No Pain, no Gain
por Alex Monteiro*
Muita gente me pergunta sobre o melhor caminho para se aprender inglês de forma eficaz. Respondo que não importa em que nível você estude: do básico ao avançado, em qualquer metodologia ou abordagem, o que realmente conta é sua disciplina, esforço e regularidade.
A maneira como as pessoas encaram estes três elementos para aprender um idioma lembra-me a figura daquele parente indesejável: ele está ali, e embora sua presença incomode - e muito - é praticamente impossível livrar-se dele. Não dá para dissociar aprendizado de disciplina, a qual requer motivação.
Motivar-se - e ser também motivado pelo material didático, pela escola e pelo professor - são elementos-chave para se tornar um aluno regular. Comece com a pergunta "Por que eu quero realmente aprender inglês?". Procure listar pelo menos três objetivos concretos que possam ser mensurados durante um período determinado - algo como "quero cobrir "x" unidades do livro tal" ou então "quero passar no exame tal", e fuja de respostas vagas como "quero aprender a me comunicar com o mundo" ou "quero falar inglês com fluência". Falar 'fluentemente', aliás, é o objetivo que as pessoas mais querem atingir, mas falham ao não saber determinar o que é falar 'fluentemente'.
Ter disciplina significa você saber quais são as suas reais possibilidades de estudo. A pergunta aqui deve ser "Quando posso estudar?". Refiro-me ao estudo fora da sala de aula, depois de ver novas estruturas e vocabulário. Quando você vai poder revê-los? Dê preferência a dias e horários em que há poucas chances de cancelamento por motivos nem sempre tão nobres - aquela ida ao shopping, por exemplo. Além do "quando", pergunte-se "Quanto tempo devo revisar?". Alerta: menos é mais, isto é, revisões diárias de curta duração - de vinte a trinta minutos, por exemplo - são mais eficazes que uma única sessão semanal de duas horas.
Embora seja relativamente mais caro fazer aulas todos os dias do que duas vezes por semana, o retorno é mais rápido e consistente. Uma de minhas alunas - adulta, profissional na área de comunicação e com grande rejeição ao inglês - começou a estudar inglês em setembro de 2000, começando do zero. Não sabia nem o verbo to be. Com sua própria força de vontade - e com recursos limitados, devo acrescentar - ela conseguiu desenvolver, em dois anos, a capacidade de compreender, falar, ler e escrever em inglês. Além de estudar diariamente, ela fazia todos os exercícios propostos em casa. Algumas características pessoais contribuíram para seu sucesso: autocrítica, o qual tornou seu aprendizado mais realista; capacidade de concentração, mesmo quando todos no trabalho estavam fazendo ruído em volta; pró-atividade ao receber meu feedback, principalmente quando os resultados estavam aquém do esperado. Hoje, no intermediário, ela estuda regularmente duas vezes por semana, conseguiu superar a rejeição e continua em franco desenvolvimento.
Para ilustrar melhor a questão do esforço pessoal, vou dar o exemplo de uma outra aluna - também adulta, com rejeição ao idioma, responsável pelo departamento de RH de uma grande empresa americana: embora a enorme capacidade intelectual, seu desenvolvimento tem sido marginal, pelo fato de possuir pouca autoconfiança e disciplina. Ela sabe que é capaz de aprender o idioma - apesar de línguas não ser o seu forte - mas não consegue imprimir um ritmo adequado para se desenvolver com velocidade. Seu esforço em freqüentar as aulas uma vez por semana - quando não surge um motivo para cancelá-las ou chegar atrasada - gera poucos resultados práticos.
Infelizmente, ainda não inventaram uma maneira mais eficaz de se aprender um idioma que não seja através de esforço. A não ser que você seja criança, adolescente ou extremamente talentoso e possuidor de uma extraordinária capacidade de aprendizagem- e posso dizer que em 16 anos de experiência vi muito poucos nesta condição - você deve pegar os livros e dicionários - ou outros recursos mais modernos como o computador - e trabalhar gramática, vocabulário, pronúncia, ritmo, entonação. Tudo com regularidade.
Este trabalho regular deve levar em conta o tipo de inteligência que você tem - existem formas de se identificá-las - e a partir daí estabelecer o melhor programa de desenvolvimento. Alguns exemplos: se você tem uma memória visual, procure estudar inglês com recursos que ofereçam imagens (filmes, noticiários material em CD-Rom); caso você tenha memória musical, acrescente música em seus estudos. Acompanhe as letras da canções e explore o vocabulário e pronúncia. Seu professor certamente terá enorme prazer em ajudá-lo neste tipo de trabalho, e poderá dar orientações sobre o que vale ou não vale a pena aprender. Contudo, lembre que no final das contas é a sua necessidade de aprender que conta: pergunte-se "Este vocabulário vai ser útil?".
Existe uma expressão em inglês, No pain, No gain, que quando traduzida literalmente significa que se não houver dor, não haverá ganho, progresso, etc. Esta "dor" tem de ser vista como disciplina, necessária em qualquer atividade em que desejamos nos tornar bons. Aprender um idioma não foge à regra: o contato freqüente com a língua, com revisões periódicas e organizadas certamente vai ajudar você a sair da estaca zero e ter a sensação real de progresso.
Pergunte-se também se a escola ou o professor com o qual você estuda tem estimulado você de alguma maneira. Alguns alunos que me procuram se queixam que o professor anterior "só batia papo" e não dava andamento ao programa. Fique atento à esta falsa impressão de progresso: bate-papo, numa aula de inglês, tem que ser acompanhado de pré e pós atividades. Isto é: preste atenção ao que acontece antes de começar o bate-papo, se há inclusão de novo vocabulário, novas expressões e até mesmo um trabalho de pronúncia; e também ao que acontece depois do bate-papo, como uma atividade escrita (geralmente feita fora de aula) ou leitura.
Portanto, não é só ir para a escola e fazer as atividades propostas. Ações dentro e fora da sala de aula podem contribuir para otimizar o aprendizado, melhorar a gramática e o vocabulário e levar você a dominar o idioma mais rapidamente.
(*) Alex Monteiro é diretor da Thames Idiomas