Fórum Mundial de Alta Performance reúne especialistas no Brasil
Único palestrante brasileiro no evento, o técnico Bernardinho, da seleção brasileira de vôlei, falou ao Empregos.com.br sobre equipes de alto desempenho
por Juliana Ricci
A HSM, companhia internacional especializada em formação executiva, realizará em abril o “Fórum Mundial de Alta Performance – Como desenvolver estratégias poderosas e obter resultados através de pessoas”, em São Paulo. O objetivo é reunir os maiores especialistas em gestão de recursos e de pessoas para mostrar aos executivos brasileiros os caminhos para vencer nos negócios com alto desempenho.
Peter Senge, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e considerado um dos maiores gurus da administração do mundo abrirá o evento no dia 12 falando sobre “Liderança em Alta Performance”; Richard Whiteley, autor do best-seller “The Costumer Driven Company” apresentará o tema “Pessoas e Clientes em Alta Performance”. No dia 13, Edward de Bono, autor de 67 livros e reconhecido atualmente como a maior autoridade internacional no Pensamento Criativo, ministrará a palestra “Criatividade e Inovação em Alta Performance”; o brasileiro Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho do vôlei, falará sobre “Talento em Alta Performance” e Hyrum Smith, guru da Gestão do Desempenho Humano, encerrará o Fórum abordando o tema “Execução em Alta Performance”.
Em 2004 aconteceu a primeira edição do evento, que contou com cerca de 1.200 participantes em cada um dos 2 dias. Carlos Alberto Julio, presidente da HSM, diz que a decisão de organizar novamente um fórum sobre esse tema deve-se ao fato de que sempre é possível pensar sobre o mesmo assunto, porém de formas diferentes. “Alta performance é o tipo de assunto que precisamos reciclar sempre. Tem muita gente pesquisando e encontrando formas novas de resolver velhos problemas, e é isso que queremos aprender. Além disso, algumas velhas soluções precisam ser resgatadas”.
Habituado a oferecer ao público executivo eventos com a participação de gurus mundiais, como a Expomanagement, que acontece em São Paulo anualmente, Julio diz que o mundo executivo está constantemente carente de informação, já que somada ao conhecimento, ela é um poderoso instrumento de competitividade mercadológica. “Nós buscamos trazer o que há de melhor, o que o executivo precisa ouvir, e para isso monitoramos os estudos nas universidades e nos institutos, além de ouvir nosso cliente. Nosso trabalho é garimpar a melhor fonte”.
Um dos critérios usados pela HSM para saber se além de bom profissional o convidado é um bom palestrante é descobrir se a palestra oferece aos participantes a oportunidade de fazer uma profunda reflexão e também uma receita de bolo. “Os alunos mais analíticos aproveitam a primeira opção e os pragmáticos aproveitam a segunda. Gestão é isso, não há modelo único, mas sim as experiências do que deu certo e deu errado para mim e para os outros. Se você partir do princípio de que todo mundo já sabe alguma coisa, como vai formar novos profissionais?”, questiona o presidente da HSM.
O técnico de vôlei Bernardinho, que inúmeras vezes levou as seleções masculina e feminina ao podium em competições internacionais, é o único palestrante brasileiro presente no Fórum Mundial de Alta Performance. “Além de colocar um componente nacional, o objetivo de ouvir o Bernardinho é saber por que mesmo com as mudanças nas equipes, a vitória permanece. Ao mesmo tempo, nem sempre uma equipe talentosa leva o primeiro lugar. Então, qual é o segredo? É isso que queremos ouvir dele”, conta Carlos Alberto Julio. O Empregos.com.br já ouviu. Para conhecer os segredos do técnico vencedor, confira esta entrevista exclusiva:
Empregos.com.br – Segundo Carlos Alberto Julio, presidente da HSM, a idéia de convidar você para o Fórum era saber por que sua equipe muda sempre mas mesmo assim a vitória permanece. Qual é o segredo?
Bernardinho - As peças geralmente são trocadas por necessidades técnicas ou físicas, e também pela busca da evolução. Mesmo assim, o corpo de talentos é voltado para a equipe, independente dos anseios individuais. O objetivo coletivo é que leva à evolução do grupo.
O talento individual vale muito, mas desde que esteja inserido na equipe. Por isso, a partir do momento que temos esse espírito, mesmo com algumas mudanças conseguimos vencer pelo coletivo.
Empregos.com.br – Quais são os componentes necessários para formar uma equipe vitoriosa?
Bernardinho - Talento, treinamento, empenho, dedicação, obstinação e o comprometimento coletivo. Temos que ganhar campeonatos, não só partidas. O trabalho de longo prazo depende disso, por isso esses itens devem ser uma constante. Precisamos de paixão, de intensidade máxima naquilo que fazemos.
Empregos.com.br – Como fazer com que a equipe esteja sempre disciplinada e motivada para vencer?
Bernardinho - Pessoas que não têm a capacidade de se motivar e superar sempre geralmente não conseguem se manter em ambientes de alta performance. É algo próprio de cada um, mas nós líderes podemos ajudar, dando condições para isso e propondo desafios. É preciso conhecer as pessoas para saber que instrumentos usar para motivá-las. Durante o processo ganha-perde, é preciso que o atleta ou o profissional do mundo corporativo continue motivado e firme depois de uma vitória, para não acomodar, e também que saiba lidar com a pressão constante das exigências, que só aumentam. Um ponto positivo das últimas Olimpíadas é que conseguimos ganhar sendo apontados como favorito, porque assim conseguimos evitar a acomodação. Mesmo perdendo alguma partida, precisávamos manter o foco naquilo que esperavam de nós, que era o primeiro lugar.
Empregos.com.br - As competências para a alta performance podem ser desenvolvidas ou já é preciso ter uma base?
Bernardinho – É muito bom que a pessoa tenha algum tipo de vocação nata sim, mas uma série de outras características, como a liderança, importante para atletas de ponta e empresários, pode ser desenvolvida. Não adianta ter muito talento e não ter determinação, por exemplo. Cabe aos gestores descobrir isso e ajudar seus liderados a desenvolver. O Cafu, da seleção brasileira, passou por 12 peneiras no início da carreira e foi barrado em todas. Poderia ter desistido, mas por sorte não o fez. Ele é o mais talentoso? Não, mas é o mais eficiente e persistente. Acredito que aqueles que os testaram buscavam nele o que ele não tinha, e não enxergaram o resto. A melhor equipe não é a soma dos melhores talentos mas a soma dos talentos que se complementam da melhor forma possível. Assim, na hora de selecionar pessoas, é preciso ter atenção para enxergar aquilo que elas têm de melhor, e não aquilo que gostaríamos que elas tivessem.
Empregos.com.br - Como você percebe o talento no atleta? Como faz a seleção daqueles que têm futuro e daqueles em quem não vale a pena investir?
Bernardinho – Por meio da observação, ao vê-los em ação. Além disso, avalio o comportamento, a postura, o equilíbrio emocional e o histórico, ou currículo, como dizem no ambiente corporativo. As estatísticas também são fundamentais: muitas vezes somos iludidos por uma performance magnífica, mas o rendimento efetivo não a acompanha, ou então em outras situações o profissional cometeu erros que podem atrapalhar toda a estratégia. Nós fazemos o contraponto entre erro e acerto. Queremos índice de eficiência máximo.
Empregos.com.br - Você sugere que os profissionais de Recursos Humanos usem esses critérios para selecionar talentos?
Bernardinho - Eu tenho a vantagem de poder observar durante o processo de evolução, e talvez trocar o componente da equipe, já as empresas não podem esperar para contratar depois de observar muito. Mesmo assim eu me considero um profissional de RH hoje, já que tenho a tarefa de juntar talentos que rendam o máximo. Eu trabalho com pessoas, eu me preparo para a tomada de decisão exatamente com base em processos seletivos, e na hora de cortar eu também preciso considerar qual a melhor formação da equipe, e não apenas o talento individual.
Empregos.com.br - Como o líder deve agir quando se forma uma lacuna entre os resultados esperados e os que a equipe consegue?
Bernardinho - A primeira coisa é avaliar o próprio desempenho, porque líderes têm que ser auto-críticos, mais do que com as outras pessoas. Eles devem se perguntar “até que ponto eu fui capaz de prepará-los?” O bom líder aprende com as derrotas, entende onde está a falha, inclusive porque essa é a única chance de não sucumbir à frustração e ter fôlego para tentar de forma diferente. Superação é ter a humildade de aprender com o passado e investir no futuro. O que me mantém vivo é a possibilidade de tentar novamente no dia seguinte. Por isso os líderes estão sempre observando e aprendendo com os outros. Isso é melhor ainda, porque ajuda a evitar o erro. Buscar exemplos de sucesso é fundamental também, além de promover a capacitação constante.
Empregos.com.br - Por que no mundo corporativo parece mais difícil fazer tudo isso funcionar?
Bernardinho - As pessoas com real capacidade fazem as coisas funcionar muito bem, certamente há grandes lideranças no mundo empresarial, mas a diferença está no “day by day” da minha atividade. Numa empresa não dá para ter contato constante com os funcionários, trocar coisas o tempo todo, porque há muito volume de trabalho e o número de pessoas é grande. Às vezes o contato de grandes empresários com as pessoas é esporádico, por isso pelo menos o grupo de líderes tem que ser multiplicador e disseminar a idéia. Eu não acredito em equipes que têm um só líder, é preciso ter pessoas que assumam o bastão em algumas situações. Quanto mais líderes a empresa tiver, mais pessoas com essa capacidade, é melhor. Temos no Brasil grandes empresários, só que eles não aparecem tanto como os grandes atletas. A diferença está apenas no nível de visibilidade.
Empregos.com.br - Você tem gurus ou exemplos inspiradores? Quem são eles?
Bernardinho - Eu estou sempre lendo e observando pessoas do esporte, empresários e também pessoas de outras áreas. Pessoas de sucesso. Eu olho para a Gerdau, por exemplo, e penso na capacidade dos líderes, na técnica, e fundamentalmente nos valores e princípios que eles inspiram nos colaboradores. Eles contaminam as pessoas. Eu tenho livros e tive contatos com pessoas que aprendi a admirar. São profissionais que têm como preocupação principal as pessoas, afinal não há empresa que não se envolva com o crescimento das pessoas e consiga atingir a inteligência nos negócios. Michael Jordan, por exemplo, é alguém que soube associar o talento com o ideal de busca da excelência.
Empregos.com.br - Você se considera um líder?
Bernardinho - Eu estou um líder. Tenho conseguido inspirar as pessoas e atingir resultados, mas se eu perder alguns atributos, não renovar minha capacidade, meu porto não é perpétuo. Eu sou alguém que peca pelo excesso e não espero que sejam como eu, pelo contrário, minha equipe técnica é multidisciplinar, são talentos complementares, assim como a equipe de jogadores.
Empregos.com.br - Qual foi o momento mais difícil para você exercer sua liderança? Por que?
Bernardinho – Um momento bastante difícil foi o que passei com a seleção feminina em Atlanta, quando perdemos para Cuba na semi-final e menos de 48h depois fomos disputar o bronze. Elas estavam arrasadas e a estratégia que usei foi dar treinamento dobrado, para tirar o foco da derrota e fazer com que pensassem só no próximo jogo. Quando uma atleta me disse “ai, estou cansada e não vou conseguir jogar amanhã” eu percebi que estava funcionando, porque ela já tava pensando no dia seguinte. A melhor maneira de superar a derrota de ontem é pensar na vitória de amanhã.
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