Vendem-se Conselhos
por Stella Angerami Ebina*

Nos últimos anos, assistindo executivos e empresários nas questões de carreira, pude perceber o quanto eles sentem-se

solitários no exercício de suas funções. Esta sensação é mais evidente quando precisam avaliar e decidir sobre temas pessoais e profissionais não necessariamente relacionadas à equipe de trabalho. Eles admitem que o frenesi dos negócios sob efeitos da globalização ceifou da vida corporativa um tempo precioso, que gostariam de investir na reflexão do seu próprio destino. Ao privilegiarem o urgente, todos sentem estar atuando com o instinto, agindo como feras na selva de negócios, focados exclusivamente nas oportunidades de sobrevivência.

Para lidar com tamanho grau de angustia e ansiedade, os executivos têm buscado formas mais elaboradas e objetivas de auto-conhecimento. Uma delas é o aconselhamento de carreira propiciado pelos counselors. A missão do counselor não deve ser confundida com as metas de um coach ou do mentor. O coach é o treinador detentor de uma técnica, que procura ajudar a pessoa a identificar quais são os seus motivos para trabalhar, e que nem sempre estão claros. Ele desenvolve competências pessoais e interpessoais. Seu trabalho é focado na competência gerencial, ou no gerenciamento dos próprios talentos. Identifica as motivações individuais que organizam o fazer de cada um, os desejos, as intenções, as inquietudes, as expectativas. Já o Mentor é um "padrinho" de carreira, alguém cujo conhecimento e vivência profissional é superior em anos e cargo; com isso possui capacidade para a transmissão de um saber, "informações de pai para filho". Colabora com a manutenção da identidade, dos processos e da memória de uma organização.

O counselor é bem diferente. É uma figura externa ao ambiente capaz de dar conselhos baseados em vivências, experiências, estudos e informações de mercado. O foco principal é a pessoa à qual se dá o conselho. Este conceito foi idealizado no inícios dos anos 70 por Carl Roger, que criou uma liberdade em relação à rigidez do coaching. Surge como uma prática alternativa que pode recomendar, sugerir, dizer: " Olha, faz assim que dá mais certo " ou " Por que você não tenta desse jeito?". Assim, tem como objetivo o compartilhar de dúvidas, auxílio na ampliação de horizontes, aconselhamento nos momentos de tomadas de decisões, propiciando maior nível de conforto e segurança da solidão existentes em cargos executivos. Ajuda o indivíduo a não perder o eixo pessoal em momentos de mudanças, sucessão e também a encontrar novas perspectivas na carreira quando necessário. É bastante útil no acompanhamento e na implantação do plano de ação após a participação em treinamentos.

Os executivos brasileiros já acionam seus conselheiros no exercício normal de suas funções; para momentos de adaptação em novas organizações e/ou cargos; após uma fusão, cisão ou sucessão de carreira, retenção de talentos, aplicação do plano de desenvolvimento profissional e pessoal, enfim, inúmeros cenários.

Para entender como o aconselhamento de carreira funciona, cito algumas experiências.

1) Após ter participado, consecutivamente, do lançamento de dois dos maiores portais de Internet brasileiros, Yahoo!Brasil e iG, José Eduardo MacFarland, 30, utilizou os serviços de counseling para dar novo impulso à sua carreira. Depois de dez anos aproveitando as oportunidades que lhe surgiram, ele diz ter, pela primeira vez, parado para avaliar sua vida profissional. MacFarland jamais havia se preocupado sobre como a sua carreira deveria se desenvolver até sua área ser desativada em meio à crise das pontocom. O counselor colaborou com MacFarland na identificação de suas características como profissional indicando as áreas onde sua qualidades seriam melhor utilizadas. Hoje, ele está preparando a apresentação de sua consultoria de network enterprise , a LoopingGroup, especializada na utilização de novas tecnologias para o desenvolvimento de negócios e parcerias, unindo empresas, recursos e pessoas para criar e distribuir serviços e produtos sobrepondo os limites organizacionais tradicionais e os limites físicos das empresas.

2) Antonio* (nome fictício) contratou o counseling no período de negociação com uma instituição financeira. "A negociação do ativo alheio é mais fácil", disse ele à época.

3) Outro empresário apoiou-se no counselor durante o processo de separação de uma sociedade em uma empresa de construção civil. Hoje, de volta ao mercado formal, atua como diretor e planeja sua carreira por mais dez anos em corporações.

4) Após vários anos atuando em uma das maiores empresas do segmento moveleiro, estamos aconselhando um dos principais executivos na identificação de novos mercados.

5) Como desafio estamos também aconselhando um piloto profissional para que, após anos atuando na Europa, utilize seus conhecimentos no mercado de trabalho atuando em funções similares.

Assim, o counseling torna-se uma ferramenta eficaz para os executivos, o que me leva a ousar e reescrever o já famoso dito popular: conselho é bom e nós vendemos.


*Stella Angerami Ebina é Sócia Diretora da Angerami & Ebina Consultoria RH