Demissão é alívio para muitos executivos
Foi esta a triste realidade demonstrada na última pesquisa da consultoria Lens & Minarelli, realizada recentemente nas principais capitais brasileiras

por Camila Micheletti

"O alívio é resultado da condição de trabalho insalubre, quando há um desgaste muito grande no relacionamento e a situação chega no limite do insuportável, causando grande sofrimento físico e mental". A afirmação é de Mariá Giulese, diretora-executiva da consultoria Lens & Minarelli, e corresponde à atual realidade de muitos gerentes, diretores e presidentes de empresas. A pesquisa constatou que o sentimento de alívio por ter sido mandado embora saltou de 24,4% em 2002 para 34,1% em 2003, enquanto que a sensação de choque e revolta caiu de 56,6% em 2002 para 46,8% em 2003.

Os 400 profissionais pesquisados não tinham outro trabalho em vista, o que demonstra ainda mais a seriedade deste dado: eles preferiram ser demitidos a continuar na empresa, mesmo perdendo o salário e todo o leque de benefícios que possuíam (que nestes casos não é pequeno). Apesar disso, cresceu o nível de conscientização dos profissionais quanto às condições de trabalho. 38% esperavam ser demitidos, número que na última pesquisa foi de 23,1%.

O tempo médio para as pessoas se recolocarem no mercado também aumentou. Em 2003 era de 6 meses e meio, este ano o profissional está levando cerca de 8 meses para conseguir um novo emprego. O menor tempo foi obtido em 1997: apenas 3 meses.

Para a diretora, uma das causas da insatisfação no trabalho é a perda de poder, ocasionada pela redução de custos, que fez com que muitas multinacionais eliminassem alguns cargos e níveis hierárquicos. "Antes havia um diretor para cada país onde a empresa estava instalada, hoje há apenas um diretor, que responde por toda a região da América Latina e se reporta diretamente à matriz". Além disso, há a juniorização das posições executivas, tendência que vem se confirmando e consiste em eliminar os profissionais de nível hierárquico e salário mais altos. Esta é, segundo Mariá, a única saída que muitas organizações têm encontrado para atender as exigências do comando e reduzir os custos.

A decisão pode até reduzir os custos, mas não é a melhor opção para ninguém. Nem para os executivos demitidos, que têm dificuldade em encontrar uma nova posição; nem para os gerentes promovidos, que têm de arcar com uma alta pressão dos superiores e muitas vezes não estão preparados para isso. Se os profissionais se mostram despreparados, a empresa também sofre as conseqüências, seja com a perda de capital intelectual, inteligência, clientes, conhecimento...

A opção que resta para os executivos dispensados é passar a trabalhar por projeto, de forma independente. "Trabalho tem bastante. O que muda é a forma de contratação, de relacionamento com a empresa", garante a diretora.

Outro ponto crítico apontado pela pesquisa foi a ausência de feedback. Os argumentos para a demissão continuam sendo os mesmos de sempre: 'vamos reestruturar a empresa'; 'precisamos de um profissional com outro perfil', 'precisamos reduzir os custos', entre outros. Mas, para os executivos, as razões são outras: jogos políticos, diferenças de relacionamento, questões que são levadas para o lado pessoal. "Eles não entendem porque recebem ótimas notas na avaliação de desempenho e, de repente, recebem a notícia de que serão dispensados. Muitos acreditam que isso acontece com as mudanças no comando da empresa. Se muda o chefe e ele acha que não estou alinhado com a sua política, acham melhor demitir", explica.

Se por acaso você precisar demitir alguém, não o faça de cabeça quente. A dica de Mariá Giulese é: tenha políticas claras de demissão. Além disso, é fundamental saber:

  • Use a demissão como último recurso
  • Antes de dar a notícia, prepare o ambiente e a pessoa que vai ser dispensada, dê orientações sobre o que ela pode fazer e ofereça toda a ajuda necessária na recolocação
  • Evite que o rofissional sofra constrangimentos e passepelo famoso "corredor polonês" ao sair da sala do chefe
  • Comunique a demissão à equipe com clareza e transparência

"Mesmo no nível executivo, é comum o funcionário chegar na empresa e ter seu crachá barrado e não ter acesso ao computador. Assim, sem uma razão aparente, ele é demitido e passa a ser um estranho para a empresa, de um dia para o outro. Isso é muito ruim para a organização, pois todos os outros colaboradores que ficaram passam a achar que o mesmo pode acontecer com eles, e a empresa deixa de passar a confiança de antes", conclui a diretora.