novos cursos rápidos de redação que começam a surgir em São Paulo baseiam-se principalmente em exercícios práticos e modelos de referência gramatical, que podem ser adaptados às situações mais comuns no dia-a-dia das empresas.

"A intenção do curso é capacitar os executivos a dominar, de forma elegante, fundamentos básicos da redação, como a objetividade e o encadeamento das idéias, e oferecer instrumentos para que o participante possa evoluir sozinho nessa atividade", afirma o instrutor Roberto Amado, diretor da Canopus Consultoria de Comunicação, que ministra o curso "Redação de e-mail de negócio e projetos".

Amado, que é escritor e jornalista, garante que pelo menos 80% dos executivos treinados desta forma conseguem melhorar visivelmente sua qualidade de comunicação escrita e adquirir um diferencial profissional muito importante no mercado. "Há casos, porém, em que se deve indicar um treinamento mais longo e personalizado", completa ele.

O curso está dividido em dois módulos, cada um com duração de 12 horas, sendo que o segundo é opcional. Pode ser ministrado individualmente - na sede da empresa, com no máximo dez participantes - ou para grupos, na alternativa "in company". O preço de cada módulo é de R$ 390,00 para alunos individuais e de R$ 1.930,00 (pacote fechado) no caso de aulas "in company".

O curso traz para o participante os dez fundamentos da técnica escrita, mostra como ler e como pensar corretamente e ainda como usar a formalidade e informalidade em cartas e e-mails. "Aponto os problemas principais que afetam a redação por e-mail, e como controlar a seu favor a comunicação escrita", esclarece Roberto. De acordo com o jornalista, o curso aborda três tópicos fundamentais:

  • Ética: como se portar no e-mail
  • Estética: evitar a tentação do processador de texto, que seria a edição do texto com novas tipologias e recursos multimídia, que nem todos os programas de e-mail suportam
  • Comunicação: dicas de como ser objetivo e prático na mensagem

Confira, neste exemplo prático de e-mail obtido com a Canopus, como a substituição de algumas palavras e expressões fazem uma enorme diferença no conjunto da mensagem:

Prezado Fornecedor:

Estivemos juntos trabalhando nos últimos meses e dias onde os benefícios foram enormes. Nosso relacionamento de confiança permitiu que a gente estabelecesse uma dinâmica de trabalho muito eficiente. Infelizmente vamos ter que mudar. A diretoria está obrigando todos os departamentos a fazer cotações com pelo menos três empresas em todos os serviços solicitados a fornecedores. Antes disso todos precisam ser cadastrados pelo departamento de compras. Entre em contato com Sr. José para fazer seu cadastramento no telefone 3676-0000.

Vânia Silveira
Assistente do diretor da área de comunicação

Comentários:

Prezado Fornecedor: o "Prezado" é excessivamente formal, dado o conteúdo informal do e-mail. O mesmo ocorre com a palavra "Fornecedor".

Estivemos juntos trabalhando nos últimos meses e dias onde os benefícios foram enormes. Nosso relacionamento de confiança permitiu que a gente estabelecesse uma dinâmica de trabalho muito eficiente: O autor está sendo muito pouco objetivo. Parece que ele quer se desculpar, mas está se alongando desnecessariamente. O período é desconexo e contem erros, como por exemplo, a mau uso da palavra "onde".

Assistente do diretor da área de comunicação: É muito título para pouca função. Basta dizer a área. É importante colocar o telefone de contato e o nome da empresa.

O resto do texto é digressivo e têm ruídos que prejudicam a comunicação.

Sugestão da Canopus:

Caro Colega:
A diretoria decidiu que, a partir de hoje, os serviços terceirizados devem ser cotados pelo departamento de compras, sempre com três orçamentos. A maneira com que vínhamos trabalhando será, portanto, alterada. Gostaria que vocês participassem desse novo sistema, cadastrando sua empresa no departamento de compras pelo telefone 3676-0000.

Abraços

Vânia Silveira
Comunicação
Tel: 11- 3676-1111
Empresa X

Fazer um curso de redação não deve ser visto como incapacidade ou ignorância pelos executivos, pelo contrário. "O fato mostra que eles admitem ter uma deficiência na manifestação por escrito do pensamento e cuidam de aperfeiçoar o seu conhecimento da língua", conclui Eduardo Martins.