Sucesso depende de merecimento?
Merecer é tornar-se competente o suficiente para conquistar aquilo que se quer
Por Elizabeth Zamerul*
Num dia desses, vi a seguinte frase no banner de um petshop : “Mime o seu cão como ele merece”. A frase me causou enorme estranheza e pensei: Como assim? Há cachorros que são dignos de mimo e outros não? Qual o critério desse merecimento? Eu, que sempre desconfiei muito deste conceito, comecei a divagar...
E pessoas? Algumas têm o direito ao sucesso e outras não? Em relação às crianças, a resposta parece óbvia. Algumas ganham presentes porque foram obedientes, tiraram boas notas ou “não deram trabalho” aos pais. E para os adultos, como funciona isso? A explicação mais fácil para essa questão é que aqueles que lutaram decentemente ou que se esforçaram muito para obter algo são merecedores. Aqueles que foram preguiçosos, desobedientes, folgados (a lista pode ser bem longa) não são dignos de sucesso na vida.
Portanto, pelo senso comum, para a criança, adulto ou bichinhos de estimação, o conceito de merecimento vem carregado de moralismo, isto é, a pessoa é digna do melhor quando cumpriu determinadas regras ditadas pelo seu ambiente social, se comportou de certa maneira e satisfez as expectativas do outro.
Mas, por que dar tanta atenção a esse tema? Porque a questão se agrava quando o indivíduo assume a ausência de merecimento e analisa os maus resultados obtidos na vida em função disso. Trata-se de um condicionamento que atua quando ele vive alguma contrariedade, como um “fracasso” no relacionamento amoroso, ou quando busca um emprego e não consegue, ou perde uma promoção, algo ou alguém. Dentro dessa visão, sua percepção é que a falta de êxito é por não ser merecedor. E se chega a esta conclusão, o que ele pode fazer para mudar este fato? Este é o problema, não há saída. Por isso, muitos ficam imobilizados e se deprimem.
Vejo também alguns profissionais da psique tentando ajudar pessoas a acreditar que todos são igualmente merecedores da felicidade. Olhando por um ângulo, parece simpático ou motivador, mas entendo como pouco funcional, porque o conceito de merecimento inclui a presença ou a ausência dele, como duas faces de uma moeda. Não creio que seja possível reduzi-lo a apenas uma face da moeda. Pois continua-se estimulando o uso deste parâmetro para a auto-avaliação.
Minha visão é de que a interpretação do merecimento no senso comum é distorcida e complicada, ou melhor, ilógica, não realista e perigosa, pois funciona como uma gangorra: num dia pode empurrar a pessoa para cima e no outro, desmotivá-la. Além disso, distrai a pessoa do que mais importa, ou seja, do seu poder real de obter resultados a partir da sua habilidade para fazer acontecer.
Simplificando, segundo o Dicionário Aurélio , merecer é conseguir em virtude de seus méritos. Sendo assim, a idéia do merecimento pode ter lógica, desde que a pessoa se habilite, ou seja, construa méritos. Eles não vêm do além, de antes do nascimento, da infância ou de agradar alguém.
Quem não conseguiu os resultados que quer ainda não se tornou competente o suficiente para isso. É preciso usar e desenvolver cada vez mais a inteligência, que entendo como a capacidade de gerenciar os recursos, para se tornar cada vez mais hábil para a auto-realização.
Portanto, respondendo à pergunta inicial, sucesso não depende de merecimento a priori e sim a posteriori, que vem com o uso abundante da inteligência. Dá trabalho, mas é factível. Não é misterioso, não conduz a raciocínios sem saída e, garanto, funciona.
* Elizabeth Zamerul é a consultora em Recursos Humanos , especialista em coaching empresarial e relações organizacionais.