Ouro Moderno

por Waldez Luiz Ludwig*

Um robô na indústria em média substitui quatro empregos, se paga em menos de um ano, não engravida, não tem data-base nem sindicato e, quando adoece, o patrão tem a opção de eliminá-lo. Ignorantes que são de métodos contraceptivos, crescem, multiplicam-se e evoluem em velocidade nunca imaginada sequer pelos neodarwinistas. Recenseados recentemente, a população mundial somou mais de 600 mil objetos inteligentes.

Assistimos hoje a um "êxodo profissional" sem precedentes, causado por alterações qualitativas mais que quantitativas no perfil do trabalho e do emprego. Um "êxodo industrial" provocado por uma veloz e radical transformação econômica: a transição para a economia digital. Em síntese, uma revolução marcada pela preponderância da informação como bem econômico, do conhecimento como recurso competitivo, globalização, inovação, senso de urgência, imediatismo, convergência tecnológica e interconectividade.

Na ânsia desesperada de sobreviver à tempestade, muitos "administradores de denominador", públicos e privados, protegem-se inutilmente sob mesas de vidro, enxugando, cortando, diminuindo e assim agravando os efeitos sociais de uma revolução. Não precisamos mais de mão-de-obra nem de administradores jurássicos. Precisamos de homens-e-mulheres-inteiros-de-obra, incluindo administradores da inteligência e criatividade. Conhecimento, o ouro moderno, só
é garipado no terreno fértil do cérebro humano e o desafio do momento não está
na requalificação profissional de nossos ex-escravos e sim na preparação cognitiva de nosso povo.

Há menos de cem anos, nossos pais ou avós assitiram ao êxodo rural. Sofreram os efeitos da incipiente mecanização do campo, que foi reduzindo drasticamente a necessidade do trabalho humano. Um agricultor, então, produzia para alimentar quatro pessoas e hoje produz para 78. Nos Estados Unidos, um dos maiores produtores de alimento do mundo, menos de quatro por cento da população trabalha no campo e, no Brasil dos canaviais, uma colheitadeira moderna substitui até cem bóias-frias que passam assim a se chamar sem-bóia, nem fria.

Meu avô, enfim, não teve tantos problemas. Expulso do campo ainda menino, de operário da terra passou a ser operário do couro. Mãos hábeis, trabalhador obstinado, saúde de ferro e alguma dose de subserviência eram requisitos comuns tanto para o dono da enxada como para o dono da emergente industrialização gaúcha. Não lhe foi exigida então grande transformação cognitiva e, como aprendera na roça, tinha consciência de que não estava sendo pago para pensar, mas para fazer o que o patrão pensava. Requalificou-se profissionalmente para cumprir a rotina, especializou-se em uma única tarefa e torceu para envelhecer e
se aposentar.

Realizou-se como gente em outro trabalho: tirador de chope nas festas do Divino, em que sua inteligência e inventividade sempre foram muito bem remuneradas, em tulipas de cerveja, é claro. Naquele momento o trabalhador saiu do campo para a indústria, inchou as cidades e sobreviveu, com saudades e nostalgia do futuro
que lá teria.

E se meu avô estivesse vivo hoje? Ora, aconteceria a ele o que está acontecendo a milhões que sequer tiveram o prazer de desfrutar dos netos, tão jovens que ainda são. Seria expulso da indústria, comércio ou serviços, por falências, "reengenharia" ou "downsizing". Para que serviriam suas mãos calejadas e sua índole obediente. Para que serviria seu hábito de só pensar depois do expediente? Fugiria da roça industrial das cidades, para onde? São milhões, sem destino profissional, no Brasil e no mundo.

Políticas para enfrentar o êxodo industrial só terão resultados se questionarmos o modelo em sua essência. A melhor resposta não virá da pergunta: como aumentar o nível de emprego? O desafio é muito maior. A questão é: por que falta emprego
se há tanto trabalho para ser feito? Por que as empresas não encontram funcionários que estão procurando? Por que as pessoas não encontram o
trabalho que desejam?

* Waldez Luiz Ludwig é sócio da Vl.3 Aprendizagem, psicólogo, analista de sistemas consultor e palestrante em Gestão Organizacional