A nova dimensão da empregabilidade
Padronizar um modelo universal para a empregabilidade é querer pasteurizar a própria essência do homem
A equação empregado-empregador vem sofrendo reestruturações constantes e já existe o entendimento de que a dedicação extremada ao trabalho vem se revelando um problema. Antes de tudo, somos seres humanos com interesses e desejos diversificados que extrapolam, em muito, a atividade profissional.
Via de regra, as atmosferas laborais de hoje ainda se encontram muito aquém do mínimo desejável, comparativamente entre a parafernália tecnológica já comprada, instalada e disponível e o que é permitido em termos de oportunidades inventivas para o corpo funcional.
O trabalho é uma atividade fundamental para todos os seres que habitam o planeta e o mundo corporativo está abarrotado de cartilhas, manuais, livros de gestão e negócios, de auto-ajuda, enfim, de diversas tábuas de mandamentos com instruções precisas de como se manter empregável. No entanto, padronizar um modelo universal para a empregabilidade é querer pasteurizar a própria essência do homem; é querer transformar todos em um todo genérico.
E nos é impossível ignorar a nossa própria história de vida a título de nos transformarmos em um “perfil ideal”.
Seguir por essa trilha é permitir-se chegar a uma encruzilhada em que uma das setas estará apontando para o desemprego e a outra para a empregabilidade infeliz.
Por mais que nos esforcemos, sempre nos sobrará um característico sotaque caipira ou urbano. Não existe regra única para a realização pessoal em qualquer aspecto da atividade humana.
Nós não somos unidimensionais. Ninguém consegue ser mãe, filho ou marido o tempo todo. Da mesma forma, é suicídio comportar-se todo o tempo como contador, gerente de marketing ou vice-presidente executivo. O exercitar dessa filosofia de existência é a exata sinonímia de nos transformarmos em carcereiros de nós mesmos.
O cenário novo presume o fim da dependência ofuscante ao negócio. A sofisticação das oportunidades e a maior flexibilização exigida atualmente criaram um profissional emergente: aquele que fornece habilidades e conhecimentos diferenciados para uma ou mais organizações, simultaneamente.
Não mais a linha reta, mas, sim, o conhecimento é o que passa a ser a menor distância entre dois pontos. Não existe mais espaço para o tratamento linear, para a não-contemplação do desempenho diferenciado, para a não-distinção das contribuições específicas dos talentos individuais. O novo perfil profissional se molda muito mais ao de um investidor do que, propriamente, ao de um empregado.
Diminuem os espaços para organizações que se apresentam no mercado como simples compradoras de horas de trabalho. Hoje, elas são agentes agregadoras de talentos, fornecedoras de infra-estrutura ágil, facilitadoras da socialização do aprendizado, formadoras de equipes multidisciplinares.
No contexto atual do mercado de trabalho, o profissional é a sua própria marca.
O mundo mudou. E o fez em uma aceleração jamais presenciada anteriormente, pegando-nos a todos de surpresa. Os projetos de vida traçados para toda uma existência perderam consistência e, quase anualmente, devem ser refeitos.
A era das incertezas de John Kenneth Galbraith está aí, incomodamente presente. Perversamente desestabilizadora. Solapando-nos as esperanças. Colocando-nos frente a frente com um destino jamais imaginado.
Porém, a vida é uma via de mão dupla, é processo contínuo de ir e vir, mão e contramão, côncavo e convexo e, portanto, se existe uma sensação latente de instabilidade, de fragilidade, de constrangimento, de inconstância e de revés, os sentimentos não análogos a esses também continuam presentes nesse nosso atual ambiente.
Procurar distingui-los e amplificá-los para nós mesmos a fim de que deles cada vez mais nos apercebamos é tarefa personalíssima e que requer pleno conhecimento das nossas próprias potencialidades, um constante aperfeiçoamento de múltiplas habilidades e, fundamentalmente, que nos mantém abertos e dispostos para sermos parte integrante de um mundo em permanente e acelerada transformação.
Cada vez mais, cabe-nos a responsabilidade de navegar no comando do leme da nossa própria embarcação. Alienar-se desse encargo é a exata sinonímia de naufrágio, mesmo que ainda estejamos com as âncoras lançadas e atracados no cais de partida. Não há mais lugar para os que pretendem fazer das organizações o seu porto seguro.
*Geraldo Ferreira de Araújo Filho é consultor de estratégias corporativas, professor e autor de A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados e Empreendedorismo Criativo, a nova dimensão da empregabilidade .