continuação
O caminho menos percorrido
por Margot Cardoso
“A vida é difícil”. Este é o início do primeiro capítulo do maravilhoso livro “The Road Less Traveled” do psiquiatra M. Scott Peck (infelizmente, ainda não traduzido no Brasil). E se esta é uma lupa que serve para a vida, aproximada ao mundo profissional, é mais adequada ainda. As exigências estão sempre nos nossos calcanhares: competência a toda prova; formação superatualizada; marketing pessoal afiado e domínio de línguas e de códigos de conduta. E isto tudo permeado pela luta constante contra a nossa natureza que tende sempre para a imperfeição. Mas, está tudo bem. Você é um profissional top de linha, tem todas as ferramentas, a fórmula certa e trabalha em uma magnífica empresa. Perfeito? Não.
Certa vez, um consultor especializado em vendas falava da sua experiência e comentou que um profissional o procurou desesperado. Minuciosamente mostrou como era a sua rotina, sua organização, sua estratégia de trabalho e questionou: “Doutor, apresentei a você toda a minha experiência, todos os meus diferenciais. Agora me responda: por que eu não estou vendendo?” Diagnóstico? Simplesmente, o vendedor não sabia ouvir, não tinha equilíbrio, não tinha sensibilidade... Era um chato.
Recentemente, presenciei uma cena surrealista no cabeleireiro. O cabeleireiro insistia para a cliente procurar outro profissional. “Ouça, você não sabe como quer o corte ou eu não estou entendendo, então provavelmente não vai gostar do resultado. Procure outro cabeleireiro ou volte outro dia”. Mesmo diante da delicadeza e diplomacia do profissional, a cliente ficou o tempo inteiro criticando cortes e não dizia afinal qual era o que ela queria. Era a encrenqueira da vez. Incapaz de tomar uma decisão em um clima pacífico.
Antítese do marketing pessoal, os problemáticos (só para simplificar) inviabilizam negociações, parcerias, convívio: ninguém agüenta. Em tempos de encantar clientes, surpreender chefia e inovar, eles pecam porque vão contra tudo isso. Por quê? Pela própria definição do adjetivo. Chato quer dizer plano, sem relevo, liso, sem elevação, rasteiro. O significado figurativo destes adjetivos é maçante, sem surpresas, repetitivo, monótono. O conflituoso espalha um clima de revide, de guerra, onde ninguém se sente seguro. E está provado que o estresse mata. É o retrato mais bem acabado do desequilíbrio: em uma ponta, a mais absurda monotonia, na outra, nervos em frangalhos.
Porém, o grande perigo é que estes comportamentos podem mascarar problemas mais graves que precisam ser resolvidos, tratados. Eles são apenas o indício visível de um problema muito maior.
Ok. A imperfeição é o principal traço da nossa humanidade. É o nosso sal. Somos esquentados/sangue frio, pró-ativos/passivos demais, impulsivos/lentos, solares/lunares... Mas, se o seu “sal” estiver inviabilizando os seus relacionamentos (e não fica restrito apenas aos profissionais). Tenha coragem de buscar a cura, de trilhar o caminho com a ajuda especializada, com um terapeuta, psicólogo ou psiquiatra. Tenha coragem de trilhar o caminho menos percorrido.