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Memória nota 10
por Heloísa Noronha
Há alguns anos, os cientistas acreditavam que a memória tinha uma capacidade fixa, estática. Eles julgavam que cada um de nós nascia com uma determinada “cota” de armazenamento e era preciso de se conformar com isso. Felizmente, pesquisas recentes comprovaram que a memória pode ser melhorada com técnicas e práticas adequadas – em qualquer época da vida, inclusive.
Um trabalho publicado em 2000 mostrou que surgem neurônios diariamente na região do hipocampo - a estrutura responsável pela constituição de novas memórias. Em tempos de excesso de informação, em que precisamos lidar com inúmeros dados e fatos num só dia, podemos considerar essa notícia excelente. Estabeleceram-se, inclusive, parâmetros para determinar o que é (ou não) uma memória saudável. Um estudo recente realizado nos Estados Unidos garante que sofrer até cinco esquecimentos simples por dia é algo perfeitamente normal.
“É comum irmos ao supermercado e deixarmos de comprar água, por exemplo, ou comentarmos sobre algum filme com alguém e não lembrarmos o nome do ator principal”, diz a fonaudióloga Ana Alvarez, doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora no Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria da mesma instituição. “Podemos afirmar que a memória saudável nos deixa na mão poucas vezes e não costuma afetar nosso bem-estar e nossa qualidade de vida”, completa a especialista, autora do livro "Deu Branco – Um Guia Para Desenvolver o Potencial de Sua Memória" (Editora Best Seller).
Ih, esqueci!
O outro lado da moeda são os esquecimentos que nos traem, que causam contratempos e podem até prejudicar nossa carreira – apagar da cabeça o prazo de entrega de um relatório, por exemplo, deixar de enviar um fax importante ou não se lembrar o nome do cliente que está bem a sua frente. Se isso acontece de vez em quando, nada de entrar em desespero, pois pode significar, apenas, que o seu cérebro vem sofrendo um bombardeio de estímulos. Talvez não haja tempo para assimilar tanta coisa. Nesse caso, procure estabelecer uma ordem de prioridades, anotando as tarefas urgentes. “Mas o grau de envolvimento e de motivação com as atividades oferece pistas importantes”, avisa o neurologista Rubens Galiardi, vice-presidente do Departamento de Neurologia da Associação Paulista de Medicina (APM). Em outras palavras, você pode simplesmente não encontrar mais satisfação naquilo que faz.
Doenças como transtorno do déficit de atenção ou dislexia costumam ser confundidas com distúrbios da memória, mas, na verdade, prejudicam a concentração. Excesso de bebidas alcoólicas, fumo, consumo de drogas ou de ansiolíticos (medicamentos contra a ansiedade) e antidepressivos também contribuem para os lapsos. E, em muitos casos, os esquecimentos são um sintoma, e não uma enfermidade em si. Depressão, estresse, hipertensão e disfunções na tireóide, por exemplo, podem provocar dificuldade de guardar ou lembrar determinadas coisas. Nesses casos, remédios sob orientação médica são recomendados, mas para tratar o problema como um todo. Os especialistas afirmam que nunca foi comprovada a eficácia de medicamentos milagrosos, naturais ou não, à base de fósforo, fostato ou ginkgo biloba, que prometem melhorar nossa capacidade de memorização.
Segundo os experts, vale mais a pena investir numa alimentação balanceada, rica em vitaminas, proteínas, minerais e fibras, porque o estilo de vida e os cuidados com a saúde afetam diretamente no funcionamento da mente e da memória. Portanto, praticar exercícios físicos, adotar técnicas de relaxamento (massagem ou meditação), cultivar um hobby e dormir, em média, oito horas por dia, são atitudes aconselhadas. “Tentar afugentar o estresse, lidar com tristezas e frustrações de maneira sadia e madura e parar de se preocupar com coisas irrelevantes também operam mudanças positivas”, salienta Ana Alvarez, que faz uma observação importante: “Essas providências também combatem futuras falhas de memória durante o processo de envelhecimento. Aliás, à medida que a idade avança, nos tornamos mais lentos, sim, mas não incapazes. A capacidade de aprendizagem vai depender de como conduzimos nossa vida.”
Para afiar a mente
A principal recomendação dos médicos para que a memória permaneça em constante estimulação é levar uma vida ativa, variada, com desafios. “O contato com o mundo, com as pessoas e com as novidades é fundamental, além de se dedicar a aprender idiomas e assuntos diferentes, como lógica e filosofia”, assegura a fonaudióloga Ana Alvarez. “O aprendizado e a leitura são importantes, mas deve haver concentração, caso contrário você não consegue assimilar aquilo que está diante dos olhos”, avisa o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O conselho vale até para o momento de guardar as chaves ou os óculos em algum lugar, ou ainda, se lembrar em qual piso do shopping deixou o carro. “As informações só nos são úteis se soubermos estabelecer uma conexão entre elas, e isso apenas é possível com a atenção. A motivação e o envolvimento naquilo que estamos fazendo também é essencial. Não adianta nada desenvolver uma tarefa de maneira automática, pensando em outra coisa”, ressalta ele. Segundo Ana Alvarez, sem a atenção os mecanismos naturais de fixação não funcionam. “Reparar nos detalhes, nos gestos e nas expressões faciais de um interlocutor ajuda a recordar rostos, nomes e ocasiões”, explica. Outra idéia: achar um traço em comum entre as pessoas que têm o mesmo nome, para não esquecer como se chamam. Considerar que os “Felipes” que você conhece têm barba, por exemplo. Um truque para memorizar o nome de alguém que acabou de conhecer é repeti-lo várias vezes durante a conversa.
Praticar atividades que exijam concentração e raciocínio são ótimos artifícios. Bons exemplos são fazer palavras cruzadas em nível crescente de dificuldade e entreter-se com jogos como xadrez e dama, nos quais temos a obrigação de formar estratégias, que estimulam a capacidade mental. Usar a agenda para registrar números, datas e compromissos diários evita sobrecarregar a memória e nos torna mais aptos para enfrentar o excesso de informações com os quais temos de lidar a todo instante.
Tente, ainda, transformar ações rotineiras em desafios, fazendo compras em um supermercado diferente, onde você desconhece a organização dos produtos, ou experimentar um novo percurso de casa para o trabalho. Em seu livro "Cuide de Sua Memória", da coleção Essencial (Editora Nova Cultural), Ana Alvarez ensina a desafiar a memória de forma lúdica. Para ela, vale a pena tentar guardar alguns produtos da sua lista de compras. Comece com quatro itens, e a cada semana escolha uma categoria – os produtos de higiene pessoal, por exemplo. Aumente o número de itens a memorizar usando categorias variadas, como o que deve ser comprado que começa com a letra “C”, e por aí vai. Faça ainda associações variadas e esquisitas, usando a imaginação para ligar nomes, idéias e palavras. Já falamos da importância dos exercícios físicos, mas um deles, em especial, é imprescindível: andar. Caminhar facilita a liberação de endorfinas - substâncias que proporcionam a sensação de bem-estar - e retardam o envelhecimento do cérebro, tornando nossa memória mais ativa por mais tempo. E, por último, nunca se esqueça, com o perdão do trocadilho, de respeitar os seus limites. A mente avisa quando está a ponto de entrar em colapso. Simplesmente pare e vá se distrair. Só retorne à atividade quando estiver se sentindo melhor.
Jogos da memória
Ela é uma só, mas os especialistas a dividiram em tipos para entendê-la melhor. São eles:
Fases da memória
Fase 1 – atenção e recepção da informação
Como é – os cinco sentidos (audição, tato, paladar, visão e olfato) entram em ação, captando os detalhes daquilo a que prestamos atenção e enviando essa mensagem ao cérebro. Nesse estágio, o cérebro seleciona as informações, armazenando aquelas que considera importantes e descartando as demais. A concentração é fundamental, pois nosso cérebro só consegue guardar aquilo a que damos atenção.
Como aprimorar – escolha um objeto e examine-o por um minuto. Observe o maior número possível de detalhes, depois feche os olhos e recrie o objeto em sua imaginação.
Fase 2 – armazenamento da informação
Como é – a informação é processada pela região do cérebro chamada hipocampo, onde, por meio de reações químicas específicas, ocorrem mudanças que possibilitam a memorização. Se muitos estímulos entram ao mesmo tempo, sem prioridade, acabam por confundir o hipocampo, o que impede o estabelecimento de associações adequadas.
Como aprimorar – o truque consiste em associar a nova informação que desejamos armazenar com algo que já sabemos e recordamos bem. Um modo de memorizar a palavra girassol é dividi-la em duas partes, “gira” e “sol”, lembrando que a flor costuma se virar para o sol, a fim de desfrutar sua luz. Outra solução é se lembrar das coisas por meio de figuras, transformando-as mentalmente num desenho ou numa cena de filme ou novela. Prestar atenção nos detalhes e nas sensações (temperatura, aroma) e repetir informações em voz alta, como se estivesse decorando uma matéria para uma prova, também ajudam.
Fase 3 – recuperação ou resgate
Como é – essa fase acontece sempre que acessamos os dados armazenados na memória. É o que chamamos de lembrança.
Como aprimorar – uma das técnicas mais utilizadas é o retorno às condições do momento do armazenamento da informação. Devemos pensar no lugar onde nos encontrávamos, com quem estávamos, quais eram os fatos que acompanhavam o momento da aprendizagem e, principalmente, que emoções isso tudo nos despertou. Para se lembrar de onde guardou um objeto, por exemplo, refaça mentalmente todos os seus passos, tentando lembrar os detalhes de suas ações.
Fonte: "Cuide de Sua Memória", de Ana Alvarez, coleção Essencial (Editora Nova Cultural)