Liderança acima dos modelos e estilos
Foi-se o tempo em que as organizações desejavam uma “roupagem” para o líder. Liderança agora é exercida 24 horas por dia

Assim como o mundo pós-virada do século XX para o XXI, a liderança não é mais a mesma. Modelos e estilos não são mais a “receita do bolo” para ser um bom líder. O que as empresas e a sociedade esperam hoje é que todas as pessoas ajam como líderes, independentemente da posição que ocupam.

Na opinião de José Luiz Tejon, diretor da OESP Mídia e autor do livro Liderança para fazer acontecer , os ingredientes da liderança continuam os mesmos, o que mudou foi a velocidade com que as mudanças acontecem. “Nos últimos dez anos, a partir da ‘bolha' da tecnologia, a mudança passou a se processar com maior velocidade e o mundo da repetição, das fórmulas de sucesso, foi substituído pelo ineditismo”, justifica.

Para ele, a construção de líderes deve ser fundamentada por experiências diferenciadas, levando o grupo para discussões sobre vários assuntos, não apenas os relacionados ao negócio. “É preciso falar com a equipe sobre cultura, filosofia, amenidades, enfim, ampliar a visão das pessoas”, indica.

O consultor César Souza, autor do livro Você é o líder da sua vida , define o líder competente como uma pessoa que entende a si mesmo profundamente, conhece suas limitações e analisa suas possibilidades. Entretanto, ele alerta a quem deseja exercer o papel de líder que existe uma série de pré-requisitos, missões e tarefas específicas que precisam ser atendidos.

Esses pré-requisitos César Souza denominou “As 5 forças do líder integral” e indicam que o líder deve oferecer uma causa, não apenas tarefas; formar outros líderes, além de seguidores; liderar 360 graus, para fora das paredes invisíveis da organização; fazer acontecer e não só planejar; e inspirar pelos valores.

Entretanto, Tejon salienta que o líder moderno precisa ter cuidado com certas modalidades de liderança, por exemplo, a gestão matricial. “Esse ‘novo' líder funciona perfeitamente na administração matricial, mas, se ele for dominado pela chamada ‘política do mal', em que prevalece a acomodação, a empresa vira um caos”, adverte.

Para o executivo, o líder é responsável por toda a cadeia que envolve o negócio. Por exemplo, na indústria alimentícia, ele deve conhecer profundamente todos os processos de produção, comercialização e atuação da empresa. “Ter uma visão holística é fundamental para o seu sucesso”, sentencia.

A influência do ambiente
Para a maioria dos especialistas em liderança, o ambiente pode contribuir ou não na formação do líder. Na opinião de José Luiz Tejon, o líder moderno deve adaptar os vários estilos ao ambiente onde está. Já César Souza acredita que o ambiente contribui, mas não determina os pré-requisitos para a liderança.

O consultor cita como exemplo uma pessoa que nasceu em uma família pobre, teve de superar uma série de obstáculos durante a vida, lutar por sua sobrevivência, quando exerce a liderança, o faz de uma determinada forma. “Já outra que veio de uma família abastada, acostumada a sentar à mesa com os pais e outros líderes, como políticos, empresários, ao se posicionar como líder, será de outra forma”, pondera.

Dr. Jô Furlan, médico e treinador comportamental, considera que o líder tem uma grande capacidade de influência, baseado no que ele acredita, independentemente de onde esteja. “O líder tem o compromisso ou disposição contínua de ser o melhor que pode, entendendo que, às vezes, não vai conseguir isso em todos os ambientes”, afirma.

Na opinião de Tejon, o líder precisa fazer esforços conscientes para envolver a equipe, público externo e a sociedade numa essência. “Não significa que ele deva se transformar num condutor de massas, mas deve saber ouvir, usar símbolos, significados e ser preciso com as palavras, administrando suas aparições”, recomenda.

Para o Dr. Jô, o posicionamento deve ser muito cuidadoso quando está num ambiente diferenciado, porque o líder é alguém que está acostumado a influenciar e ter uma evidência no grupo. “As pessoas confundem o que desejam fazer com a importância que elas têm no processo. O líder é alguém que ajuda algo a ser realizado”, define.

Crenças e valores
César Souza acredita que inspirar pelos valores é o grande diferencial do líder. “Muitas vezes, os valores são decorrentes do ambiente que a pessoa viveu, de sua história de vida. Se uma pessoa viveu a tensão da guerra em Angola, vai desenvolver certos valores muito diferentes de alguém que vive confortavelmente em Zurique”, exemplifica.

“Quando ela está no centro da liderança, é por meio dos seus valores que vai determinar a causa, como vai formar outros líderes, se vai liderar para fora ou para dentro, que tipo de resultado ele vai buscar, se quantitativo ou qualitativo”, completa.

Dr. Jô Furlan explica que a liderança focada em resultados tem como base a inteligência comportamental, um novo conceito que ele está desenvolvendo no meio acadêmico com o Prof. Dr. José Roberto Leite, coordenador do curso de Medicina Comportamental da UNIFESP e trazendo para o meio empresarial com o consultor Bernardo Leite Moreira.

Segundo Dr. Jô, inteligência vem do latim intellegere e significa entre escolhas. “Inteligência comportamental é a capacidade de realizar aquilo a que se propõe. É a inteligência do êxito”, conceitua.

Ele ressalta que a inteligência comportamental reúne algumas das chamadas inteligências múltiplas, em maior ou menor grau. “É impossível ter as nove plenamente”, sentencia.

O treinador explica que o líder comportamental é extremamente comprometido, tem crenças e valores que são alinhados com o que ele está disposto a fazer, porque a sua capacidade de influência vai depender do que ele acredita; tem uma grande habilidade de relacionamento, tem uma grande inteligência intra e interpessoal, que o capacita a lidar com conflitos internos e externos; enxerga além das nuvens, descobrindo o problema real; verifica o processo continuamente, avaliando-o de forma estratégica e exerce fortemente a influência, contagiando as pessoas em prol de um resultado. “E essa influência pode ser baseada no exemplo, na pressão, no relacionamento, na visão, ou seja, a liderança não fica restrita a um modelo”, destaca.

Líder nato ou formado?
Existem correntes defensoras de que “o líder já nasce feito” e outras que defendem o seu desenvolvimento e formação. Para César Souza, formar um líder, não significa utilizar modismos, truques, conceitos, ferramentas, questionários e tentar fazer a pessoa ser o que não é. “O sonho de todo grande executivo é ser como o Jack Welch e que as outras pessoas de sua empresa sejam como ele. Isso não é viável, não dá para se clonar um líder”, avalia.

Para ele, toda empresa deveria ter uma “fábrica de líderes”, pois uma das principais características do líder eficaz é ter a capacidade de formar outros líderes e não apenas seguidores. “Boa parte das pessoas que trabalharam com Jack Welch hoje ocupam posições de presidência em grandes empresas nos Estados Unidos e há outros que não trabalharam diretamente com ele e também são líderes empresariais, ou seja, o líder não deve ter medo de alguém que venha ‘fazer sombra'. Quando a GE passou por crises enormes que exigiram cortes de custos e de pessoal, o único custo que ele nunca reduziu foi o do Centro de Treinamento de Líderes, em Crottonville, próximo à Nova York”, conta o consultor.

Confira algumas das principais características que formam o líder:

Acreditar e defender valores positivos: Não basta falar em ética, integridade, humildade e outros valores efetivamente positivos. É preciso acreditar, defender e, principalmente, praticar esses valores no dia-a-dia. Não adianta você pregar na empresa onde trabalha que é fundamental respeitar o outro, se na fila de check-in do aeroporto, neste período de crise aérea, você quer dar o famoso “jeitinho” e passar na frente dos demais que estão aguardando há mais tempo que você. Liderança não é cargo, nem quantidade de pessoas que você comanda, nem símbolo de dinheiro ou posição. É uma atitude, um estado de espírito. Seja líder pelo exemplo!

Tenha uma causa ou ajude outros líderes a defender a deles: Você pode não ter uma causa para oferecer, mas trabalha ou conhece alguém que defende uma. Pode ser um líder comunitário, seu patrão, o padre da igreja que você freqüenta. Tome a iniciativa de ajudar essas pessoas a conseguirem os resultados e sua liderança vai aflorar naturalmente.

Líderes são humanos: O líder não é um super-herói infalível. É um ser humano como você! E pode fraquejar, se cansar, ficar doente e, principalmente, errar! É nessas horas que o líder precisa de outros líderes que o ajudem a continuar sua missão.

Seja líder 24 horas por dia: Ser líder não significa apenas comandar pessoas. É comandar a si próprio, provendo qualidade de vida para você e para quem o cerca. É estabelecer e criar sempre melhores relacionamentos com sua família, amigos, colegas de trabalho. É dar uma parcela de seu tempo ao próximo, servindo à comunidade, à igreja, a seu vizinho. Seja líder em todos os lugares e não só no seu local de trabalho.

Estude sempre: O líder nunca estaciona, está sempre em busca de aprendizado. O líder ‘sabe tudo', na verdade, não sabe nada. Prossiga seus estudos. Terminou o Ensino Médio? Faça um curso superior! Acabou a faculdade? Comece uma pós-graduação! Já fez um MBA? Inicie um mestrado ou doutorado! Não tem dinheiro para fazer cursos superiores? Leia muito! Livros, jornais, revistas, sites de conteúdo formativo e informativo na Internet. Os grandes líderes também são grandes estudiosos.

Tenha foco e crie metas claras: O líder que oferece uma causa é absolutamente centrado nela, apesar de não deixar as tarefas do dia-a-dia de lado. Tenha foco em suas ações ou correrá o risco de se perder pelo caminho. Ter uma meta é um passo importante, mas saber estabelecer o percurso para alcançá-la é o que caracteriza o líder campeão. Depois de definir suas metas, anote-as na agenda, fixe-as em sua mesa de trabalho, peça a opinião de amigos e, principalmente, lembre-se: o compromisso mais importante é com você mesmo!