O geólogo ez o mercado de trabalho no Brasil
por Fernando Valverde*
Engana-se quem pensa que o geólogo tem uma área de atuação restrita. Desde se perder no fascinante mundo e encanto das gemas e metais preciosos, pesquisar minerais até analisar as estratificações cruzadas em uma rocha marciana descobertas recentemente pela sonda Opportunity no Planeta Vermelho, tudo depende da atuação do geólogo.
O que muita gente não sabe é que o conhecimento geológico básico é fundamental à obtenção dos confortos da vida moderna, ao desenvolvimento social e econômico e na preservação ambiental, tanto de qualquer país da Terra, como do planeta como um todo.
Você talvez me pergunte: mas o que faz um geólogo? Dentre milhares de atribuições, ele decifra os sinais das rochas sobre onde se escondem os tesouros minerais da Terra, analisa o meio ambiente, planeja a ocupação urbana, indica o melhor caminho para atravessar uma montanha, o melhor local para colocar uma represa, uma grande ponte, um arranha-céu ou para fazer um furo que forneça petróleo ou água para o nosso uso.
Essas habilidades poodem ser aplicadas em atividades como: preservação do meio ambiente, ensino e pesquisa em universidades e institutos, trabalhos em empresas de mineração e companhias de exploração de petróleo, cartografia em geral, exploração de recursos hídricos, prevenção de desastres naturais (deslizamentos de encostas, assoreamento de rios e mangues), geomatemática (aplicação de conhecimentos matemáticos a problemas geológicos), geofísica (monitoramento de abalos sísmicos, definição da geometria de corpos geológicos), geoquímica analítica (análise e interpretação de dados químicos de minerais, rochas, solos e águas), sensoriamento remoto, tratamento digital de imagens, mapeamento geológico etc.
Mas será que há mercado para o geólogo no páis? Eu diria que sim, pois existem inúmeras obras de engenharia paradas, que podem gerar emprego e desenvolvimento econômico e que precisam de licença ambiental. Hoje, não se admite mais a construção de uma obra de grande porte, sem o ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL (EIA) e RELATÓRIO DE IMPACTO AO MEIO AMBIENTE - RIMA (RIMA) *.
Isso não existia há algum tempo atrás. Para se fazer um EIA/RIMA completo é necessário ter geólogos na equipe. Por outro lado, existem e devem surgir grandes passivos ambientais: todas as obras que foram realizadas sem cuidados ambientais precisam agora despoluir os estragos que fizeram: poços de petróleo, postos de gasolina, indústrias químicas, siderurgia, fundições (areias de fundição) etc. Nas cidades moram hoje 81% das pessoas do Brasil. É preciso ocupar o espaço urbano respeitando suas limitações. É preciso proteger mananciais e áreas de servidão para fornecer matérias primas minerais. É preciso ainda proteger a população contra os deslizamentos, tarefa em que o geólogo é fundamental. Muitos desastres naturais que acontecem hoje ocorreram por não ter tido a participação do geólogo no passado.
Outro problema das grandes metrópoles é a necessidade de se planejar as cidades (Planos Diretores Municipais) reservando-se áreas para as finalidades específicas (agricultura, indústria, mineração, lazer, habitação, etc). As regiões metropolitanas no Brasil vêm, dia após dia, requerendo quantidades cada vez maiores de insumos minerais para a indústria da construção civil, como areia e brita, por exemplo. Essas matérias-primas possuem uma baixa relação preço/volume, ou seja, são grandes quantidades produzidas e baixo preço dos produtos, portanto o transporte é fundamental.
Não se traz brita da Amazônia para São Paulo, nem areia de Minas Gerais pois o preço do frete seria um absurdo. Portanto, esses bens minerais obrigatoriamente devem ser produzidos dentro ou no entorno dos grandes aglomerados urbanos. E aí surge uma situação paradoxal. Uma sociedade criando uma demanda cada vez maior de insumos minerais e, ao mesmo tempo, impedindo que a atividade se desenvolva (ninguém quer morar do lado de uma pedreira, ou porto de areia, nem tampouco de um aeroporto, ou cemitério, mas tudo isso tem que coexistir). Por isso, há necessidade de planejamento. Saber onde estão, quanto tem e para que servem os recursos minerais nos grandes centros urbanos para que se preserve e planeje um aproveitamento racional deles.
Neste quadro o papel do geólogo é fundamental. No Brasil não existe nenhuma grande cidade com essa preocupação. E cada vez mais estão buscando brita e areia mais longe. Não existem políticas de preservação destes recursos, ou seja, a reserva de áreas para a mineração atender as demandas futuras. Grandes reservas estão sendo continuamente esterilizadas. Isso é papel do governo (nas três esferas), pois destes bens minerais dependem as obras públicas (habitação, estradas, pavimentação, infraestrutura etc.) fundamentais para a melhoria da qualidade de vida das populações urbanizadas.
* O Geólogo Fernando Valverde é diretor-executivo da Anepac - Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção Civil.
*EIA - Estudo de Impacto Ambiental
IMPACTO AMBIENTAL - Conforme Resolução CONAMA 01/86, poderíamos considerar impacto ambiental como "qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem estar da população; II - as atividades sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e V - a qualidade dos recursos ambientais". Obviamente, o Estudo de Impacto Ambiental seria um instrumento técnico-científico de caráter multidisciplinar, capaz de definir, mensurar, monitorar, mitigar e corrigir as possíveis causas e efeitos, de determinada atividade, sobre determinado ambiente materializado-o num documento, agora já direcionado ao público leigo, denominado de RELATÓRIO DE IMPACTO AO MEIO AMBIENTE - RIMA.