Líder é peça fundamental na retenção dos talentos
por Camila Micheletti
Atire a primeira pedra quem nunca teve problemas de relacionamento com o chefe. Pode ser por deficiência de comportamento sua ou dele, ou as duas juntas. Em ambos os casos, o desgaste é inevitável, o que muitas vezes acaba ocasionando discussões e até demissões. A jornalista Bartira Betini Nunes passou por uma experiência interessante alguns anos atrás. Sua chefe direta era uma pessoa extremamente difícil de lidar, cortava as oportunidades que a equipe tinha de se desenvolver e crescer dentro da empresa e, além de tudo, era muito histérica, estava sempre gritando. "Ela achava que tudo que a equipe fazia estava sempre errado, o que nos impedia de trabalhar para melhorar. Eu acho que, na cabeça dela, pressionando as pessoas ela ia fazer as coisas acontecerem. No fim das contas, toda a equipe ficava desmotivada e ninguém conseguia trabalhar direito". Hoje em dia, Bartira vive uma situação completamente oposta, já que sua chefe atual é, segundo ela, "quase uma mãe". "Diferente da minha ex-chefe, a atual sabe trabalhar em equipe, valoriza as nossas qualidades e aponta onde precisamos melhorar", afirma ela.
A relação chefe-subordinado é mais importante do que pensa. De acordo com uma pesquisa divulgada recentemente pela Gallup Organization, que resultou no livro "First, Break All the Rules: What the Greatest Managers do Differently" - (Primeiro, Quebre Todas as Regras: O que os Maiores Gerentes do Mundo Fazem Diferente -
ainda sem tradução no Brasil), o chefe é o grande responsável pela permanência - ou não - dos seus funcionários na empresa.
Após 25 anos e 80.000 entrevistas, os autores Marcus
Buckingham e Curt Coffman desvendam uma série de mitos sobre a administração e derrubam velhos conceitos. Segundo eles, a variável individual mais importante na produtividade e lealdade dos funcionários não é salário ou gratificações, benefícios ou a atmosfera no ambiente de trabalho. O que conta, segundo a Gallup Organization, é a qualidade do relacionamento entre os funcionários e seus supervisores imediatos. Mais importante na produtividade e lealdade dos funcionários é a qualidade do relacionamento entre os funcionários e seus supervisores imediatos. As pessoas querem dos supervisores aquilo que as crianças querem de seus pais: alguém que defina expectativas claras e consistentes.
É importante esclarecer que todos podem ser chefes, basta chegar à posição, mas nem todos chefes são, necessariamente, líderes. O diretor de RH da Serasa, Milton Luís Pereira, afirma que "todo chefe deveria procurar ser líder. O líder, na verdade, independe do cargo de chefia. O líder tem seguidores, influencia, dissemina valores, desenvolve visão, ensina, porque tem conhecimentos que lhe conferem poder".
É para instigar e formar novas lideranças desde o início que o Laboratório Campana tem um programa de coaching com os estagiários, admitidos a partir do segundo ano da faculdade. Arnaldo S. Marinho, coordenador de Recursos Humanos do laboratório, explica que a empresa escolhe alguns "padrinhos" e "madrinhas", mentores que serão responsáveis por três jovens cada, com o objetivo de acompanhar de perto o seu trabalho e desenvolvimento. "No meio dos três, sempre tem um que se destaca. É nesse talento que vamos investir", explica Arnaldo S. Marinho, coordenador de Recursos Humanos. Como os jovens não têm experiência, Arnaldo comenta que se sobressai aquele que demonstra otimismo, motivação, iniciativa e comprometimento. "Com uma pessoa motivada, que se mostra interessada, fica muito mais fácil trabalhar", assegura ele.
E o padrinho ou madrinha não fica responsável apenas pelo trabalho do estagiário na empresa, mas também pelo seu crescimento na faculdade e até na carreira. "Funciona como uma troca, eles trazem novidades e coisas que aprendem no curso e podem ser implementadas aqui, e nós ajudamos com conselhos e orientações", comenta o coordenador. O estagiário passa por um período de treinamento que vai de 15 a 30 dias e depois tem um ou dois dias de integração com os outros profissionais. Dos 500 funcionários, Arnaldo diz que 40 são ex-estagiários que foram efetivados e 108 são estagiários.
De acordo com Rita Lima, coordenadora de administração e pessoal da Pró Recursos Humanos, as empresas devem tomar muito cuidado ao escolherem seus líderes, gerentes e diretores, já que é a partir deles que os outros funcionários vão direcionar seu trabalho. "Se você vê um funcionário motivado, pode ter certeza que por trás dele há um chefe que o estimula e desenvolve suas competências". Rita explica que, além da boa liderança, a pesquisa de clima organizacional pode ser uma ótima ferramenta para avaliar e entender seus funcionários. "É preciso entender que o chefe administra com as pessoas e não para as pessoas".