Ética empresarial: uma contradição em termos?
por Peter Nadas*

Todas as vezes em que, ao conversar com amigos, menciono a expressão ética empresarial, os sorrisos irônicos aparecem imediatamente nos lábios: Será que existe isso? - perguntam-me eles. Existe aí uma contradição, acrescentam geralmente. O mundo da empresa é voltado para os lucros, o que vale é o resultado final, tudo se justifica em função deste fim. Logo, onde o fim justifica os meios, não se pode falar em ética.

Os oligopólios, os acordos de preços secretos, as concorrências públicas fajutas, a corrupção ativa e passiva, os conflitos de interesse, a propaganda enganosa, a inobservância das leis, a poluição, a sonegação...... as Enron, as Parmalat da vida....tudo isso me leva a uma pergunta: onde está a ética?

Pobre amigo, tira o cavalinho da chuva! Ética e empresa simplesmente não podem conviver!, respondem meus amigos. E eu chego a perguntar aos meus botões: será que este cinismo, este conformismo diante de uma situação tão inquietante não será procedente? Será que meus amigos têm razão?

Acho que essas atitudes decorrem de um erro de perspectiva. Todos esses meus amigos, que de uma forma ou de outra estão ligados a alguma empresa, condenam amargamente aquelas situações de falta de ética, mas as atribuem à empresa, que assim eles usam como uma espécie de biombo moral. Na minha casa, na minha família, eu não admito essas faltas com a moralidade. A minha vida pessoal é um lago sereno e transparente. Mas na empresa, você sabe como é...

Na moderna vida urbana deste começo de milênio, todos nós pertencemos, ao mesmo tempo, a um grande número de comunidades, de ambientes. Em casa, vestimos o chapéu do pai ou da mãe de família. No trabalho, o do empregado, o do executivo ou o do patrão. No clube, o boné de atleta. Na igreja, somos os piedosos fiéis. No ônibus, no metrô, o passageiro sisudo; na rua, o pedestre indiferente o ou motorista nervoso. O mal está em que, junto com o chapéu, trocamos também as nossas hierarquias de valores, conforme o ambiente em que estamos. Talvez porque, em nenhum momento de nossa vida, nessa frenética luta pela sobrevivência (ou pela satisfação da nossa sede de ter mais) tivemos acesso a um conjunto de valores realmente firme, que pudesse servir de base às nossas atitudes, qualquer que seja o contexto em que nos encontremos.

Um falso respeito ao pretenso pluralismo de nossa sociedade nos leva a ter vergonha de tratar desses valores com aqueles que nos cercam, ou então, reagimos com ironia e cinismo a qualquer alusão à ética. Quando muito, adotamos atitudes éticas, não por uma profunda convicção do que é certo e do que é errado, mas pelo medo de sermos “flagrados” em alguma ilegalidade ou transgressão. Pensamos que basta cumprir a lei para sermos éticos, como se a ética fosse algo que vem de fora de nós, que são os “outros”, e não a nossa consciência, que nos dizem o que devemos fazer, como nos devemos comportar.

Realmente, os meus amigos têm um pouco de razão. Enquanto não percebermos que a ética empresarial é fruto e conseqüência das convicções éticas de todos aqueles que formam a empresa, ou seja, nós mesmos, enquanto nos postos de comando e nos processos de tomada de decisão não houver pessoas que façam prevalecer a firme vontade de agir eticamente nos negócios, haverá sempre uma dicotomia, uma contradição, em termos, entre empresa e ética. E enquanto nas nossas famílias, nas nossas escolas - do primeiro grau à universidade - não se transmitir outro valor que não seja o de "levar vantagem em tudo", continuaremos, infelizmente, a sorrir ironicamente quando se falar em ética empresarial.

*Peter Nadas é presidente do Conselho de Curadores da FIDES - Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social.

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