Pessoas comuns, feitos extraordinários
por Margot Cardoso
Saiba como implementar ações simples, mas incrivelmente eficazes para transformar sua vida, sua comunidade e o mundo.
Você já deve ter experimentado os sentimentos de impotência e desalento causados por um objetivo não alcançado, uma idéia que não vingou, um projeto que dependia do envolvimento de um grupo e com todos os seus esforços nada saiu do lugar... E até mesmo agruras íntimas, como a constatação da sua incapacidade em livrar-se de pequenos hábitos.
Resumo da ópera: é a velha história da dificuldade em mudar. Mais além: é a dificuldade do exercício da liderança, a capacidade que faz com que você seja um agente de você mesmo e dos outros. E os exemplos não ajudam, nas diversas biografias de líderes e revolucionários percebemos o quanto estamos distantes destes heróis, o quanto somos comuns.
Mas nem tudo é complexidade e labirinto e bons ventos sopram. A mais recente lufada vem de Robert Quinn, um norte-americano especialista em mudanças e desenvolvimento organizacional, professor na Universidade de Michigan, Estados Unidos. De acordo com ele, pessoas comuns como uma dona-de-casa, por exemplo são capazes de feitos extraordinários. Robert acredita que qualquer um pode ser um agente de transformação, cada um pode dar uma contribuição significativa para que uma mudança positiva ocorra em si mesmo, nos seus relacionamentos, em alguma organização ou na cultura da qual faz parte.
O princípio é o de sempre e está presente nos ensinamentos espirituais e psicológicos: a mudança interior torna possível a mudança exterior. Nesta ordem: primeiro mude a si mesmo e só depois você será capaz de mudar o externo. O professor sistematizou seus ensinamentos, transformou em cursos e agora os apresenta em detalhes no livro Mude o mundo, lançado pela Editora Mercuryo. Robert apresenta vários conceitos (didaticamente (didaticamente seguidos de exemplos) e mostra uma série de princípios de ação para produzir mudanças eficazes. Esses conceitos partem dos ensinamentos de Jesus Cristo, Gandhi e também de pessoas comuns como donas-de-casa, estudantes, executivos. O professor continuamente aponta as semelhanças de atitudes entre grandes líderes e pessoas comuns.
Robert dá o exemplo de um executivo que mencionou que já aplicava seus conceitos em casa. Ele e a mulher, quando queriam mudar o comportamento dos filhos adolescentes, olhavam, antes, para si próprios. Com a prática, tornaram-se peritos e acabaram por corrigir suas próprias falhas de integridade.
Outro grande destaque dado pelo especialista é o caráter simples desses princípios. A verdade é muito simples. Os mestres agem com simplicidade. Eles possuem confiança incondicional em si próprios e agem no momento certo de forma apropriada e altamente eficiente. É porque estão presentes inteiramente no momento e compromissados totalmente com o seu propósito. Assim, atraem por terem força criativa e moral, por terem princípios. Porque seu propósito é maior que eles. Suas necessidades individuais dão lugar às necessidades da coletividade, dos outros, detalha Robert.
Vamos a dois exemplos dados pelo especialista: um detalhe da vida de Gandhi e outro de uma dona-de-casa, nesta ordem. Gandhi, que começou sua carreira na África do Sul, organizou um protesto com a queima de passes para trabalho, exigidos de todas as pessoas de origem não européia. Começa a queima diante da polícia sul-africana. Depois de um breve discurso, um homem queima um passe e é preso. Gandhi, sem nada dizer, queima outro passe. Por causa disso, recebe um intenso golpe de cassetete no braço e cai no chão, contorcendo-se de dor. O policial adverte a multidão e, em seguida, volta-se para Gandhi, que ergue mais um passe em direção ao fogo. Ele dá um golpe no estômago de Gandhi, que cai novamente. Gandhi, porém, volta a se levantar e encontra forças para queimar mais um passe. O policial se enfurece e, com toda a força, golpeia a testa de Gandhi, que cai. Para seu espanto, o policial vê uns dedos trêmulos tentarem segurar mais um passe e levá-lo lenta e dolorosamente em direção ao fogo. Neste momento, ocorre a ruptura. A raiva do policial diminui, não grita mais ordens e o seu semblante a princípio autoritário revela desespero e confusão. O cassetete congela-se no ar, enquanto o passe é conduzido lentamente ao fogo.
O que aconteceu? Robert afirma que quando Gandhi é agredido a autoridade formal e a força física são usadas com o objetivo de manter o controle. Ao invés de reagir como as normas de costume, Gandhi responde de forma singular. Um comportamento incomum que perturba e subverte as expectativas. Leva o policial a interromper a rotina estabelecida e buscar compreensão. Nesse momento há uma brecha e o policial se depara com a força moral de Gandhi, essa força desfaz seu ódio e inspira-lhe respeito. Gandhi passa a ser visto com um ser humano de nobres propósitos, merecedor de respeito. E assim foi a trajetória de Gandhi, quanto mais ele mergulhava fundo dentro da sua própria alma, mais aumentava a intensidade do impacto externo causado por ele.
Ok. Vamos ao exemplo menos dolorido, o da dona-de-casa Delsa, aliás a própria esposa do autor. Robert conta que, no auge da rotina árdua para criar os seus seis filhos, ela recebeu o convite para ser professora voluntária de educação religiosa para uma classe de meninas de 11 anos de idade, e, apesar das exigências familiares, aceitou o desafio. Certo dia, pouco depois de ela ter assumido o compromisso, ele chegou em casa e havia um lindo bolo sobre a mesa. Mas, não era um bolo comum, tinha o formato de uma boneca e estava enfeitado como uma obra de arte. Delsa tinha demorado praticamente o dia inteiro para fazê-lo. Ela me explicou que era para uma das meninas da sua classe, para o seu aniversário. Ela estava indo para a aula e ia oferecê-lo a essa menina, recorda Robert.
Quando voltou, Delsa descreveu a surpresa e a alegria da menina ao receber o bolo. Eu perguntei a Delsa como as outras meninas reagiram. Ela disse que ficaram muito animadas e queriam saber se ela iria fazer um bolo como aquele para o aniversário de cada uma. Delsa respondeu que pretendia fazer exatamente isso, e foi o que fez! Nos meses seguintes, passou longas horas preparando aulas muito detalhadas, objetivas e criativas. Deu início a um trabalho de orientação. Conversava com as meninas pelo telefone e passava algum tempo com elas, individualmente, conta Robert.
Após certo tempo, os pais de cada uma das meninas entraram em contato com Delsa para agradecer-lhe por tudo que estava fazendo. Todas as meninas haviam mudado de uma maneira muito positiva. Alguns agradeceram porque suas filhas mudaram de atitude em relação à Igreja. Outros contaram histórias de como as meninas haviam mudado individualmente. Algumas estavam se tornando mais disciplinadas, outras mais sensíveis, outras mais receptivas a seguir instruções, detalha. As meninas haviam tido muitos professores, mas Delsa era diferente. Era uma professora transformacional e, portanto, um agente de mudança transformacional.
Ela havia inspirado as meninas a mudar porque ela própria exemplificara o processo de mudança para fora do sistema normal. Seu comportamento incomum os bolos, as aulas criativas, os projetos de assistência, as conversas ao telefone e seu próprio modo de ser haviam induzido as meninas a mudar e a imitá-la, a serem mais voltadas para dentro e focadas nos outros. Mesmo depois de muitos anos, muitas destas meninas mantiveram contato com Delsa.
O autor explica que certa vez comentou com a esposa a riqueza desses relacionamentos e ela confidenciou que quando começou a dar as aulas não se sentiu imediatamente cativada por nenhuma delas. Mas que isso não durou muito. Quando percebi que era meu dever servi-las, fiz isso e, quando comecei a fazer sacrifícios para servi-las, passei a vê-las de maneira diferente. Comecei a enxergar o que havia além de suas fraquezas, a ver o seu potencial. Quanto mais sacrifícios eu fazia por elas, mais queria que elas crescessem. Em pouco tempo, preparar aulas, fazer bolos, elaborar projetos de assistência deixou de ser sacrifício e virou alegria. Quanto mais as meninas percebiam minha felicidade e a minha preocupação, mais se empenhavam em tentar coisas novas. Quanto mais experimentávamos novas atividades, mais pensávamos em tentar outras. Uma coisa boa parecia conduzir a outra, contou.