A infidelidade ao alcance de todos

por Winston Pegler*

A infidelidade é um fenômeno que já se alastrou nas corporações brasileiras, em especial na área de tecnologia e informática. Em média, o tempo de vida de um executivo de primeira grandeza nas empresas é de apenas três anos, raramente ultrapassando quatro anos. Já com dois anos de casa o espírito da mudança começa a ganhar corpo, obrigando os controladores a criarem pacotes de retenção para, se for o caso, prolongar o passe do profissional bem sucedido. Mas, ao contrário do que se pensa, a infidelidade pode ser benéfica para os negócios!

Ser infiel aqui, é preciso que se diga, não significa traição, mas o desapego do profissional a cargos, tamanho ou mesmo ao status conferido pela empresa. A fidelidade é quase zero ao "nome" da organização e quase total com a promessa acertada na contratação e ao plano de trabalho. Mais importante agora é o desafio de fazer parte de algo maior, que pode ser atingir o "resultado compromissado". Ou ainda, nos casos mais críticos, ajudar na "virada" da empresa, seja rumo à liderança de mercado, no desenvolvimento de um novo produto, na sua expansão econômica ou geográfica ou na salvadora recuperação financeira.

É claro que um pacote de vantagens incluindo salários atraentes, benefícios e vantagens adicionais como participação nos lucros e recebimento de ações (stock-option, etc) pesam na decisão dos profissionais mais talentosos. O mais importante, todavia, é a missão confiada ao executivo. Novos desafios como desenvolvimento de produtos ou de mercados podem dar sobrevida ao profissional na organização. Assim como o motivo mais óbvio, qual seja, o cumprimento de todas as promessas acertadas na contratação, regra valiosa nem sempre seguida a risca pelos controladores e sempre um fator que leva ao rompimento.

Ser fiel a si mesmo, principalmente com a sua qualidade de vida, e, em segundo lugar, ao compromisso assumido com a empresa é a filosofia que embala estes profissionais apelidados no mercado como filhos da abertura econômica e da globalização do Brasil, formados em sua maioria na década de oitenta.

Nem é preciso dizer que as empresas devem estar preparadas para conviver com esta nova situação criada pela rápida abertura da economia brasileira e pela instalação de uma concorrência selvagem. Aquelas organizações mais sábias podem, até mesmo, tirar proveito deste fenômeno da alta rotatividade. Como assim? Optando pelos interim managers, os superexecutivos que trabalham por projetos, "arrumando a casa" sem vínculo empregatício. Dessa maneira, é possível gastar menos com salários e mesmo assim aproveitar os conhecimentos desses profissionais experientes.

Ah, uma dica: tenha equipes fortes, competentes, capazes de manter o trabalho realizado pelo interim manager. Caso contrário, ter a casa em ordem, com tudo funcionando bem, será apenas um estado passageiro.

* Winston Pegler é presidente da Ray&Berndtson, empresa internacional especializada na seleção e contratação de executivos de primeira linha.